Por Laura Cristofoletti (lauracristofoletti@usp.br)
No ano de 1982, foi anunciado o primeiro caso de um paciente diagnosticado com Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) no Brasil. Já apresentando mais de três mil vítimas nos Estados Unidos, a AIDS chegou na cidade de São Paulo em meio à ditadura militar e afetou uma população que ainda não tinha acesso a um sistema público de saúde.
Em poucos meses, a notícia da chegada da doença se espalhou pelo país, tendo como propulsora a morte de Marcus Vinícius Resende Gonçalves, o “Markito”, estilista de famosos como Gal Costa, Xuxa e Ney Matogrosso. Sendo a primeira figura pública brasileira a falecer devido a infecção do vírus da imunodeficiência humana (HIV), de acordo com o portal G1, Markito virou símbolo da letalidade da doença, mas sendo um homem gay, tal fama o tornou alvo de duras agressões, que colocaram sua sexualidade como culpada pela sua morte.
Segundo o livro Histórias da AIDS no Brasil (2025), produzido pelo Governo Federal, dentre as poucas coisas que se sabia sobre a doença na época, uma delas se tornou mais disseminada: a maior ocorrência de casos entre homens homossexuais dentre a população afetada. Em abril de 1981, de acordo com dados do Ministério da Saúde, 14 casos haviam sido descobertos em vários hospitais na cidade de Nova Iorque e, dentre os pacientes, nove se declararam como homens gays.
Na época, diversos jornais, como a Veja e o The New York Times, começaram a disseminar notícias da síndrome sob o nome de “câncer gay” ou “peste gay”. Em junho de 1983, o periódico Jornal do Brasil publicou uma matéria intitulada “Vírus pequeno provoca ‘câncer gay’”, na qual associava a letalidade da doença a uma ocorrência apenas na comunidade LGBTQIA+.

O que é o HIV?
Segundo o Ministério da Saúde, o HIV é um vírus que tem como alvo o sistema imunológico e, quando este é atacado, se fragiliza e perde sua função de proteger o corpo de outras doenças. Sem o tratamento adequado, o vírus pode se desenvolver para a AIDS, estágio mais avançado e de maior letalidade. De acordo com Juliana Fernandes, médica especializada em infectologia pediátrica, o compartilhamento de seringas, a transmissão vertical (de mãe para filho) e a via sexual podem ser responsáveis pelo estabelecimento do vírus da imunodeficiência na corrente sanguínea. No entanto, segundo ela, existe uma onda de desinformação que cerca a infecção e leva à crença de que a doença pode ser disseminada por qualquer toque físico.
“O maior desafio atual reside em combater o preconceito através da informação, reforçando que o vírus não é transmitido por contatos sociais, como abraços, beijos ou compartilhamento de utensílios”.
Juliana Fernandes
A médica destaca a evolução do tratamento de pessoas soropositivas ao passar das décadas. De acordo com ela, o diagnóstico do HIV era como uma “sentença de morte”, mas, hoje, com o devido cuidado e acompanhamento, viver com o vírus pode ser comparável a viver com “diabetes ou hipertensão, em termos de controle clínico”. Quanto ao tratamento oferecido aos diagnosticados, Fernandes explica que o acompanhamento necessário para o avanço da doença inclui “consultas periódicas, realização de exames e retirada mensal de medicamentos”, como doses combinadas dos fármacos Tenofovir e Lamivudina, processados em um único comprimido que deve ser tomado diariamente.
Fernandes ainda afirma que tais medicamentos permitem que a longevidade e qualidade de vida de uma pessoa vivendo com HIV se torne equivalente a quem vive sem o vírus. Segundo a médica, caso o paciente siga os cuidados necessários oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pode chegar ao status de “HIV Indetectável”, que ocorre ao se ter uma quantidade de vírus no sangue baixa o suficiente para não conseguir ser registrada em testes laboratoriais, tendo, assim, chance mínima de transmitir o HIV pela via sexual.
A política por trás da epidemia
De acordo com a analista de políticas públicas do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), Beatriz Almeida, na época de sua aparição, o avanço da doença e a desinformação ao seu redor afetou a construção de um programa público de contenção de danos de forma rápida. Segundo ela, a epidemia de AIDS no Brasil foi marcada, inicialmente, por uma negligência estatal de teor moralista e exclusor. “A Aids atingiu, nos seus primeiros anos, grupos que já eram alvos de discriminação, como homens gays, usuários de drogas injetáveis, trabalhadores sexuais. Isso fez com que parte significativa da sociedade e, de muitos governos, tratasse a epidemia não como uma emergência de saúde pública, mas como uma consequência de comportamentos ‘desviantes’”, afirma

A ausência de um sistema público de saúde também afetou no tratamento dos pacientes diagnosticados e no processo de diagnóstico, segundo Almeida. Foi apenas em 1988, seis anos após o primeiro caso da AIDS no Brasil ser descoberto, que o direito à saúde foi reconhecido nacionalmente na Constituição Federal de 1988. A regulamentação do SUS ocorreu dois anos depois, em 1990.
Almeida reforça a importância da luta da sociedade civil para a conquista de tal direito. Segundo ela, a aprovação da Lei 9.313 de 1996, que garantiu o acesso universal e gratuito aos antirretrovirais pelo SUS e tornou o Brasil referência mundial no combate ao vírus, foi resultado do ativismo de organizações como a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e o Grupo Pela Vidda, instituições criadas com a intenção de promover direitos humanos e assistir às pessoas vivendo com HIV e AIDS.
“Foram as próprias pessoas afetadas que criaram as primeiras respostas organizadas: produziram materiais de prevenção, pressionaram o Estado, ocuparam espaços de decisão”.
Beatriz Almeida
O HIV e a Aids em 2026

João Geraldo Netto, influenciador e ativista pelos direitos de pessoas vivendo com o HIV, reflete que há uma notável diferença entre as informações disponibilizadas sobre o vírus na época em que recebeu o diagnóstico, nos anos 2000, e as variadas formas de se informar atualmente. “Não é mais daquele jeito que encontrávamos [informação] antigamente, que era especificamente lá no consultório médico. Hoje em dia, encontramos em outros lugares também”, aponta.
O desenvolvimento de medidas profiláticas, métodos de prevenção usados antes e depois do contato do paciente com o vírus, como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) providenciaram uma queda de mais de 50% no número de infecções por HIV em São Paulo entre 2016 e 2023, segundo o Conselho Federal de Farmácia. De acordo com um boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde em 2025, o país teve o menor registro de mortes das últimas três décadas em 2024, com diminuição de 12,8% na mortalidade da doença.
Para Netto, o aumento da visibilidade da doença também possibilitou a melhoria dos tratamentos ofertados aos cidadãos diagnosticados com o vírus. Ele afirma já ter chegado a tomar nove comprimidos para HIV até ter acesso a um medicamento sem efeitos colaterais danosos. O influenciador reforça a importância desses medicamentos para a liberdade sexual da população, tanto para pessoas que não portam o vírus do HIV quanto pessoas portadoras do vírus de forma indetectável, logo, intransmissível.
“Eu costumo dizer que agora é o melhor momento da nossa vida para fazermos sexo, porque é um momento em que temos liberdade para viver a nossa sexualidade de uma maneira absurda”.
João Geraldo Netto
A implementação do medicamento Lenacapavir no SUS é mais um dos problemas atuais no tratamento da AIDS, apontados por Almeida. O remédio, que apresenta entre 96% e 100% de eficácia como PrEP, segundo o médico Dráuzio Varella, apresenta um custo de mais de R$ 50 mil para sua aplicação devido ao monopólio de sua patente, desenvolvida pela empresa farmacêutica Gilead Sciences, o que dificulta sua compra pelo SUS. O fármaco se destaca em comparação a outros antirretrovirais por precisar de apenas duas injeções anuais para proteger o paciente de uma infecção, o que, de acordo com a Câmara Legislativa, ajuda a “diminuir o estigma da doença e possíveis abandonos de tratamento”, que ocorrem com o uso de pílulas diárias.
Em fevereiro de 2026, a deputada federal Duda Salabert (PSOL) protocolou a PL 418/26, que permite a quebra de patente do Lenacapavir a fim de abrir portas para a produção de versões genéricas do medicamento, o que diminuiria seu valor de custo. De acordo com a congressista, a aprovação do projeto de lei permitiria a compra do remédio pelo SUS e a quebra de uma lógica capitalista que põem o lucro acima de milhares de vidas.

Como a sociedade enxerga o HIV?
De acordo com Almeida, o Boletim de Monitoramento do Orçamento da Saúde Federal do IEPS, publicado em 2023, mostrou que o orçamento destinado ao HIV/AIDS passou por diversas quedas nos anos anteriores. Tais quedas, aponta a especialista, coincidem com um período de retomada do pensamento conservador na política brasileira, com a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2018, e a ocupação da maior parte das cadeiras legislativas pela extrema-direita. O ex-presidente, quando questionado acerca dos cortes de verbas em políticas públicas destinadas ao público feminino em uma coletiva de imprensa, em 2020, chegou a afirmar que pessoas vivendo com HIV seriam uma “despesa para todos aqui no Brasil”, elogiando ainda a campanha de abstinência sexual lançada pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos à época, Damares Alves.
Netto afirma ter sofrido ataques dessa retomada conservadora. O influenciador relata ter sido vítima de ameaças e comentários sorofóbicos, isto é, o preconceito com pessoas “soropositivas” (que vivem com HIV), durante o período eleitoral de 2022. Netto ainda declara que casos como esse não são isolados, e sim, muito comuns entre a população de pessoas vivendo com HIV.
Segundo Beatriz Almeida, mesmo que um aumento de 40% nos fundos para o combate representem uma recomposição, ainda não há um avanço estrutural que impeça a escalada do vírus. “O Brasil tem uma tradição importante nisso [tratamento para HIV] e preservar essa tradição é um dos compromissos mais urgentes que o governo federal pode assumir hoje”, aponta.

A pesquisa “Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS”, divulgada pela instituição UNAIDS Brasil, em maio de 2025, indica que quase 53% das pessoas vivendo com HIV já sofreram algum tipo de preconceito devido ao seu diagnóstico. A pesquisa também aponta que 60% da população transgênero no país têm medo de procurar ajuda em unidades de saúde com medo de sofrer com o estigma.
Almeida ressalta a importância do suporte psicossocial para esta população:“Cuidar de quem vive com HIV não pode se resumir à entrega do antirretroviral. O sofrimento psicológico e o impacto social do diagnóstico são parte da condição, e precisam ser tratados com a mesma seriedade”. De acordo com a analista, o SUS prevê um tratamento com abordagem integral , o que inclui atenção psicológica, mas, na prática, o acesso se torna desigual porque depende da estruturação de serviços de cada município.
Ao indicar a ausência de um incentivo maior à prevenção do HIV pelas instituições governamentais, Netto também questiona a dissociação das unidades municipais de saúde de planos federais devido à falta de investimentos. Segundo ele, a imposição de campanhas contra o HIV em instâncias municipais não ocorre de forma ampla, sendo sujeitada aos teores morais de cada cidade. “Então, ao invés de eles promoverem métodos de prevenção, eles estão falando que não vão pagar dinheiro público para ‘viado transar sem camisinha’”, afirma.
Hoje, o tratamento para HIV perdeu o caráter de “sentença de morte” e seu diagnóstico se tornou cada vez mais leve, de acordo com Netto e a médica Juliana Fernandes. Ao ser questionado sobre o que diria para alguém que acabou de descobrir que está com o vírus reagente, Netto afirma a importância de enxergar o HIV como uma “sentença de vida” também, que pode promover um processo de luto pela própria saúde, mas de aceitação da própria finitude.
“Existe muita vida depois do HIV. E ela pode ser muito linda. Passamos a nos observar com mais calma”.
João Geraldo Netto
(A capa desta matéria usa imagens editadas da Universidade de Brasília, de Raphael Rajão Ribeiro e do Freepik)
