Por Kauany Rocha (kauanyrocha@usp.br)
No dia 28 de julho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) formalizou parcerias com plataformas digitais e redes sociais para reforçar o combate à desinformação nas eleições de 2026. Os acordos anunciados pelo TSE preveem, através de canais de denúncia, anúncios informativos e mecanismos de proteção contra ataques digitais, ações conjuntas para conter a disseminação de conteúdos falsos, manipulados e descontextualizados que possam comprometer a integridade do processo eleitoral.
A ampliação do acesso à informação, principalmente por meios tecnológicos, permitiu a maior interação de seus usuários com questões políticas, é o que aponta um estudo publicado na Revista Tecnologia e Sociedade (UTFPR). O público jovem é destaque nesse cenário por ser o grupo que mais utiliza as redes sociais. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 98,3% dos jovens entre 20 e 24 anos acessam a internet diariamente, o maior índice entre todas as faixas etárias registradas. Períodos eleitorais, como o de 2026, costumam intensificar debates políticos nas plataformas digitais, dando visibilidade a discursos variados.
Esse cenário não é inédito. Segundo estudos da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP), o mesmo já havia ocorrido nas eleições de 2018 e 2022. As redes sociais possibilitam o maior acesso à informação política, mas também potencializam a dimensão das fake news em períodos de eleições, como mostra o mesmo levantamento.
Hoje, os conteúdos assumem diversas formas: postagens com textos curtos, threads, reels ou shorts são exemplos da variedade de formatos que as produções de cunho político podem aparecer no meio digital. Segundo uma entrevista realizada com o sociólogo Pablo Romero Almada, para o Jornal da USP, os tipos de postagem publicados nas redes costumam se misturar e são impulsionadas pelos algoritmos das plataformas.
Em entrevista à J.Press, o professor e historiador Felipe Ziotti Narita, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), analisa o papel das redes sociais na formação política dos jovens brasileiros e outros aspectos que permeiam esse debate.
J.Press – Você acredita que há um engajamento maior ou menor de jovens brasileiros por assuntos políticos nos dias atuais?
Felipe Ziotti Narita – Especificamente nesse ano [2026], que é um ano eleitoral, existe um engajamento maior. Se a gente definir juventude, uma faixa etária que vai até os primeiros anos do ensino superior, o público jovem tem se interessado mais por política, mas não necessariamente se politizado mais. São duas coisas diferentes.
As pessoas recebem mais informação sobre política nas redes sociais, nos jornais, elas têm mais acesso a coisas que acontecem, mas isso não significa que elas estejam necessariamente mais engajadas ou conscientes do funcionamento das estruturas políticas. Há mais sensibilidade, mas não necessariamente mais engajamento, mais interesse ou mais motivação de participação.
J.Press – Como você avalia o uso das redes sociais pelos jovens para discutir e desenvolver opiniões sobre política?
Felipe – As redes sociais, hoje, são a fronteira do ponto de vista do desenvolvimento de mídias de comunicação de massa. O que um dia foi o cinema, o jornal, isso no começo do século 20, hoje são as redes sociais. E elas têm um papel absolutamente importante no sentido de não só publicizar os conteúdos, mas de circular essas informações. Eu imagino que o próprio jornalismo tenha sido muito afetado com essas transformações todas.
Então, hoje eu diria que não tem como você fazer uma campanha política sem passar pelas redes sociais. E elas são um canal por excelência para que os candidatos consigam dialogar com o eleitorado mais jovem, que é um eleitorado que já não é mais tão fiel à televisão ou até a formas anteriores, como o rádio, o próprio jornal impresso.
J.Press – Os influenciadores digitais e criadores de conteúdo têm se tornado formadores de opinião política relevante para os jovens. Você vê isso como algo positivo ou como algo para se atentar?
Felipe – Todo tipo de marketing e propaganda política é algo que traz uma série de problemas. No entanto, é importante você fomentar campanhas, informações e debates, coisa que no Brasil, a partir dos anos 1990, principalmente, foi muito comum.
Então, existiam os ‘marketeiros’, o cara que gravava vídeo e ia para a televisão na época e, com as redes sociais e a difusão da internet, isso realmente mudou. Hoje, os influenciadores têm um poder que talvez os marqueteiros lá de 20, 30 anos atrás tinham, que é justamente essa capacidade de espetacularizar a informação.
Então, se por um lado essa ação é importante no sentido de você socializar um pouco mais a política e levar discussões políticas para o cotidiano, principalmente para os jovens, por outro lado eu acho que é um fenômeno a ser observado porque envolve ganho, de alguma forma, financeiro, então você tem interesses ali por trás. Isso de qualquer campanha, não é do partido A ou B, da esquerda ou da direita.
Acredito que esse fenômeno tem gerado discussões sobre redes sociais e regulamentações sobre o uso delas, principalmente em época eleitoral, quando é preciso ter bastante atenção a esse papel dos influenciadores, porque eles têm muita capilaridade. É uma capilaridade que os partidos não têm mais, eles têm um poder institucional muito grande, mas, muitas vezes, não conseguem dialogar muito bem com a população e, quem faz isso hoje, são os influenciadores. Então, eles têm uma função muito importante, mas que deve ser observada para que não tenha nenhum tipo de desvirtuamento, ou até de precarização do debate.
J.Press – Com as redes sociais, os indivíduos com opiniões parecidas tendem a se conectar mais, criando um senso de comunidade. Você acredita ser algo benéfico ou algo que favorece a polarização política?
Felipe – Existe o fenômeno das bolhas, com certeza. Os algoritmos têm filtros e eles apresentam coisas que consumimos e, geralmente, consumimos o que gostamos. Então, isso tende a criar realmente uma espécie de ilusão de que temos um grupo grande que só concorda conosco, só pensa como pensamos, e quem está fora desse grupo está pensando errado.
No entanto, eu acho que o uso das redes, principalmente pelo público mais jovem, é muito mais criativo do que isso. Eu acho que as pessoas têm um pouco mais de autonomia, até de capacidade de olhar para além dessas bolhas que são criadas. Você tem opiniões divergentes, questões divergentes, e aí tem esse fenômeno da polarização. Alguém com uma crença, um grupo de valores, estará exposto em algum momento a convicções e posições ideológicas diferentes.
É nesse momento de atrito que eu vejo que só as bolhas não explicam o comportamento. Você tem também essa abertura para outros conteúdos que é o que as redes [sociais] possibilitam. Esses atritos fazem parte dos sistemas democráticos. A grande questão é querermos aprender a processar e a lidar com isso de maneira razoável, sem conflitos, discursos de ódio, coisas que ocorrem frequentemente nas redes sociais. Então eu acho que sim, há uma tendência à formação de bolhas de opiniões, mas essas bolhas, em algum momento, tendem a ser abertas também. Então, não são comportamentos tão fechados e caixinhas como às vezes supomos. Existe um uso mais criativo das tecnologias e esse uso é que, em certos momentos, cria esses pontos de atrito.
J.Press – Você acredita que a intensidade do debate político nas redes sociais resulta em maior participação eleitoral e institucional dos jovens ou esses fenômenos são relativamente independentes?
Felipe – Existe uma intensidade de debates políticos nas redes sociais que é maior que nas gerações anteriores. Com as redes sociais, a pessoa tem acesso a conteúdos que as gerações anteriores não tinham. E as redes sociais têm uma dinâmica de interatividade. Nelas, você tem um ciclo de socialização que é muito mais amplo e muito mais anônimo também. Você conversa com as pessoas, mas você não conhece efetivamente as pessoas. Então, a intensidade do debate político tende a ser maior do ponto de vista do volume de interação e até dos atritos e conflitos decorrentes disso.
Eu acho que temos observado, não só no Brasil — esse é um fenômeno que percebemos em muitas democracias na Europa, mesmo aqui na América Latina —, o nível de interesse dos cidadãos pelo voto não cresce proporcionalmente a intensidade dos debates nas redes sociais. Então, é como se estivéssemos nas redes sociais, uma esfera pública altamente polarizada, intensificada por debates políticos e, na hora de isso ser convertido em participação, em voto, em interesse no candidato, no programa político, não necessariamente essas coisas correspondem. Imagino que esse descompasso tenha a ver com uma espécie de desconfiança das pessoas ao funcionamento, aos procedimentos dos sistemas democráticos, que acabaram se elitizando, se construindo um pouco acima das demandas da população.
Então os partidos — quando têm uma estrutura muito fechada —, o legislativo, o executivo, os poderes públicos, eles tendem a se elitizar, a criar pequenas oligarquias que vão se reproduzindo. E a população nas redes, onde o debate acontece, vai ficando um pouco alheia. Então, você tem uma crise de confiança, uma crise de representação. As pessoas debatem política, mas elas não se sentem representadas pelo partido. Isso cria um ambiente muito ruim para a democracia, porque a democracia pressupõe uma esfera pública que seja movimentada, que tenha atritos e conflitos, que sejam processados democraticamente.
Porém, essa esfera pública tem que se conectar com o sistema institucional, com o sistema partidário e político, e essa conexão tem sido precária. Então, voltando lá para o primeiro ponto, temos mais intensidade no debate político, mas essa intensidade não necessariamente tem se convertido em participação, em engajamento efetivo, em politização. Esse descompasso é um sinal importante para as democracias hoje, para entender esse funcionamento das redes, que coloca uma nova lógica no sistema político.
[Imagem de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil]



