Por Juliana Lara (juliana.llrodrigues@usp.br) e Gabrielle Pinter (gabriellepinter@usp.br)
Em 19 de agosto de 1839, o governo francês anunciou a compra da patente do daguerreótipo. O processo reduzia o tempo da fotografia para poucos minutos e produzia imagens muito mais nítidas. Quase dois séculos depois, nessa mesma data celebra-se o Dia Mundial da Fotografia. A comemoração traz uma técnica que, entre suas funções hoje, atua como uma das principais ferramentas de denúncia e transformação social.
Na linha de frente dos conflitos armados
A fotografia de guerra tem seus primeiros registros em meados do século 19, quando o inglês Roger Fenton foi o fotógrafo oficial de guerra e registrou a Guerra da Criméia para o Illustrated London News. Décadas depois, a Guerra do Vietnã ficou conhecida como um período de destaque da fotografia de guerra, o primeiro grande conflito amplamente documentado em cores e com acesso relativamente livre para os fotógrafos. As imagens produzidas nesse período influenciaram diretamente a opinião pública e contribuíram para o crescimento do movimento contrário à guerra nos Estados Unidos.
Em 2025, 129 jornalistas e trabalhadores de mídia foram mortos no exercício da profissão, o maior número já registrado pelo Committee to Protect Journalists (CPJ) — ou Comitê para a Proteção de Jornalistas, em tradução direta para o português — desde o início de seu levantamento, em 1992. Mais de três quartos dessas mortes ocorreram em contextos de conflito armado, o que revela o preço que fotógrafos e correspondentes pagam para documentar guerras. Dois terços dos assassinatos foram atribuídos às Forças de Defesa de Israel, a maioria de jornalistas palestinos cobrindo Gaza.

Esse cenário demonstra o papel da fotografia de guerra como testemunho direto de violações que, sem registro visual, poderiam ser reduzidas a versões oficiais contestáveis. Cada imagem captada em zona de conflito carrega o risco físico de quem a produz e, ao mesmo tempo, a função de tornar o real cenário da guerra visível.
A denúncia das feridas ambientais
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 10,9 milhões de hectares de florestas são desmatados anualmente em todo o mundo, para se ter uma noção da dimensão de tal ação, essa medida corresponde a aproximadamente o tamanho do território da Guatemala. Diante desse colapso climático que o mundo vivencia nos dias atuais, a fotografia de natureza deixou de ser um registro com fins meramente apreciativos, para se tornar um instrumento ativo de pressão pública e de preservação do meio ambiente.
Como dados estatísticos e relatórios científicos muitas vezes parecem distantes da realidade cotidiana do leitor, a imagem atua como uma ponte sensível entre a racionalidade dos números e a urgência da emoção. Em entrevista à Jornalismo Júnior, o fotógrafo documental e colaborador do The New York Times, Victor Moriyama, que há mais de uma década registra os conflitos e as transformações na Amazônia, afirma que a fotografia possui uma capacidade única de sensibilização por ser uma linguagem universal.
“Acho que a fotografia documental tem um papel importante de sensibilizar e, mais do que isso, de criar narrativas, não só de impacto nas pessoas, mas que justamente possam inspirar as ações para reverter a crise climática.”
Victor Moriyama
As imagens rompem barreiras geográficas e colocam tragédias socioambientais, muitas vezes ignoradas, em foco. Ao dar visibilidade global a fatos que ocorrem em territórios muitas vezes isolados e invisibilizados, o clique fotográfico funciona como uma testemunha ocular indispensável para que a sociedade não só tome conhecimento da dimensão real dessas crises, mas também possa pressionar e exigir medidas de reparação.

Segundo Moriyama, a produção massiva e exaustiva de conteúdos, não só fotográficos, mas jornalísticos em geral, sobre as queimadas e o avanço do desmatamento na Amazônia, principalmente durante o mandato de Bolsonaro, pressionou o governo para adotar políticas públicas. “O que a gente tá vendo no governo atual é uma política de fiscalização, de controle, e os resultados estão sendo muito claros de redução do desmatamento”, diz o fotógrafo.
Retratos da pobreza extrema e da desigualdade social
Fotografar a pobreza extrema exige um equilíbrio delicado entre expor uma realidade urgente e evitar o sensacionalismo. Para a estudante de jornalismo e fotógrafa Thaiza Souza, um dos maiores desafios é justamente encontrar novas formas de retratar cenários que fazem parte do próprio cotidiano.
Esse desafio ganha urgência diante dos números da desigualdade no Brasil. Segundo o IBGE, 3,5% da população brasileira ainda vivia em extrema pobreza em 2024, com renda domiciliar per capita inferior a R$218 mensais. Entre pessoas pretas e pardas, essa proporção sobe para cerca de 4% e 4,5%, contra 2,2% entre brancos, o que revela como a desigualdade no país é atravessada por parâmetros raciais. É diante desse abismo que a fotografia documental ganha função política, traduzindo estatísticas em rostos e territórios reconhecíveis.
“Uma parte que eu considero complicada é encontrar criatividade para pensar diferentes formas de retratar o que eu vejo. É uma área que você precisa tomar cuidado, pois pode acabar constrangendo alguém que não queira ser fotografado em alguma situação específica.”
Thaiza Souza
Em entrevista á Jornalismo Júnior, Thaiza alega que, como alternativa, busca compor imagens cujo simbolismo vá além da exposição direta de rostos, preservando a dignidade de quem é fotografado sem esvaziar a força do registro. Tal escolha ética marca a diferença entre uma fotografia que denuncia a desigualdade social e uma que apenas espetaculariza a miséria alheia.
Essa cautela dialoga com um debate ético mais amplo do fotojornalismo documental, batizado internacionalmente de “poverty porn” — pornografia da pobreza, em tradução direta —, quando a exposição da pobreza é feita de forma descontextualizada e apenas para gerar comoção, sem dar voz ou dignidade a quem é fotografado.
Caminhos de incerteza com as crises migratórias e os refugiados
Em um mundo cada vez mais globalizado, as migrações estão cada vez mais presentes no cotidiano da população Contudo, diante de conflitos armados, perseguições e colapsos climáticos, milhões de pessoas são obrigadas a abandonar suas terras em busca de sobrevivência. Nesses casos, os deslocamentos em massa geram crises migratórias, que extrapolam a capacidade de acolhimento nas cidades de destino e desencadeiam severas crises humanitárias, políticas e logísticas nas zonas de fronteira.

A divulgação de tais fluxos forçados, no entanto, correm o risco de serem reduzidas a estatísticas e relatórios governamentais. É nessas situações que a imagem atua como uma ligação entre os números e a empatia, ao mostrar o lado humano e sensível que ultrapassa os dados. Um dos exemplos mais marcantes ocorreu em setembro de 2015, com as fotografias do menino sírio Alan Kurdi, de três anos, encontrado sem vida em uma praia na Turquia. Até aquele momento, a crise de refugiados no Mediterrâneo era tratada pela a Europa apenas como uma questão de segurança e controle de fronteiras, enxergando os migrantes de forma negativa.
A repercussão global das imagens provocou uma virada imediata: mobilizou comoção internacional, alterou o tom do debate político e pressionou governos a flexibilizarem suas políticas de acolhimento, levando países como a Alemanha a abrir espaço para o abrigo de centenas de milhares de asilados. Segundo o historiador da arte e curador Felix Hoffmann em entrevista para a Deutsche Welle, muitas pessoas se identificaram com a imagem pois pensaram na possibilidade da situação ter acontecido com seu próprio filho. Hoffman também aponta que a fotografia tem a capacidade de “personificar catástrofes” ao dar um rosto humano aos acontecimentos, mas seu impacto real depende de quanto tempo ela consegue permanecer na mente do público. A partir disso, o fotógrafo enfrenta o desafio constante de garantir que esse choque visual se converta em mudanças permanentes, e não apenas em uma comoção passageira.
Luz sobre a exploração trabalhista
Quando se trata de trabalho escravo e infantil, é comum imaginar que essas práticas ficaram no passado. Contudo, apesar dos direitos trabalhistas e sociais terem avançado exponencialmente em comparação ao período colonial, realidades como as formas contemporâneas de escravidão e o trabalho infantil predatório ainda persistem em todo o mundo. Muitas vezes camufladas em áreas rurais de difícil acesso, em galpões urbanos ou em cadeias produtivas complexas, vinculadas à grandes empresas, essas violações dependem de denúncias e queixas para que possam ser combatidas. Nesse contexto, entra o registro fotográfico, que deixa de ser apenas uma representação da realidade e passa a ser uma peça fundamental para a aplicação da justiça.
De acordo com Alessandra Bambirra, em conversa com a Jornalismo Júnior, auditora-fiscal e coordenadora da atividade de fiscalização rural da Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais (SRT-MG), embora a declaração formal seja suficiente para o registro de autos de infração, a fotografia possui um papel decisivo. “Registros fotográficos certamente são instrumentos que podem comprovar de forma inequívoca uma infração, torná-la visível e concreta aos olhos de quem não presenciou o fato”, explica.

A exposição de situações delicadas e sensíveis, como as relacionadas à exploração laboral, exige do fotógrafo um senso ético bem consolidado e rigoroso, para que a ação de expor dificuldades não perca sua essência para o sensacionalismo. Assim, o limite entre o registro necessário e a exploração da dor alheia depende diretamente das escolhas conscientes do profissional por trás da câmera. Segundo Alessandra, a decisão de não revelar o rosto ou qualquer elemento de identificação do empregado é fundamental, pois o foco deve ser as condições inadequadas do ambiente, e não o indivíduo em si. “Caso haja exposição, o papel protetivo poderia tornar-se até punitivo para o empregado, na medida em que ele teria risco de, por exemplo, sofrer represálias por parte do empregador ao ser identificado”, pontua a auditora.
A fotografia como forma de denúncia reafirma sua importância social ao dar visibilidade ao que muitos não têm conhecimento ou preferem ignorar. Quando embasada no respeito e na responsabilidade social, a imagem deixa de ser um mero retrato da dor para se consolidar como um instrumento de transformação e garantia de direitos.
*Imagem de capa: reprodução/Pexels
