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‘Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte’: uma carta de amor ao terror slasher

O novo longa de Jane Schoenbrun explora desejo e identidade, enquanto desconstrói e homenageia o popular subgênero
Por Leda Lôbo (ledalobo@usp.br)

Sequências de antigos filmes de terror são quase uma receita para sucesso de bilheteria. Longevas franquias de slasher parecem sempre habitar as salas de exibição. Porém, a partir desta quinta-feira (13), as telas de cinema brasileiras recebem Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, 2026), que retrata uma tentativa de revitalizar uma franquia fictícia.

A trama acompanha Kris (Hannah Einbinder), uma jovem cineasta fascinada por terror, que é cotada para dirigir o novo filme da franquia “Acampamento Miasma”. A protagonista recebe a missão de revitalizar a obra por uma perspectiva queer, adicionando uma sequência que visa aumentar sua popularidade ao público jovem e diminuir as críticas relacionadas à transfobia associada ao primeiro filme.

Os créditos iniciais revelam que “Acampamento Miasma” seria mais uma das extensas franquias de slasher iniciadas nas últimas décadas do século 20. O filme original é trash, sangrento e tem elementos eróticos, como é recorrente em muitas dessas franquias de terror. Por meio da figura de um vilão caracterizado por uma máscara que se assemelha a um difusor de ar condicionado, foram vendidos diversos filmes e produtos que alavancaram a franquia, mas, com o passar do tempo, ela parece ter decaído na qualidade e nas vendas.

O roteiro constroi muito bem a relação entre os filmes fictícios e Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte. A franquia é inserida na obra e, em momentos, as histórias se misturam, intensificando a ideia de que o filme de Jane Schoenbrun se aproxima de uma sequência da série fílmica.

O filme que Kris pretende fazer não é necessariamente o que a indústria deseja. Ao invés de fazer uma história sobre a origem do vilão, como é esperado, ela quer explorar ainda mais os aspectos que fizeram do primeiro filme um clássico. Para isso, ela vai atrás da atriz que interpreta a final girl, Billy Preston (Gillian Anderson), na tentativa de colocá-la no remake.

Durante a busca pela atriz, o filme vai tomando um caráter onírico. O cenário se torna mais plástico e cenas, como a vivida pela personagem de Einbinder com o recepcionista do hotel, que muda rapidamente de expressão e comportamento enquanto recorda de ter participado de um dos filmes, ambientam a obra a partir de uma artificialidade que pode ser facilmente fragilizada.

Chegando ao endereço enviado pela final girl original, elementos de terror passam a ser mais frequentes. O GPS para na hora em que a diretora chega ao local e, então, ela descobre que está no acampamento em que a franquia foi gravada. O suspense aumenta enquanto a protagonista adentra o espaço.

O filme vai, aos poucos, se aprofundando no slasher. Primeiro, elementos da franquia são mostrados para que, então, mais sustos sejam gerados a partir das cenas. A construção da narrativa se dá com base no universo em que a obra está se adentrando na medida em que a personagem de Hannah Einbinder se aproxima dele.

Ao entrar no acampamento, Kris encontra uma sala de cinema que exibe repetidamente o primeiro filme da sequência
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O encontro entre atriz e diretora inicia com o estranhamento de duas gerações e contextos diferentes. Kris conta sobre sua linha de trabalho progressista e seu relacionamento poliamoroso, enquanto Billy se mostra como uma pessoa reclusa que vive isolada na locação do trabalho que definiu sua vida e que discorda com algumas das ideias da cineasta para a sequência. A conexão entre as duas se deu, entretanto, devido ao primeiro filme e à relação que elas têm com o longa.

As personagens expressam gostar do sentimento que “Acampamento Miasma” passa, seja pela perspectiva apresentada ou pela sedução vinda da ideia de ser morto pelo serial killer, a Pequena Morte (Jack Haven). Essa paixão as aproxima e leva a uma exibição do filme em que Billy revela que o filme poderia ser mais real do que Kris imaginava.

Assim como nos outros longas de Jane Schoenbrun, We’re All Going to the World’s Fair (2021) e Eu Vi o Brilho da TV (I Saw The TV Glow, 2024), a relação humana com a mídia é uma peça chave para a construção da história, porém, em Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, a mídia de destaque é o cinema. Por meio da metalinguagem, Schoenbrun desenvolve uma sátira sobre o mercado audiovisual que explora as nuances do terror slasher, bem como o contato e as formas de identificação do ser humano com a sétima arte.

No filme, Kris descreve sua obra como um cinema que retrata identidade queer por meio da monstruosidade, definição que pode caracterizar de maneira simplificada a filmografia de Schoenbrun [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Os filmes de Jane Schoenbrun tem como uma das principais temáticas a identidade. Com aspectos do gênero coming-of-age, Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte, bem como o resto da filmografia da cineasta, exploram dilemas e descobertas por meio do terror e de figuras monstruosas. Essas analogias compreendem a peculiaridade muito associada à possibilidade de não se encaixar nos padrões impostos pela sociedade, mas Schoenbrun busca abraçar esses “monstros” e transformá-los em personagens complexos.

O principal monstro do filme é a Pequena Morte (Jack Haven), o vilão do filme, uma figura muito bem construída pelo roteiro. Entretanto, os sentimentos reprimidos de Kris e de Billy, bem como a relação entre elas, o cinema e a personagem de Haven, também são retratados como elementos abomináveis às próprias mulheres de início. Porém, ao tempo que o filme se desenvolve, eles são aceitos e vistos como parte essencial da vida delas.

As atuações de Hannah Einbinder e Gillian Anderson são um ponto alto do filme. A química entre as duas conduz a narrativa, como também contribui para a sutileza e para o humor do terror de Schoenbrun.  O laço entre a diretora e a atriz vem justamente do anseio das duas em viver aquilo que é retratado. Para Billy, a concretização disso a levaria a reviver o momento mais marcante de sua vida, algo que ela deseja desde sua juventude. Em relação a Kris, isso significa a realização de uma fantasia que existe em sua vida desde a infância e que a acompanhou por toda a vida.

Em uma conversa com a personagem de Anderson, a cineasta comenta que assistiu “Acampamento Miasma” cedo demais e que o filme deu origem a seu amor pelo terror, mas também levou à descoberta de sua orientação sexual
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O cinema é visto como forma de escapismo, mas também de identificação. Como parte essencial da vivência e do reconhecimento de identidade pelas duas mulheres, ele as une por um desejo comum e se torna uma forma de revelar o íntimo de uma para a outra.

A relação de Kris e Billy com o filme tem forte ligação com o erotismo característico dos slashers. A conexão entre elas é traçada pelo sentimento comum de uma sexualidade descoberta com o cinema e pela atração pelo que é exposto na tela, desde elementos eróticos ao horror.

O nome do vilão vem da expressão francesa la petite mort, que se refere ao ápice erótico. Assim, o filme brinca com a relação entre o terror sangrento e o entendimento de sexualidade
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O filme explora o slasher como se estivesse o examinando. Ele o observa por fora, mas também se insere no subgênero. A apresentação do filme original durante o momento em que as personagens o assistem reforçam o quanto o terror delimita preconceitos e classifica o que é esquisito, enquanto é um gênero que aborda o estranho e o monstruoso.

No caso de “Acampamento Miasma”, há uma grande crítica do público ao discurso transfóbico presente no filme, o que leva ao interesse da produtora em colocar Kris para escrever a sequência. O vilão é descrito como uma pessoa que foi merecidamente morta, pois, em alguns dias, se identificava com o gênero masculino e, em outros, com o feminino. 

O discurso defendido pelo público fictício à obra é alinhado com o que o filme busca transmitir. A ironia de um gênero já tão peculiar e que, muitas vezes, tem seu público associado ao macabro disseminar preconceitos é simbolizado pela personagem DJ Ella Giastic (Eva Victor), uma mulher completamente fora do padrão de feminilidade esperado pela sociedade que é uma das principais pessoas a ridicularizar a identidade de gênero da Pequena Morte.

Eva Victor ficou completamente irreconhecível no papel
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Além de trazer uma crítica ao histórico do slasher, o filme também o celebra. A sequência que apresenta a primeira obra coloca alguns dos aspectos mais marcantes desse subgênero e os realça. O banho de sangue exagerado, a história de um monstro que surge para matar como forma de vingança e a presença de um grupo de jovens, com uma garota tímida que se torna a sobrevivente do assassinto em massa, são elementos que recriam e homenageiam os clássicos do terror.

A fotografia do filme também faz referência ao gênero. No primeiro filme de “Acampamento Miasma” uma sequência com uso de uma lente de dioptria dividida chama atenção – inclusive da personagem de Einbinder – por lembrar uma técnica recorrente no terror, muito reconhecida pelo uso em Carrie, a Estranha (Carrie, 1976). A lente volta ser usada em uma cena com Kris e Billy em uma cena mais próxima do final do filme como forma de situá-las como personagens de um slasher.

Clássicos do terror slasher, como Sexta-Feira 13 (Friday The 13th, 1990) e o diretor Wes Craven, são referenciados durante o filme
[Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte se coloca no gênero por meio da vontade e da identificação das personagens com ele. O misto de medo e sedução pelo terror que as conecta leva à inserção delas numa situação que vem a refletir em mais sustos e assassinatos em série. 

As mulheres buscam, em uma linha tênue entre realidade e ficção vividas por elas, o prazer que o cinema desperta a elas. Enquanto isso, o longa de Jane Schoenbrun celebra a sétima arte por meio de sentimentos que os filmes levam os espectadores a acolherem, sejam eles mais banais ou irreverentes. 

Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

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