Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Até onde vai a fama: as grandes paixões de artistas no cinema

Como a indústria transforma relacionamentos complexos e pouco documentados em produtos nas cinebiografias musicais
Por Lara Oliveira (la.oliveira@usp.br)

A vida pessoal dos grandes artistas sempre esteve na boca do povo. A linha tênue entre público e privado leva suas relações afetivas a um espaço de livre julgamento. No cinema, esse aspecto é frequentemente explorado nas cinebiografias musicais, que buscam aproximar os fãs da história de seus ídolos. O espectador, por sua vez,  espera que essas produções não sejam meramente expositivas, mas retratem o que se passa nos bastidores da fama.    

O maior desafio de transformar relacionamentos reais em narrativas cinematográficas é o tom e a veracidade do que está sendo apresentado. Isto é: se o filme constrói uma atmosfera glamourizada que exalta as atitudes do artista, romantiza-se tanto a sua figura quanto o universo Hollywoodiano. Já ao optar por uma linha mais realista e crítica, o enredo pode desagradar a audiência por divergir da imagem que se tem da personalidade retratada. 

A construção da narrativa

Em Back to Black (2024), a diretora Sam Taylor-Johnson concretiza o desejo de longa data da indústria de trazer a cantora britânica Amy Winehouse (Marisa Abela) para as telonas. A vida de Amy fora dos palcos foi exposta intensamente por paparazzi, entre escândalos e relações turbulentas com drogas, álcool e o marido — Blake Fielder-Civil (Jack O’Connell). 

É evidente o destaque dado pelo roteirista Matt Greenhalgh ao relacionamento de Amy com Blake, que é introduzido ao telespectador nos 30 minutos iniciais do longa. A audiência, então, se familiariza com a atração mútua que levou os dois a iniciarem uma relação marcada por intensa dependência emocional e química. No decorrer da trama, a personagem homônima de Marisa Abela se mostra cada vez mais vulnerável perto do marido, em contraste com a potência que apresentava nos palcos no início da carreira.

Blake influenciou diretamente o processo criativo de Amy, inspirando canções de Back to Black, seu álbum mais bem-sucedido [Imagem: Reprodução/TMDB]

O filme opta por explorar detalhadamente o relacionamento amoroso de Amy, indicando que, externamente, a sua intimidade era, por vezes, mais atrativa que a sua própria carreira musical. Assim, ao priorizar cenas de Blake a performances no palco, a narrativa minimiza seu caráter biográfico e reduz a figura da artista ao papel que ocupava na relação. 

O doutor em Ciências da Comunicação e professor da USP, Eduardo Vicente, acredita que “a Amy [Winehouse] é um caso de uma artista onde a vida pessoal e a vida artística estiveram muito intrinsecamente ligadas”. Mas, para ele, o longa não consegue capturar a forma como os dramas pessoais dela fortaleceram o vínculo com fãs ao redor do mundo.

Na visão do público, o roteiro não utiliza essa conexão para explorar o contexto pessoal em que as canções foram produzidas. O que se tem, na prática, são escolhas narrativas que abrem mão da profundidade de suas introspecções individuais para apresentá-las dentro das fases do seu relacionamento. O momento em que Amy transforma o luto sentido pela perda de sua avó e pelo término com Blake no álbum de sucesso que intitula o filme, por exemplo, é abordado apenas de forma superficial. 

Trilha sonora como linguagem dos relacionamentos

A tradicional sinergia entre música e cinema em Hollywood foi determinante para a consolidação das cinebiografias musicais. Ao partir das canções de grandes astros para expressar suas ideias e sentimentos, o gênero combina as obras autorais com músicas criadas para compor trilhas sonoras dignas de sucesso. 

Esta lógica é desenvolvida por Guilherme Maia, Scheilla de Souza e Lucas Ravazzano no artigo “Cinebiografias e as garagens do cinema: tradições e desvios no musical cinematográfico brasileiro do século XXI”. O estudo explica que, com o sucesso de produções como Cazuza – O tempo Não Pára (2004), o Brasil aderiu ao modelo das “musical biopics” hollywoodianas. Nesse formato, momentos marcantes da vida do biografado são recriados ficcionalmente e intercalados com performances musicais públicas ou domésticas. 

Elis (2016), que conta a história de uma das mais marcantes cantoras brasileiras, é um desses casos. Com uma trilha sonora composta por cerca de 20 faixas originais selecionadas pelo músico Otávio de Moraes, o filme retrata a verdadeira atmosfera musical de Elis Regina (Andréia Horta).  

Quando a protagonista não está performando, a trilha se apropria de instrumentos como piano e violão para compor arranjos suaves que conferem um clima intimista às cenas. Por meio desse recurso, a obra consegue abordar as complexas relações amorosas de Elis e o ambiente — dominado por homens — em que vivia de forma sensível.

Elis conheceu ambos os maridos no ramo da música. Ronaldo Bôscoli (sentado, à dir.), foi seu primeiro parceiro [Imagem: Reprodução/TMDB]

Os casamentos da artista foram apresentados com intensidade e profundidade distintas. O relacionamento com o produtor Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) foi marcado por uma tensão motivada pela conduta machista e violenta dele, além da infidelidade de ambos. Já o casamento com César Camargo Mariano (Caco Ciocler), pianista com quem trabalhava, demonstra o amadurecimento e a segurança que Elis buscava para realizar, de fato, um de seus maiores desejos: ser mãe. 

Nas duas abordagens, a trilha sonora corrobora as emoções dos personagens, fortalecendo a narrativa sem sobressair o que é visto em cena. Eduardo Vicente aponta que isso é possível, pois a música possui uma carga emocional muito relevante no público, potencializando as reações antes dos acontecimentos ocorrerem.

A música normalmente está em função da narrativa do filme, ela irá ajudar a contar a história.”
Eduardo Vicente

O professor afirma que o cinema costuma usar recursos clichês na escolha sonora para cenas de romance. Instrumentos como piano ou violino e o uso de uma música específica para cada casal são exemplos. Em casos de relações intensas, como a de Elis e Ronaldo, a trilha acompanha a agressividade ou rebeldia presentes, distanciando-se do romantismo clássico. A música pode, ainda, atuar de forma quase poética, na qual abdica de apenas reforçar a narrativa para dar espaço à subjetividade interpretativa do espectador.

A figura feminina objetificada ou protagonista

A caracterização da mulher dentro de relacionamentos reconstruídos no cinema é um fator crucial para a análise. Afinal, os filmes devem refletir os valores e crenças de certa sociedade e época, conhecidos como o zeitgeist. Com isso, o público pode avaliar se a conduta dos personagens — especialmente homens frente à figuras femininas — é próxima ou distante da realidade.

É evidente que os fãs não esperam que a grande paixão de um artista seja semelhante ao clássico romance em Titanic (1997). O sucesso de bilheteria comoveu o mundo por seu final trágico à custa de um viés idealizado, sobretudo de Rose DeWitt (Kate Winslet) como mulher. A personagem é vista como um objeto de desejo da elite e estava presa a um relacionamento por dinheiro até que conhece Jack (Leonardo DiCaprio) e rompe com tais expectativas. 

Titanic exemplifica como, mesmo que o filme tenha uma protagonista mulher, não se isenta de objetificação. O conjunto de elementos cinematográficos, como roteiro, fotografia e caracterização da personagem é o que verdadeiramente confere destaque para a perspectiva feminina. 

Essa concepção é executada com êxito em Priscilla (2023), que narra a trajetória de Priscilla Presley, ex-esposa de Elvis, a partir do momento em que o conhece. A diretora Sofia Coppola contou com a participação da própria retratada para transformar o livro “Elvis e Eu” (Rocco, 2024) em um produção com a qual o público feminino tende a se sensibilizar.

O enredo começa quando ela o conhece em uma base militar na Alemanha, aos 14 anos [Imagem: Reprodução/TMDB]

O longa acompanha Priscilla (Cailee Spaeny) perdendo, aos poucos, a curiosidade e  inocência típicos da juventude. Visualmente, a personagem altera seu cabelo, maquiagem e vestuário para atender às demandas impostas pelo relacionamento. Elvis (Jacob Elordi), por outro lado, não abandona sua conduta agressiva e controladora e se torna cada vez mais dominante em relação à vida da parceira.   

Mesmo retratando um casamento tóxico, a direção e o roteiro de Coppola impedem que a narrativa se resuma a isso. Os momentos em que Priscilla é reprimida são intercalados com cenas em que o casal está descontraído, divertindo-se ao redor de amigos e familiares. Assim, a obra escapa do sensacionalismo romântico sem se tornar excessivamente crítica, ilustrando o quão ambíguo era o relacionamento real sob o olhar da protagonista. 

Há vários elementos na obra que ressaltam essa perspectiva, tal como a trilha sonora, que não inclui nenhuma canção de Elvis Presley. A escolha, considerada ousada pelo professor Eduardo Vicente, ilustra como a intenção narrativa não é exaltar a carreira musical do cantor ou resumir Priscilla ao papel de “esposa de Elvis”. 

“Cada diretor ou diretora vai contar uma história.”
Eduardo Vicente

O protagonismo feminino encontrado no longa, por sua vez, é quase imperceptível em Back to Black. Isso porque, ainda que seja a figura central, Amy aparece como uma pessoa muito mais “problemática” do que Blake e seu próprio pai — Mitch Winehouse (Eddie Marsan). Ambos têm seus erros e vícios suavizados pela abordagem escolhida. Com isso, o filme sugere ao espectador que os problemas de seus relacionamentos eram causados por sua dependência química, ignorando o fato desta condição ter sido fortemente influenciada pelo marido. 

Onde termina a persona pública e começa o sujeito 

Talvez o aspecto mais intrigante da análise de relacionamentos públicos seja a fama que os acompanha. Ao lado dela, vêm os constantes desafios de sustentar uma relação com uma pessoa (o/a artista) cuja vida pessoal é interligada com o trabalho a ponto de ser desafiador identificar a própria personalidade.

A questão se aprofunda ainda mais quando se pensa no gênero de cada um dos membros em um casal heterosexual. Ou seja, as dinâmicas mudam a depender se o  famoso é homem ou mulher? 

É de se esperar que o status da fama em si cause uma assimetria na relação, mas há construções de gênero na sociedade, como a ideia da “masculinidade provedora” e os julgamentos à postura feminina, que podem potencializar a distância entre os dois. Por isso é tão importante avaliar como o cinema aborda esses fatores na construção narrativa de romances biográficos.

Em dois dos filmes analisados, o incômodo dos parceiros com o sucesso profissional das parceiras é um fator presente. Já em Priscilla, vê-se outro paradigma social quando ela é forçada a escolher entre “Elvis e uma carreira”, além de reprimir o desconforto que sentia em relação aos frequentes boatos do envolvimento dele com outras mulheres na mídia. 

Priscilla foi ensinada desde o início do relacionamento a lidar com o “preço da fama” [Imagem: Reprodução/ TMDB] 

O artigo “Interpersonal dynamics of fame: celebrity discourses in commercial music artist’s romantic relationships” (Dinâmicas interpessoais da fama: discursos sobre celebridades em relacionamentos amorosos de artistas da música comercial, em tradução livre), apresenta uma pesquisa qualitativa que examina a relação entre fama e interações amorosas. O resultado indica que, para a maioria dos artistas consultados, o reconhecimento público é prejudicial para os relacionamentos. 

Os principais motivos apontados são o distanciamento emocional e social, a desconfiança acentuada e a imagem dominante da persona pública. Com isso,  muitos dos entrevistados sugerem que ser famoso e manter relações saudáveis seriam, em última instância, excludentes entre si. 

A partir disso, é possível refletir sobre o conceito de “privilégio normativo”, definido pelo artigo como a vontade do público de imitar os artistas. Esse desejo se fortalece quando os fãs descobrem que seu ídolo será homenageado no cinema, mas pode acabar levando à frustração — seja quando a cinebiografia expõe demais os desvios de caráter do indivíduo ou transforma a sua trajetória em uma narrativa mercadológica. De qualquer maneira, essas produções expõem ao público os desafios reais da fama, tão glorificada popularmente, e suas implicações à vida pessoal do indivíduo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima