Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br)
Criada por Ryan Murphy — o mesmo idealizador do sucesso Glee (2009-2015) — a série Pose (2018-2021) se passa em Nova York no final dos anos 1980. Em meio a uma epidemia de AIDS que era amplamente associada a homossexuais, transexuais e a trabalhadores do sexo, a personagem Blanca (MJ Rodriguez) decide criar a sua própria house, a fim de acolher novas pessoas de sua comunidade e levá-las para a cena ballroom.
Durante os anos 1960, a exclusão social levou milhares de latinos e pessoas negras a se unirem em houses (casas, em inglês) para competir nos famosos balls. O ballroom tem origem datada do século 19, mas se desenvolveu ao longo do século 20 devido à influência drag e da comunidade LGBTQIA+, principalmente homens gays e mulheres transexuais. A cultura consiste em competições de desfiles em diversas categorias, em que são avaliados o cabelo, a maquiagem, a performance, o estilo e a roupa.
A cena ballroom ganhou atenção no mainstream ao longo dos anos. A cantora Madonna foi uma grande responsável pela propagação da arte vogue, inspirada na revista de mesmo nome, que consiste em representações artísticas de poses, alinhadas a movimentos com os pés e as mãos, em desfiles. A canção, com mesmo nome, é muito comentada pela protagonista Blanca ao longo da segunda temporada, que enfatiza uma nova era de liberdade e aceitação social.
Além de acompanhar a comunidade nas últimas duas décadas do século, a série aborda diversos aspectos da juventude LGBTQIA +.
Aceitação e saída do armário
Já no primeiro episódio, o telespectador é apresentado ao personagem Damon (Ryan Jamaal Swain), um garoto negro e gay que foi criado por pais religiosos no subúrbio da Pensilvânia. A sua mãe o deixava expressar sua arte, a dança, quando pequeno e no amadurecer da adolescência. Mas, ao descobrir revistas pornográficas escondidas embaixo de sua cama, seus pais o expulsaram de casa por conta de sua sexualidade.
Sem auxílio, Damon vai às ruas de Nova York para tentar ganhar a vida com a dança e conhece seu futuro namorado, Ricky (Dyllon Burnside), enquanto vive nas ruas. Em paralelo, Blanca decide deixar a sua atual casa, a House of Abundance, para fundar a sua própria, e acolher novas pessoas para a cena. Após um diagnóstico de HIV, com receio de ter uma vida curta, a personagem monta a House of Evangelista, e acolhe Ricky, Angel (Indya Moore) — sua irmã de outra house — e Papi (Angel Bismark), um homem latino que trabalhava anteriormente com venda de drogas.
O tema de aceitação e saída do armário é recorrente ao longo das temporadas, visto que grande parte do elenco é composto por mulheres transexuais e homens gays. O enredo de Damon toma conta da primeira parte da série. Em conversa com Blanca, no terceiro episódio da primeira temporada, o personagem relata que somente nos natais e apresentações da igreja podia ser quem era sem restrições, mostrando como a expressão artística só era aceita dentro de um limite imposto.
Além de Damon, mais adiante na série — durante a terceira temporada — o telespectador é apresentado ao passado de uma personagem única, a inabalável Elektra Abundance (Dominique Jackson). Em um episódio de flashbacks, sua mãe tenta obrigá-la a abandonar sua identidade após vê-la chegando em casa com roupas femininas. Em resposta, Elektra diz que aquela era ela, e decide sair de casa. Nesse momento, a personagem tenta levar seu baú de pertences consigo, mas é impedida pela mãe. O arco de Elektra demonstra que o abandono familiar, além de uma questão de orientação sexual, é também de identidade e de expressão de gênero.
Relações sexuais e proteção
Um dos assuntos mais abordados ao longo da série é a epidemia de AIDS e todos os estereótipos que envolviam a comunidade LGBTQIA +. Durante o início dos anos 1980, nos Estados Unidos, os primeiros casos surgiram de uma doença até então desconhecida. Em pouco tempo, criou-se uma associação da doença com homens gays, o que foi amplamente propagado pela mídia e pela igreja católica. A série retrata o preconceito, que foi responsável pela morte de muitas pessoas ao longo dos anos.
Ainda na primeira temporada, os personagens Pray Tell (Billy Porter) e Blanca, são diagnosticados com a doença. Blanca decide criar a sua própria casa pois deseja ter um legado que sobreviva para além de sua morte. Durante o desenrolar dos episódios, Ricky e Damon têm relações sexuais sem proteção, o que se torna um grande problema após o primeiro relatar ter um extenso passado sexual, algo que Damon não tinha.
Os meninos são instruídos por Pray Tell a se testarem, e é nesse momento que o personagem descobre o seu estado de saúde. O arco de Pray gira em torno da noção de que sua vida pode ser encurtada pela doença — visto que a AIDS era considerada uma sentença de morte nos anos 1980 e 90. Diversos amigos do protagonista morrem ao decorrer dos episódios. Em dado momento, em conversa com Blanca, ele diz estar cansado de estar sempre envolto de morte, de viver em funerais e enterros.
No primeiro episódio da segunda temporada, Acting Up, orientado pela amiga e enfermeira Judy Kubrak (Sandra Bernhard), Pray se junta à militância para protestar contra os estigmas e a fim de buscar visibilidade para a causa. No sétimo episódio da mesma temporada, Blanca e Pray mobilizam os integrantes da cena ballroom para uma ação contra uma mulher que usa da doença como justificativa para o seu preconceito. Os personagens criam um preservativo gigante e cobrem a casa da senhora, um ato para colocar a proteção no centro do debate e, ao mesmo tempo, para mostrar que não iriam ficar calados contra a homofobia.
Sexualidade e religião
A história de Pray Tell não acaba aí. O personagem, assim como diversos outros, passou por vários problemas em relação à sua sexualidade por ter crescido em um lar cristão. No episódio Take me to church, da terceira temporada, a história do protagonista é revelada. Ao voltar para sua cidade natal, ele enfrenta um amor antigo, Norm Lewis (Vernon Jackson), com quem se envolveu quando adolescente, e que agora é um pastor casado com uma mulher.
O episódio mostra uma “reconciliação” de Pray com seu passado durante uma cena em que o personagem canta com o coral da igreja e relembra o como se sentia ao poder se expressar nos limites religiosos, algo parecido com o que Damon viveu. O sentimento de ser criado em um lar religioso sendo da comunidade LGBTQIA + é compartilhado por diversas pessoas. Em entrevista à Jornalismo Júnior, Samuel Cerri, estudante de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), compartilha a sua experiência como um menino gay criado em um lar evangélico.
“Um pastor veio em casa, conversou comigo e disse que ‘dois homens não formam casal, formam um par’”, conta ele. O estudante conta que se assumiu após uma viagem, e que sua família apresentou resistência a isso. Segundo ele, sua avó morreu sem aceitá-lo, algo parecido é retratado no enredo de Blanca. Na série, a protagonista volta para casa após a morte de sua mãe e é duramente recebida pela família, que não aceitou a sua transição. No final do episódio, a irmã de Blanca admite que sua mãe falava dela, mas que nunca realmente aceitou a sua identidade de gênero.
Outra fonte, que preferiu não se identificar, conta sua experiência como um homem gay em um lar evangélico. Segundo ele, houve uma repressão pessoal por conta de sua religião, mas que seus pais foram mais receptivos do que ele imaginava. Para ele, pessoa ativa nas atividades da igreja, ainda existe uma relação um pouco complicada entre os dois aspectos, mas, por conta dessa vida, achou acolhimento e amor em uma pessoa do mesmo local.
“Ter o meu namorado na minha vida me fez ficar mais confortável e me aceitar mais, ter mais orgulho de ser quem eu sou”
Quando a pista vira sua casa
O coração da série é a pista do ballroom, onde os momentos mais marcantes se passam. Segundo Elektra, as interpretações e desfiles do ballroom são momentos em que as pessoas da comunidade podem se expressar e viver uma realidade que os foi negado por meio de vestimentas, maquiagem, música e dança. Os membros das diversas casas desfilam nas categorias: Executive realness (interpretações de pessoas em posição de poder através de roupas e performance); Schoolgirl/Schoolboy realness (interpretações de estudantes colegiais); Sex Siren (voltada à performance sensual); Body (performance corporal); Face (aparência e beleza facial); entre outros.
Uma das principais características da cultural ballroom, algo muito defendido e citado por Blanca, é o senso de família e acolhimento. Mya Joaquim, uma mulher trans travesti, estudante de Artes Cênicas da USP, em entrevista à Jornalismo Júnior diz que a ballroom a apresentou uma “nova infância”, um lugar em que ela podia viver coisas novas em relação ao seu corpo e à sua imaginação.
“A ballroom é um lugar voltado a pessoas trans periféricas. É um espaço com muitos traumas, feridas sociais, pendências. É um espaço de acolhimento e desenvolvimento.”
Mya Joaquim
Assim como demonstrado na série, Mya acrescenta que a ballroom é um espaço de crescimento e de projeção, em que as pessoas “fazem o seu nome” e, quanto mais tempo na cena, mais apreço recebem de outras pessoas, tornando-se lendas. Elektra é um exemplo claro da descrição acima, pois está na cena há anos, criou diversos “filhos e filhas” em sua casa e perpetua o legado.
A estudante relata que deixou o ballroom por conta de um desgaste físico e emocional, mas que retornou anos depois por conta da preparação corporal que o curso que estuda a proporcionou. “Hoje eu voltei com uma consciência maior. Nas [artes] cênicas, as práticas são de preparação corporal, presença sólida no palco e assistência acadêmica”, completa a artista.
Uma das principais categorias de desfile na série é o Vogue. Inspirada na revista de mesmo nome, os dançarinos e desfilantes interpretam poses de modelos de alta moda com movimentos exagerados envolvendo diversas partes do corpo. O voguing fez parte da narrativa de Angel, personagem secundária que desfilava na categoria Femme Queen, incorporando movimentos e performando a sua feminilidade que era questionada fora daquele espaço.
Com o sucesso da música de mesmo nome de Madonna, a cultura queer foi impulsionada para o mainstream A popularidade é vista como algo positivo por Blanca, que se mostra esperançosa quanto ao futuro da comunidade, e também por Damon, o qual consegue um emprego dando aulas de voguing em uma escola de dança.
Mya compartilha um pouco de sua própria experiência na cena. A estudante diz que via as pessoas dançando e queria participar também. “No voguing tem o duckwalk, um movimento de ficar agachado em cima da ponta do seu pé, e levantar e descer mexendo as mãos. Eu lembro de ficar na parede horas só fazendo isso, fortalecendo essa parte do meu corpo”. A estudante diz que a cena é um espaço de produção de “super pessoas”, que transforma a vida dos envolvidos, que aplicam suas habilidades de maneira consciente para criar um momento e modificar a experiência de uma sociedade.
“A ballroom é uma fábrica de pessoas que vão além do imaginário comum, de pessoas que saem da rua, de uma vida depressiva, que passam fome e vão para a capa de uma revista, para o balé de uma pessoa famosa no Brasil.”
Mya Joaquim




