Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br)
A estreia da quinta e última temporada de Outer Banks (2020 – 2026) está prevista para o dia 20 de agosto. O anúncio oficial foi confirmado com o lançamento do teaser, em 18 de junho, e desde então, a comunidade de fãs especula sobre os últimos passos da trajetória dos Pogues.
Nessa última aventura, os personagens principais John B (Chase Stokes), Sarah (Madelyn Cline), Kiara (Madison Bailey), Pope (Jonathan Davis) e Cleo (Carlacia Grant) seguem sua jornada mais determinante e perigosa, comovidos pelo luto e pela busca por vingança após os eventos marcantes da temporada anterior, como a morte de um dos personagens mais queridos pelo público, JJ, protagonizado pelo ator Rudy Pankow.

O enredo, que conta a história de 4 amigos que saem em busca de um tesouro antigo com o objetivo de achar o pai desaparecido do líder do grupo, está perto do fim. Nas contas oficiais nas redes sociais da série, os criadores Shannon Burke, Joana Pate e Josh Pate publicaram uma carta aberta aos fãs, onde revelaram que a trajetória de mistério e de caça ao tesouro duraria apenas cinco temporadas. Ainda na carta, eles citam que a amizade entre os Pogues e a diversão do surf no paraíso da Carolina do Norte foram propostas para a construção da estética da série.
O fim de uma Era
Em entrevista à Jornalismo Júnior, Israel, dono da página Outer Banks Brasil no Instagram, contou que os fãs estão ansiosos para acompanhar os episódios finais da série. O próprio entusiasmo do fã demonstra o nível de animação do público para o desfecho: “Conheci a série em 2023 e minha ansiedade está a mil, para ver como vão encerrar a história dos Pogues”.
De acordo com Israel, a amizade e a lealdade que os personagens têm uns com os outros é o que mais atrai a comunidade de fãs. Cada temporada conseguiu evoluir sem perder a essência da série, sempre trazendo novos desafios, vilões e diferentes aventuras. Ao longo de cada episódio, os criadores trouxeram novos tesouros e uma história mais perigosa, e é isso que aproxima o público, segundo ele.
Sobre o desenvolvimento dos personagens, ele comenta que houve um amadurecimento perceptível entre Sarah (Madelyn Cline) e John B (Chase Stokes), que enfrentaram a perda dos pais, situação comum na realidade de muitos adolescentes, com impactos no senso de identidade e isolamento social.
Na opinião do fã, todos os arcos narrativos foram bem desenvolvidos e cada um teve sua importância para a história. “Prefiro um final totalmente fechado, sem deixar nada em aberto”, comenta.

Na última temporada, o foco será a vingança pela morte do personagem de Rudy Pankow e a recuperação da Coroa Azul, o tesouro perdido da quarta temporada. Essa abordagem de aventura e caça ao tesouro funcionou durante todas as temporadas e se tornou essencial para a manutenção do público da série.
Lições e valores tratados
Outer Banks é uma produção que traz reflexões sobre as desigualdades existentes em uma mesma região, a diferenciação entre Kooks (elite local) e Pogues (trabalhadores comuns) evidencia os problemas estruturais na sociedade ficcional. Os Kooks são os moradores ricos e privilegiados da classe alta que vivem na parte nobre. Eles representam um contraste social e econômico direto em relação aos Pogues, que pertencem à classe trabalhadora e moram na região periférica da ilha.
Além disso, problemas com os pais, questões emocionais e a representação da adolescência são tópicos abordados no roteiro de Outer Banks. A maioria deles contextualiza a realidade dessa faixa etária, aponta a psicóloga e terapeuta ocupacional Ila Linares, em entrevista à Jornalismo Júnior.
A psicóloga ressalta que séries que retratam esse tipo de fase podem ser interessantes, na visão de tradução dos sentimentos e sensações de um grupo que é pouco colocado como objeto de estudo, os adolescentes.
Ila Linares tem a adolescência como foco de sua pesquisa de pós-doutorado, também as questões psicológicas e causalidades de certos comportamentos que ocorrem nessa fase. Ela afirma que esses programas conseguem transmitir a validação e um debate útil para os pais desses adolescentes, quando eles se dispõem a assistir esse tipo de conteúdo para compreender certos comportamentos e eventualmente, abrir um diálogo com esse adolescente sobre esse tipo de série.
“Conteúdos que retratam, de alguma maneira, a realidade que essa faixa etária vivencia, podem ser úteis até para o diálogo entre gerações”
Ila Linares
Rebeldia e inserção de perigo
A busca pela sensação de risco é inerente à condição da adolescência. Do ponto de vista psicológico, o distanciamento da base familiar é comum e isso nasce da tentativa de começar um processo de construção de identidade.
Outer Banks é o tipo de série que mostra adolescentes que não necessariamente lidam com os problemas da melhor maneira. Ila acentua que esse tipo de conteúdo pode sinalizar ao telespectador que séries são apenas ficção, e que nem tudo precisa ser reproduzido, por mais que a narrativa dos personagens se assemelhe com a realidade de comunidades marginalizadas.

A redenção do anti-herói Rafe é a mais esperada pelo fandom da série. Suas ações extremas contra sua própria irmã, Sarah, para obter a aprovação do pai, mostram o desenvolvimento do antagonista como um personagem de temperamento explosivo. A evolução de Rafe e sua necessidade de validação familiar fazem a página da série no Brasil acreditar que seu destino será ajudar a irmã e se sacrificar pelo grupo que tanto prejudicou ao longo da história.
Em Outer Banks, o desenvolvimento emocional dos personagens é impulsionado por traumas profundos de abandono, dinâmicas familiares abusivas e a necessidade urgente de sobrevivência. Em vez de uma adolescência comum, o grupo enfrenta perdas intensas, o que resulta em comportamentos impulsivos, mecanismos de defesa e laços de lealdade fortificados.
“Quando a gente tem um adolescente numa condição de maior vulnerabilidade, sem interlocução e com atravessamentos, não só socioeconômicos, mas também psicológicos, esse tipo de série pode ter um peso maior”
Ila Linares
O apoio fraterno é apontado na série como um caminho para instabilidade nas relações familiares, a ausência e o combate da fragilidade dessas relações. As pressões dessas amizades podem influenciar as escolhas e o comportamento dos jovens, porém, a psicóloga argumenta que a influência não é somente condicionada a adolescentes com estruturas familiares instáveis. O ambiente social, em alguns momentos, pode permitir o indivíduo a ser influenciado por coisas que não condizem com a base que ele está inserido.

O processo de estruturação de personalidade tem inúmeras variáveis que contribuem para essa consolidação: ambientais, sociais e biológicas. No ponto de vista da psicóloga, indivíduos que cresceram em contextos considerados de risco socioeconômico, político, de violência ou de traumas têm maior disposição à vulnerabilidade. No entanto, essas questões não podem ser vistas como relações de causalidade, e sim, de predisposição.
“Não é todo adolescente que cresceu num ambiente de vulnerabilidade que vai ser mais influenciado para um comportamento negativo”
Ila Linares
Segundo a Ila, a visão crítica deve começar na infância. “A gente não é ensinado a pensar o porquê das coisas né? Mais do que dizer o que é certo e o que é errado, devemos promover a reflexão porque eu acho que, com adolescentes, quanto mais temos um tom prescritivo, pior é o efeito do que a gente produz.”, destaca a especialista.
O papel psicológico de um evento traumático
Ila aponta a diferenciação de um estresse tolerável de um estresse tóxico. O estresse tóxico vai além das adversidades da vida, a exposição a violência que pode gerar um trauma. O trauma tem ligação com a falta de controle de variáveis prejudiciais e persuasivas na vida do indivíduo.
Ele pode afetar tanto o desenvolvimento psicológico quanto fisiológico de um indivíduo. De acordo com a psicóloga, esse acontecimento determina como o adolescente vai se relacionar dali em diante, e grande parte das atitudes dele vão ser em torno da proteção, para evitar outros traumas e situações de risco emocional.
“O maior aprendizado dessas histórias para os adolescentes é sobre lealdade e resiliência. Sobre o que é realmente uma amizade e o que vale a pena”
Ila Linares

Ila salienta que quando um adolescente pensa na sua própria narrativa já é um excelente convite para ele não reproduzir o comportamento de alguns personagens, mesmo que ele se identifique com alguns aspectos mostrados na ficção. Conforme a profissional, é necessário a criação de uma resiliência, que se desenvolve a partir do suporte emocional encontrado por muitos adolescentes, não só na família, mas também nos amigos e nas relações que acontecem fora do ambiente familiar.
