Por Fernando Lucchi (fernandolucchi@usp.br) copa
O Haiti retorna ao Mundial 52 anos após sua primeira disputa em Copas do Mundo. Em um ciclo que contou com um trabalho cada vez mais sólido, os haitianos puderam trazer alegria ao seu país através do futebol.
Marcado por décadas de instabilidade político-econômica e tragédias humanitárias – desde as dívidas impostas pela França após a independência, passando pela violenta ditadura da família Duvalier e pelos desastres naturais de 2010, até a atual crise provocada pelas guerras de gangues – o país viu milhões de haitianos deixarem sua terra natal em busca de melhores condições de vida. Os chamados “filhos da diáspora”, descendentes desses imigrantes espalhados pelo mundo, tornaram-se peças fundamentais na campanha dos granadeiros para retornar à Copa do Mundo.
Histórico na Copa
A primeira participação haitiana na Copa do Mundo ocorreu durante o torneio de 1974. Num grupo com Argentina, Itália e Polônia – esta última viria a vencer a Seleção Brasileira na disputa pelo terceiro lugar do torneio -, o Haiti não teve muitas chances, e terminou em último lugar na primeira fase, sem pontuar. Entretanto, a campanha consagrou Emmanuel Sanon como ídolo nacional, ao marcar o gol haitiano contra a Itália, que quebrou a sequência de 1142 minutos sem sofrer gols do lendário goleiro Dino Zoff.
A classificação longe de casa
A jornada rumo à Copa do Mundo começou em março de 2023, quando o treinador Jean-Jacques Pierre conduziu a Seleção Haitiana à primeira divisão da Liga das Nações da Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF). O resultado foi o último feito do técnico com os granadeiros, que não teve seu vínculo renovado, e o espanhol Gabriel Calderón assumiu interinamente.
Calderón treinou o Haiti durante sete jogos em 2023. Sem grandes resultados, os granadeiros foram eliminados na fase de grupos da Copa Ouro e rebaixados novamente para a segunda divisão da Liga das Nações, empatando três jogos e perdendo para a Jamaica. Devido ao mau desempenho do interino, em março de 2024, Sébastien Migné foi contratado para assumir a Seleção Haitiana durante as Eliminatórias da CONCACAF.
Com o novo treinador à beira do campo, os efeitos surtiram rapidamente, e o Haiti ganhou todos os oito jogos que disputou em 2024: duas vitórias na segunda fase das Eliminatórias e seis na Liga das Nações, o que garantiu um novo acesso à Liga A e uma vantagem significativa na disputa pela vaga no Mundial. A boa fase e a empolgação com a possibilidade de chegar à Copa levaram à captação e naturalização de múltiplos jogadores internacionais com raízes haitianas, com destaque para o zagueiro Jean-Kévin Duverne e o meia Jean-Ricner Bellegarde, que viriam a ser importantes reforços para os granadeiros no ciclo.
Em 2025, o Haiti garantiu na Data FIFA de junho a sua classificação para a rodada final das Eliminatórias ao vencer a seleção de Aruba por 5 a 0. Na terceira fase do torneio preliminar para a Copa do Mundo, a Seleção Haitiana foi sorteada na chave de Honduras, Nicarágua e Costa Rica. Em decorrência da crise no país, os granadeiros tiveram que mandar suas partidas em Curaçao, mais uma adversidade no caminho rumo ao Mundial. A campanha de três vitórias, dois empates e apenas uma derrota foi surpreendente para um país que era considerado o azarão do grupo, e na última rodada, a vitória por 2 a 0 sobre a Nicarágua, com gols de Louicius Deedson e Ruben Providence, garantiram o tão aguardado retorno haitiano à Copa do Mundo.
A convocação final
O treinador Sébastien Migné divulgou, no último dia 15, a lista com os 26 nomes que estarão presentes na Copa do Mundo. Os chamados foram:
Goleiros
- Johnny Placide (Bastia, FRA)
- Alexandre Pierre (Sochaux, FRA)
- Josué Duverger (Cosmos Koblenz, ALE)
Defensores
- Carlens Arcus (Angers, FRA)
- Wilguens Paugain (Zulte Waregem, BEL)
- Duke Lacroix (Colorado Springs, EUA)
- Martin Experience (Nancy-Lorraine, FRA)
- Duverne (Gent, BEL)
- Ricardo Adé (LDU Quito, EQU)
- Hannes Delcroix (Lugano, SUI)
- Keeto Thermoncy (Young Boys II, SUI)
Meio-campistas
- Leverton Pierre (Vizela, POR)
- Carl-Fred Sainthe (El Paso Locomotive, EUA)
- Jean-Jacques Danley (Philadelphia Union, EUA)
- Jean-Ricner Bellegarde (Wolverhampton, ING)
- Pierre Woodenski (Violette AC, HAI)
- Dominique Simon (Tatran Presov, SVK)
Atacantes
- Louicius Deedson (FC Dallas, EUA)
- Ruben Providence (Almere City, HOL)
- Josué Casimir (Auxerre, FRA)
- Derrick Etienne (Toronto FC, CAN)
- Wilson Isidor (Sunderland, ING)
- Duckens Nazon (Esteghlal, IRA)
- Frantzdy Pierrot (Çaykur Rizespor, TUR)
- Yassin Fortune (Vizela, POR)
- Lenny Joseph (Ferencváros, HUN)
As principais novidades da convocação são o volante Dominique Simon e o centroavante Lenny Joseph. Ambos nascidos na França, encorpam ainda mais o grupo de filhos da diáspora, e podem ser reforços importantes para o Mundial.
Como joga o Haiti?
Com uma base titular que demonstrou muita solidez num nível mais baixo de enfrentamento, a Seleção Haitiana tem um esquema tático que varia pelos contextos de jogo: idealmente joga num 4-4-2, mas que pode se tornar 4-2-3-1, 4-5-1 e até mesmo uma linha de cinco zagueiros, a depender do adversário. O treinador Sébastien Migné reconhece as limitações técnicas da equipe e adapta a forma de jogar em relação ao contexto. Por ser o time mais fraco tecnicamente de seu grupo na Copa, a tendência é que o Haiti adote um bloco mais baixo para buscar maior compactação defensiva e neutralizar seus adversários.

Provável time titular do Haiti para a estreia da Copa [Arte: Fernando Lucchi/buildlineup.com]
As chances de ataque do Haiti devem se concentrar principalmente em contra-ataques e conexões diretas, apostando no jogo em velocidade com Casimir, Isidor e Lacroix para ganhar espaço vertical e furar as defesas adversárias. A função de romper as linhas defensivas passa principalmente pelo meia Bellegarde, que é a referência técnica do time, enquanto o ponta Providence funciona como complemento na criação, caindo do lado do campo para dentro. Outra estratégia que deve ser comum durante a Copa são as bolas longas para o centroavante Pierrot, de 1,94 metros, para evitar saídas curtas e pressões adversárias em seu campo defensivo.
O principal dilema da equipe mora no meio-campo. Uma das possibilidades de Sébastien Migné é optar pela dupla de volantes Jean-Jacques Danley e Leverton Pierre, com Bellegarde atuando como um camisa dez clássico. Nessa conjuntura, o Haiti ganha maior poder de marcação, mas o arsenal ofensivo, que passa muito pela conexão direta com os pontas Providence e Casimir como criadores de jogadas em amplitude, é limitado.
Por outro lado, se Bellegarde atuar ao lado de um dos volantes, o time ganha armas no ataque, mas a defesa tende a ficar mais exposta nos momentos de subida. Além disso, nesse caso, a equipe abdica da criatividade no setor final do campo em prol de uma fase de construção mais controlada e sólida.
Independentemente da escolha de Migné, o esperado é que o Haiti passe a maior parte da Copa do Mundo em seu campo de defesa. Os pilares do setor, o goleiro e capitão Placide, o lateral-direito Carlens Arcus e os zagueiros Ricardo Adé e Duverne, devem ter muito trabalho ao decorrer do torneio.
Fique de olho
Jean-Ricner Bellegarde
Estreante durante a reta final das Eliminatórias da CONCACAF, Bellegarde rapidamente elevou o nível técnico dos haitianos. Nascido em Colombes, na França, o atleta do Wolverhampton é o camisa dez e principal destaque do Haiti. Dono de um estilo de jogo versátil, ele pode atuar como volante, meia de ligação, meia ofensivo e até mesmo pelo lado do campo, e se destaca pela sua distribuição de passes e qualidade nas conduções verticais.

Em 2019, Bellegarde foi pré-convocado para a Copa Ouro pelo Haiti, mas sua primeira convocação oficial ocorreu apenas em 2025 [Imagem: Reprodução/Instagram/@fhfhaiti]
Wilson Isidor
Outro filho da diáspora haitiana, Isidor é a principal novidade da seleção na disputa do Mundial. Com passagens pelas categorias de base da Seleção Francesa, Wilson estreou pelo Haiti no amistoso contra a Tunísia, na Data FIFA de março deste ano, e fez seu primeiro gol pelo time na partida seguinte, contra a Islândia.
Atacante versátil, Isidor costuma atuar como centroavante, mas pode jogar também na ponta-esquerda. A base do seu estilo de jogo é o uso da velocidade para romper linhas, mas não se limita a isso: possui qualidade para abrir espaços como pivô e inteligência tática para desacelerar e criar oportunidades pela movimentação sem a bola. Se Bellegarde é o arco, Isidor tem a função de ser a flecha dos haitianos na Copa do Mundo.

Isidor marcou sete gols em 15 jogos nas categorias de base da Seleção Francesa, antes de se juntar ao Haiti [Imagem: Reprodução/Instagram/@sunderlandafc]
Duckens Nazon
Ídolo nacional, Duckens Nazon foi por muito tempo o principal nome da Seleção Haitiana. O centroavante de 32 anos é o maior artilheiro do país, com 44 gols em 80 jogos, mas hoje é visto como reserva para Isidor e Pierrot, em decorrência de seu declínio físico. Nas Eliminatórias da CONCACAF, marcou um hat-trick no importante empate em 3 a 3 com a Costa Rica. Apesar da idade, ainda é um jogador de muita inteligência tática, que gosta de incomodar as defesas adversárias ao marcar em pressão alta.

Nazon com a bola do jogo após seu hat-trick contra a Costa Rica [Imagem: Reprodução/Instagram/@nazon.official]
Projeção para a Copa do Mundo
O Haiti está no grupo do Brasil na Copa do Mundo, que conta também com a presença de Marrocos e Escócia. O retorno da Seleção Haitiana ao torneio é contra os escoceses, em partida sediada no Gillette Stadium, EUA, no dia 13 de junho, às 22h no horário de Brasília.
Embora tida como a pior seleção do Grupo C, o Haiti chega ao Mundial com um dos ciclos mais respeitáveis da competição, ao conseguir a classificação longe de casa, enquanto atravessa uma das piores crises humanitárias do planeta. O estereótipo de azarão já foi superado nas Eliminatórias, mas o desafio agora é repetir o feito no maior cenário do futebol global, a Copa do Mundo. Com uma base sólida e reforçada pelos filhos da diáspora haitiana, os granadeiros chegam ao torneio sem nada a perder, e devem usar ao seu favor a pressão sobre seus adversários para terem a chance de se eternizar como uma das grandes zebras da história das Copas.
*Imagem de capa: Reprodução/Instagram/@fhfhaiti
