Por Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br)
Todos concordam que algumas histórias deveriam permanecer entre quatro paredes, mas Muito Prazer (2026) mostra que nem sempre elas ficam só por lá. Com estréia marcada para esta quinta-feira (27), a nova comédia de Jorge Furtado, responsável por produções como Saneamento Básico, O Filme (2007) e Meu Tio Matou Um Cara (2004), torna a privacidade, o consentimento e a exposição em matérias-primas para abordar humor e dilemas éticos.
A narrativa acompanha Rubem (Daniel de Oliveira), um homem solitário que, apesar de ser formado em administração, trabalha como motorista de aplicativo. Sua vida muda quando ele recebe uma inesperada herança deixada pelo tio: um motel em condições precárias. O imóvel, que não está em funcionamento há um bom tempo, vem acompanhado de uma série de dívidas e não pode ser vendido. É nesse cenário que Rubem conhece Grace (Luisa Arraes), antiga funcionária do estabelecimento. Os dois decidem, então, formar uma parceria para tentar reerguer o motel.
Mesmo depois de um episódio de assalto, o protagonista segue disposto a investir no estabelecimento e compra algumas câmeras de segurança. Após a instalação, ambos percebem que ainda restavam equipamentos. Eles brincam com a possibilidade de instalá-los nos quartos para observar os hóspedes, mas o que começa como uma simples piada se transforma em uma ideia de negócio. É nesse ponto que Muito Prazer encontra seu principal conflito: até onde é possível transformar a intimidade de outras pessoas em mercadoria?
O longa, assim como outros de Furtado, desenvolve sua comédia sem forçar o humor com situações mirabolantes. A comicidade é induzida através de reações, falas e ideias das personagens que são naturalmente engraçadas e extraem risadas do público com pouquíssimo esforço. Apesar deste aspecto positivo, o filme ainda deixa a desejar em alguns momentos ao esquecer lacunas expostas, mesmo que nenhuma delas afete diretamente a compreensão dos acontecimentos.

Conforme a ideia de vender os vídeos em sites adultos ganha proporções maiores, a dupla principal recorre a Nalva (Samantha Jones), que possui conhecimento sobre gravação e edição de vídeos. Ela se junta ao empreendimento e, apesar dos riscos, o plano dos três começa a gerar retorno financeiro. O dinheiro permite que o motel passe por melhorias e, consequentemente, atraia um número maior de visitantes. Logo, porém, o sucesso faz surgir um novo problema em relação à proteção da identidade dos clientes que aparecem nas gravações.
A solução encontrada pelo trio é substituir digitalmente os rostos das mulheres filmadas pelo rosto de Grace. Assim, eles criam uma página de vídeos eróticos supostamente protagonizados por ela e transformam a personagem em uma espécie de identidade fictícia para preservar a identidade dos hóspedes, ainda que de maneira questionável.
A estratégia é eficaz por um tempo, mas começa a desmoronar quando um parente de Grace a reconhece em um dos vídeos e funcionários de um motel concorrente passam a suspeitar da existência de câmeras escondidas no estabelecimento. É neste momento que a situação começa a ficar perigosa e arriscada, mas sem comprometer o humor, pois ele permanece presente mesmo nos breves momentos de tensão.

orge Furtado, o diretor e produtor deste lançamento, é conhecido por transitar entre a comédia, o romance e a crítica social e construiu uma filmografia marcada por personagens comuns envolvidos em situações pouco convencionais. O diretor mantém seu interesse por situações absurdas e personagens imperfeitos, mas volta seu foco aqui para dilemas contemporâneos, como privacidade, tecnologia e exposição da intimidade. O público pode esperar uma comédia que, além de explorar o absurdo da situação vivida pelos personagens, utiliza o humor para questionar os limites entre entretenimento, consentimento e invasão da vida particular.
O trio de protagonistas também reúne nomes de trajetórias distintas no audiovisual brasileiro. Daniel de Oliveira, que interpreta Rubem, já havia trabalhado com Jorge Furtado em outras produções, sendo Muito Prazer a quarta parceria entre os dois. Dessa vez, seu personagem é um indivíduo tímido, criativo e determinado. Luisa Arraes, conhecida por trabalhos como Grande Sertão (2024), assume o papel de Grace, uma mulher bem-humorada, despreocupada e de personalidade forte. Já Samantha Jones interpreta Nalva, personagem responsável por trazer ao grupo seus conhecimentos sobre tecnologia.
A química entre os três é fundamental para o funcionamento da comédia, já que boa parte do humor nasce justamente das diferentes personalidades e das decisões cada vez mais inusitadas tomadas pelo trio.

Embora a narrativa aborde a sexualidade, momentos de intimidade e se passe em um motel, não há registros de nudez e as cenas de sexo não se prolongam muito, apenas o suficiente para dar sentido à situação reproduzida. É no mínimo curioso e interessante observar como um filme que discute a exposição da vida pessoal alheia respeita os atores e não exibe seus corpos em performances desnecessárias.
A estética também é muito bem pensada para transmitir uma energia vibrante e animada ao espectador. Desde os figurinos dos personagens até os cenários, tudo é colorido, com cores saturadas e elementos decorativos que adicionam personalidade às pessoas e aos ambientes — principalmente os quartos do motel — com o excesso de informações visuais.
A fotografia é outro objeto de destaque, com diferentes pontos de vista, enquadramentos e jogos de câmera que abrangem toda a dimensão dos ambientes em cena através de diferentes perspectivas. Durante o filme, a fotografia está constantemente em harmonia com a iluminação, que por sua vez é muito bem pensada para trazer visibilidade e imersão aos cenários. Esta combinação gera imagens nítidas e vívidas mesmo em cenas noturnas e chuvosas.

O início, no entanto, provoca no espectador a sensação de ser lançado repentinamente no meio da história, já que aspectos importantes da vida de Rubem, como sua rotina, seu trabalho e até mesmo a maneira como descobriu que herdaria o estabelecimento, não são apresentados.
Outro elemento que provoca uma quebra de expectativa é a relação entre Grace e sua mãe. Quando a personagem menciona sua figura materna pela primeira vez, a impressão transmitida é a de que as duas mantêm uma relação conturbada e possivelmente tóxica. Porém, após a aparição da mãe, fica evidente que a dinâmica entre elas não corresponde à expectativa construída anteriormente. Há um contrassenso.
A narrativa seria mais completa se desenvolvesse melhor as relações entre as personagens. Rubem demonstra interesse por Grace desde o início, mas a maneira como ela passa a corresponder aos seus sentimentos soa um tanto repentina. Além disso, a ideia de que Rubem recorre a uma pessoa com quem interagiu apenas uma vez, por uma fração de minutos, para cometer um crime ao seu lado, parece pouco plausível.

No entanto, por se tratar de uma comédia, a construção de uma narrativa mais aprofundada e continuamente lógica torna-se menos necessária, uma vez que este não é o foco da produção. A ausência destes elementos tampouco compromete o desenvolvimento da história, que tem no humor singelo e enredo envolvente o coração de sua narrativa
No fim, vale a pena acompanhar a transformação das necessidades, desafios e, principalmente, pensamentos do grupo ao longo do filme. Juntos, eles vão gradualmente de curiosidade e culpa por gravarem e assistirem aos clientes sem o conhecimento deles para ambições e preocupações genuínas com a ética.

‘Muito Prazer’ já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem da capa: [Imagem: Reprodução/Youtube:@elostudiosoficial]
