Por Gabrielle Pinter (gabriellepinter@usp.br)
Como contar a história de alguém que passou boa parte da vida escondido, perseguido pelo Estado e que desapareceu sem deixar sequer um corpo para ser enterrado? Essa é uma das questões que atravessam Honestino (2026), novo filme de Aurélio Michiles que estreia nesta quinta-feira (13). A produção harmoniza documentário e ficção para reconstruir a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e aluno da Universidade de Brasília (UnB).
Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e permanece como um dos desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira. Sua trajetória está diretamente ligada à história do movimento estudantil e à repressão que atingiu universidades brasileiras durante o período.
Em um momento em que discursos autoritários voltam a ganhar espaço no Brasil, recuperar imagens, documentos e relatos de pessoas que viveram a repressão é uma forma de impedir que essa memória seja apagada.
E Honestino entende isso. Boa parte do impacto do filme está concentrado no material histórico que consegue reunir: registros de época se alternam com depoimentos de familiares, amigos, militantes estudantis e políticos que conviveram com o personagem. Esses relatos localizam o protagonista em um tempo e um espaço específicos, e ajudam a reconstruir a lembrança de uma geração marcada pela militância e pela repressão.

A obra pode ser dividida em três camadas bastante perceptíveis: os relatos, os registros históricos e a ficção. A primeira talvez seja a mais interessante. Os depoimentos dão rosto e voz a uma geração que viveu a perseguição política e ajudam a dimensionar Honestino não apenas como indivíduo, mas como parte de uma estrutura maior de resistência. É também por meio deles que a produção consegue transmitir uma dimensão do coletivo da militância que dificilmente seria alcançada apenas pela reconstrução da trajetória pessoal do protagonista.
A segunda camada é responsável por dar ao filme sua dimensão documental. Fotografias e filmagens reais do período aparecem constantemente e criam uma relação muito mais direta com aquilo que está sendo contado. É um acervo rico, que consegue transmitir as mobilizações estudantis e a repressão de uma maneira que nenhuma reconstituição conseguiria reproduzir completamente. Manifestações, estudantes e ações policiais deixam de ser apenas acontecimentos descritos pelos entrevistados e passam a ocupar a tela.
É na terceira camada, porém, que há o maior distanciamento. As cenas protagonizadas por Bruno Gagliasso como Honestino parecem mais preocupadas em evidenciar uma estética do que em preencher as lacunas da narrativa.
A escolha de recorrer à ficção é compreensível. Honestino viveu anos na clandestinidade, existem poucos registros dele e seu desaparecimento faz parte de uma história que o Estado brasileiro ainda não conseguiu encerrar. Colocar um ator para reconstruir momentos que não poderiam ser registrados de outra forma faz sentido. O problema está menos na escolha de utilizar a ficção e mais na maneira como ela é inserida dentro do documentário, priorizando o estilo ao conteúdo.

A escolha de um ator mais velho, como Bruno Gagliasso, para representar um jovem de pouco mais de 20 anos cria uma barreira adicional: a inverossimilhança. Em determinados momentos, a representação acaba afastando Honestino do espectador, quando deveria fazer justamente o contrário. Essa distância se torna um dos principais problemas da produção.
Gagliasso é um ator consolidado e consegue entregar seus melhores momentos justamente quando deixa de tentar representar Honestino através da ação e passa a emprestar sua voz aos poemas escritos pelo líder estudantil. Nessas cenas, existe uma conexão que falta quando seu corpo e expressões estão presentes em tela.
Para quem não chega ao cinema conhecendo previamente sua trajetória, algumas pontas tendem a ficar soltas. O início de sua militância não é apresentado de maneira tão clara, algumas prisões são rapidamente atravessadas e acontecimentos importantes acabam aparecendo quase como detalhes dentro de uma narrativa que corre para chegar a um destino indeterminado. Ao sair da sessão, a sensação do espectador é de que se conhece melhor o contexto político, os movimentos estudantis e as pessoas que cercavam Honestino do que o próprio personagem que dá nome ao filme.
Existe um apelo emocional na tentativa de aproximar o espectador de Honestino. Os relatos da família, especialmente nos momentos que envolvem sua filha, buscam alcançar as emoções do público, mas essa relação não chega a se desenvolver completamente. Isso se deve, em parte, aos saltos temporais e à maneira pouco aprofundada como alguns momentos de sua trajetória são apresentados, o que acaba criando uma sensação de distanciamento em relação ao personagem e dificultando a construção de uma conexão mais íntima com sua história.

Diferentemente de Ainda Estou Aqui (2024), em que a trajetória individual de Eunice Paiva consegue conduzir o espectador para dentro de um período histórico, Honestino parece ter dificuldade de fazer esse movimento. A comparação é inevitável justamente porque ambos trabalham com memória, ditadura e personagens reais, mas os resultados emocionais são bastante diferentes.
Talvez o mais curioso seja o fato do filme ter em mãos uma história coletiva potente. Os relatos sobre os movimentos estudantis são tão ricos que, em diversos momentos, sobressai a sensação de que a produção encontrou uma narrativa maior do que a trajetória individual que decidiu colocar no protagonismo.
Quando um dos companheiros descreve o estado em que ele chegou depois de ser torturado, a dimensão de sua resistência deixa de ser apenas histórica e passa a ganhar um caráter coletivo. O relato evidencia que, mesmo diante da violência, Honestino não entregou seus companheiros. Curiosamente, é nesse momento, em que o personagem é visto pelo olhar dos outros e num contexto sem foco no individual, que ele parece mais próximo do espectador.
Não se trata de diminuir a importância de Honestino. Sua história merece ser contada e preservada. Mas talvez o movimento estudantil pudesse ser o verdadeiro protagonista, enquanto Honestino funcionaria como o fio condutor de uma narrativa sobre uma geração inteira que enfrentou a repressão. Os próprios depoimentos parecem apontar para esse caminho: quanto mais pessoas diferentes contam suas experiências, mais a história deixa de pertencer exclusivamente a Honestino e passa a representar uma experiência coletiva de militância, perseguição e resistência.
Os poemas são outro aspecto rico da narrativa. Eles permitem que Honestino fale diretamente com quem está sentado na sala de cinema, sem precisar de uma reconstrução. É como se a voz do próprio personagem conseguisse atravessar as telas, sem o intermédio ficcional.
Seria injusto reduzir Honestino às suas fragilidades. O filme é uma denúncia social importante e carrega um acervo histórico extremamente rico. Não por acaso, o documentário foi reconhecido no Festival do Rio de 2025, onde recebeu o Troféu Redentor de Melhor Montagem. O reconhecimento reforça a relevância do trabalho de pesquisa e montagem que sustenta boa parte da produção.
Trazer imagens reais, questionar o paradeiro dos corpos e dar rosto a pessoas que lutaram durante a ditadura é carregar um peso que vai além do cinema. A arte se torna, nesse caso, um mecanismo de denúncia social, e revisitar histórias como essa ganha ainda mais força diante da ascensão de discursos autoritários no país.

O líder foi uma figura fundamental da resistência estudantil e sua história precisa permanecer viva. O filme é um lembrete de que, por trás de cada grande liderança, existia um movimento inteiro de pessoas que também lutaram, foram perseguidas, presas e silenciadas.

Honestino já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
Imagem de capa: Divulgação/Pandora Filmes
