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Ruínas de São José do Queimado: escravidão e resistência

Descubra mais sobre a Igreja de São José do Queimado, que já motivou uma revolta de escravizados, pelas fotos de Alicia Dias

Por Alicia Dias (almeidag.aliciadias@usp.br)

Com 177 anos de história e palco de uma das maiores insurreições de escravizados do Espírito Santo, a Igreja de São José do Queimado – tombada pelo Conselho Estadual de Cultura desde 1993 – localizada em Serra, foi restaurada e transformada em um museu a céu aberto no ano de 2020.

A revolta nasceu de uma promessa não concretizada de liberdade, feita pelo frei Gregório José Maria de Bene aos escravos da província de São José do Queimado: eles teriam alforria concedida caso construíssem a igreja. Em 19 de março de 1849, sob a liderança de Chico Prego, João da Viúva e Elisiário, os escravizados se rebelaram em busca de liberdade.

A restauração do sítio histórico foi realizada pelo Instituto Modus Vivendi,  supervisionada  pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e contou com recursos da Prefeitura da Serra e do Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo
A rebelião está documentada, principalmente, na correspondência trocada por autoridades e no livro “A Insurreição de Queimado”,  escrito em 1884 pelo abolicionista Afonso Cláudio de Freitas Rosa

A igreja foi inaugurada no dia 15 de março de 1849, quatro dias antes do prazo – o dia de São José. Sua construção durou aproximadamente quatro anos e envolveu cerca de 300 pessoas. O templo foi construído com pedras divididas por tamanho e carregadas por longas distâncias. As pedras menores eram destinadas às crianças, algumas com apenas seis anos de idade.

A revitalização completa do sítio histórico – entregue em 2024 – também contou com a criação de um centro administrativo e de uma sala de exposições
Houve o redesenho das estruturas da edificação em aço, reproduzindo o perfil arquitetônico original e garantindo a sustentação da igreja

Atualmente São José do Queimado é um distrito da cidade de Serra. Entretanto, no passado, o território foi uma freguesia, atendendo ao interesse de povoamento do sertão da província, para manutenção das fronteiras. A principal mão-de-obra disponível era a escravizada, que sofreu um aumento de demanda pela expansão cafeeira.

Foram acrescentados, com aço, elementos contemporâneos: um mezanino e uma escada
As rochas desmoronadas da parede, entre a área dos fiéis e o frontão, foram colocadas nessa posição pelos restauradores
Ilustração da configuração original do templo
Frontão acrescentado em aço, preservando o estilo do original
relatos de que o frei Gregório era contra a escravidão, mas que não teria garantido a liberdade dos escravos, e sim prometido interceder junto aos fazendeiros para obter a concessão da alforria
O arco cruzeiro foi reconstruído a partir de um fragmento do original, encontrado durante os estudos arqueológicos na igreja
A fundação original das paredes é constituída por pedras vindas de leitos de rio e depósitos marinhos, onde foram assentadas em argamassa composta de argila, areia e cal, proporcionando resistência e vedação
Houve preferência pelo método conhecido na arquitetura colonial como “canjicado”, no qual são intercaladas as rochas maiores com as menores
Matéria publicada no jornal local “Correio da Victória” após o controle da rebelião

A insurreição durou cinco dias e foi reprimida brutalmente pela Polícia da Província, que contou com apoio das forças armadas do Rio de Janeiro. Dos presos que sobreviveram a violência da captura, 38 foram submetidos a um júri, que absolveu apenas seis revoltosos, e condenou os líderes a pena de morte e os demais a açoites.

Os escravizados assassinados não foram enterrados no cemitério do templo que construíram, pelo contrário, tiveram seus corpos jogados na hoje chamada “Lagoa das Almas”

Diferente de seus companheiros, Elisiário protagonizou uma lendária fuga – saiu pela porta da cela em que foi encarcerado – o que, na época, foi considerado um milagre de Nossa Senhora da Penha, padroeira do estado. Na verdade, o carcereiro, confessou, depois, ter facilitado a fuga. Outros sobreviventes foram para o município de Cariacica, onde fundaram o Quilombo de Rosa D’água.

Elisiário tornou-se uma lenda para os que sonhavam com a liberdade, e foi apelidado de “Zumbi da Serra”, em alusão ao herói do Quilombo dos Palmares
As ruínas de Queimado seguem sendo a materialização do direito à memória

Anualmente, no mês de março, é realizada a Caminhada Noturna dos Zumbis,  em memória da revolta ocorrida na antiga Vila de Queimado. Moradores, pesquisadores, movimentos culturais e religiosos partem em um percurso simbólico da Praça Chico Prego – em Serra Sede – com destino às ruínas da Igreja São José do Queimado.

Em 2025 o sítio histórico foi tombado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan. O que um dia foi construído sobre esperança de liberdade e maculado pela barbárie da escravidão, é, hoje, um espaço de reflexão e valorização da cultura afro-brasileira.

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