Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br)
Com 177 anos de história e palco de uma das maiores insurreições de escravizados do Espírito Santo, a Igreja de São José do Queimado – tombada pelo Conselho Estadual de Cultura desde 1993 – localizada em Serra, foi restaurada e transformada em um museu a céu aberto no ano de 2020.
A revolta nasceu de uma promessa não concretizada de liberdade, feita pelo frei Gregório José Maria de Bene aos escravos da província de São José do Queimado: eles teriam alforria concedida caso construíssem a igreja. Em 19 de março de 1849, sob a liderança de Chico Prego, João da Viúva e Elisiário, os escravizados se rebelaram em busca de liberdade.


A igreja foi inaugurada no dia 15 de março de 1849, quatro dias antes do prazo – o dia de São José. Sua construção durou aproximadamente quatro anos e envolveu cerca de 300 pessoas. O templo foi construído com pedras divididas por tamanho e carregadas por longas distâncias. As pedras menores eram destinadas às crianças, algumas com apenas seis anos de idade.


Atualmente São José do Queimado é um distrito da cidade de Serra. Entretanto, no passado, o território foi uma freguesia, atendendo ao interesse de povoamento do sertão da província, para manutenção das fronteiras. A principal mão-de-obra disponível era a escravizada, que sofreu um aumento de demanda pela expansão cafeeira.









A insurreição durou cinco dias e foi reprimida brutalmente pela Polícia da Província, que contou com apoio das forças armadas do Rio de Janeiro. Dos presos que sobreviveram a violência da captura, 38 foram submetidos a um júri, que absolveu apenas seis revoltosos, e condenou os líderes a pena de morte e os demais a açoites.

Diferente de seus companheiros, Elisiário protagonizou uma lendária fuga – saiu pela porta da cela em que foi encarcerado – o que, na época, foi considerado um milagre de Nossa Senhora da Penha, padroeira do estado. Na verdade, o carcereiro, confessou, depois, ter facilitado a fuga. Outros sobreviventes foram para o município de Cariacica, onde fundaram o Quilombo de Rosa D’água.


Anualmente, no mês de março, é realizada a Caminhada Noturna dos Zumbis, em memória da revolta ocorrida na antiga Vila de Queimado. Moradores, pesquisadores, movimentos culturais e religiosos partem em um percurso simbólico da Praça Chico Prego – em Serra Sede – com destino às ruínas da Igreja São José do Queimado.
Em 2025 o sítio histórico foi tombado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. O que um dia foi construído sobre esperança de liberdade e maculado pela barbárie da escravidão, é, hoje, um espaço de reflexão e valorização da cultura afro-brasileira.
