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‘Digger’, estrelado por Tom Cruise, explora o capitalismo americano

O que pode ser mais atual que magnatas do petróleo diante das consequências ambientais de suas próprias ações? 'Digger' é um mergulho satírico nos anos que virão
Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)

Com direção do cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, o eterno Maverick de Top Gun (1986), Tom Cruise, se aventura em papel que rompe com a imagem construída ao longo de sua carreira. Digger (2026) chega ao Brasil nesta quinta-feira (1) com narrativa envolvente, fotografia imersiva e uma versão irreconhecível do astro. 

Durante 2 horas e 9 minutos, o público acompanha Digger Rockwell, um magnata do petróleo que enriqueceu às custas de um modelo de exploração. Quando as consequências batem a sua porta, ele parte em uma missão desesperada para tentar consertar o estrago que provocou.

Diálogos exagerados, caracterizações escrachadas e atuações teatrais são os principais pontos que permitem caracterizar o longa como satírico. O objetivo de Iñárritu aqui é claro: provocar. Assim, nada soa desmedido. Ao apresentar a elite americana como pitoresca, sua posição é estruturada de maneira clara, sem espaço para a indiferença, o que distancia a estreia de muitas produções norte-americanas contemporâneas, como O Aniversário (Anniversary, 2025). 

A primeira cena do longa já anuncia o tom caricato que o acompanha até os créditos finais. Rockwell desperta em um quarto gigantesco, cercado por uma paisagem tão bucólica que parece saída de um catálogo de casas de luxo. Ao seu lado, está a gata Maggie que, já debilitada por seus 32 anos de vida, é o único ser vivo por quem o empresário nutre alguma consideração. 

Em meio às ligações desesperadas de políticos e ambientalistas que se acumulam em seu quarto, Digger prefere chamar seu veterinário de confiança para examinar Maggie, que já não consegue sequer comer. Quando o médico constata que a gata tem, no máximo, duas semanas de vida, o magnata reage com uma frase que sintetiza seu temperamento: “Ninguém pode me falar o que não quero ouvir. Saia já daqui”.

Depois dos avisos de sua secretária sobre os telefonemas ininterruptos e as visitas inesperadas à mansão, Digger recebe, por chamada de vídeo, a notícia de que a “pequena” fenda glacial em uma de suas bases de petróleo já chegava a nove metros — e, para completar o desastre, havia se desprendido em direção à Europa. 

É a partir disso que a narrativa acompanha a corrida desesperada do magnata para salvar o próprio patrimônio. Mais preocupado com os prejuízos da empresa e com os processos por omissão de informações do que com a catástrofe ambiental, ele precisa lidar com um desastre que já conhecia desde o início. 

Por trás da caricatura

O protagonista representa uma versão exacerbada do estereótipo do magnata sulista norte-americano. Com chapéu, botas e cintos de cowboy, sotaque arrastado — marcado pelas vogais prolongadas — e um discurso tradicionalista, Tom Cruise constrói um personagem que parece ter saído diretamente do imaginário rural norte-americano. Rockwell é a junção de diferentes símbolos associados ao arquétipo texano.

Ao longo do filme, Digger recorre constantemente à história de seu avô, responsável por cavar as primeiras reservas de combustíveis fósseis da família, como justificativa para sua indiferença diante do sofrimento alheio. Quando recebe a notificação da  explosão inicial em uma das plataformas petrolíferas que administra, sua reação imediata é perguntar sobre os prejuízos financeiros. Ao descobrir que os funcionários ainda não têm informações porque estão concentrados nas mortes dos colegas, Rockwell transforma a tragédia em mais uma oportunidade para defender o sacrifício em nome do dinheiro, evocando como exemplo a trajetória de seus antepassados.

A caricatura, no entanto, não se restringe a Rockwell. Em uma das reuniões para discutir medidas de contenção dos danos, Digger se encontra com o presidente dos Estados Unidos, o comandante do Exército e outros empresários e políticos. É nesse momento que o “X da questão” ganha contornos mais evidentes: a composição exagerada desses personagens parece dialogar diretamente com figuras de poder e magnatas conhecidos da vida real. A sátira se constrói, portanto, tanto pelo que essas figuras representam quanto pela maneira como seus intérpretes absorvem esses tipos.

Tom Cruise incorpora o petroleiro Rockwell em todos os aspectos possíveis. A maquiagem e a caracterização feitas no ator, à primeira vista, provocam inevitavelmente a pergunta: “Quando Cruise envelheceu tanto?”. Até perceber que se trata  de uma ótima preparação, talvez já tenham se passado 30 minutos de filme. Não é apenas uma impressão visual: a própria campanha de divulgação tem destacado o caráter inédito da performance, enquanto a imprensa já associa o papel à busca do ator por seu primeiro Oscar competitivo. 

A transformação chegou a surpreender Sandra Hüller, que contou em entrevista não ter reconhecido Cruise quando o viu caracterizado para o papel [Imagem: Reprodução/TMDb]

Enquadramentos excessivamente próximos dos personagens satirizados parecem mobilizar no espectador uma sensação deliberada de asco e estranhamento. A exposição minuciosa da textura de suas peles e de características como unhas compridas transforma seus corpos em elementos centrais da construção da repulsa. 

A proximidade da câmera opera por uma espécie de inversão: em vez de aproximar o espectador dos personagens, torna-os ainda mais estranhos e difíceis de reconhecer como semelhantes. O nojo, assim, deixa de ser apenas uma reação à aparência e passa a funcionar como instrumento de distanciamento.

É dentro dessa mesma lógica que Sandra Hüller, atriz conhecida por seu papel em Anatomia de uma Queda (Anatomie d’une chute, 2023), interpreta a irmã de Rockwell, também empresária. Sua personagem acrescenta outra camada à crítica ao funcionamento do setor privado contemporâneo. 

Dona de uma empresa que comercializa um ideal de sustentabilidade, ela vê a tragédia ambiental desencadeada pelo projeto de Digger não apenas como um desastre, mas como uma ameaça à imagem construída pelo negócio. Sua maior preocupação é que a fachada “verde” da empresa seja desconstruída, expondo a distância entre o discurso sustentável e as práticas que o sustentam. 

De olhos bem abertos

O ponto alto da produção de Iñárritu está na costura de duas camadas narrativas simultâneas. Quando a verdadeira dimensão dessa construção dramática vem à tona — inicialmente apresentada como um simples mecanismo interessante de contar a história —, a revelação é, no mínimo, surpreendente. Em Digger, o diretor retoma recursos narrativos de Birdman (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), 2014), mas os radicaliza: novamente, realidade e construção ficcional se embaralham até que o espectador seja obrigado a reconsiderar tudo o que viu.

Essa atmosfera de incerteza é acompanhada pela escolha de uma coloração opaca, que parece se encaixar perfeitamente ao desenrolar da trama. A impressão é de estar mergulhado em um mundo caótico, sem outra saída senão assistir às tragédias que se anunciam. A cena em que Rockwell presta depoimento ao Parlamento Europeu é talvez a mais marcante nesse sentido. Acusado de provocar um desastre ambiental no continente e de omitir informações prévias sobre os riscos, o protagonista não demonstra qualquer constrangimento diante de seus atos. Pelo contrário: o magnata se orgulha de ter “sustentado os hábitos não ecológicos da população” e ainda ressalta a hipocrisia dos presentes no plenário. 

A crítica ao poder e à exploração também se manifesta na relação entre Digger e Ganesh (Riz Ahmed), cientista contratado pela empresa de petróleo para auxiliar nas operações na região polar. O personagem  percorre um dos arcos mais interessantes da obra: inicialmente tímido e amedrontado, a ponto de sequer conseguir olhar Digger nos olhos, Ganesh ocupa uma posição de evidente subalternidade diante do magnata. Ao longo da trama, porém, essa relação se transforma. O funcionário deixa de ser apenas um subordinado e passa a atuar como a “voz da razão” do patrão, tornando-se a única figura capaz de confrontá-lo e jogar em seu rosto a dimensão de seus próprios erros.

O longa é uma coprodução entre Estados Unidos, Reino Unido e México, filmado no formato VistaVision com o uso de câmeras Beaumont customizadas e lentes Leica [Imagem: Reprodução/TMDb]

O mais interessante é que essa transformação não conduz a uma crise existencial ou a uma tomada de consciência do protagonista. Digger permanece fiel à lógica que o move desde o início, mesmo quando as consequências de suas escolhas se tornam incontornáveis. O que para alguns pode soar pedante é, na realidade, uma escolha narrativa coerente com a proposta do filme: não oferecer redenção a quem detém o poder, mas expor a maneira como ele opera — “Aqui é cavar ou morrer”.

Divertido, incômodo, autêntico, teatral e, sobretudo, político, Digger encontra no absurdo da ficção uma leitura inquietante do tempo em que vivemos e convida o espectador a  ficar de olhos bem abertos ao que ainda virá.

Digger já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:

*Imagem de capa: Reprodução/TMDb

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