Por João Zogobi (jvnogueira@usp.br)
O início do colapso climático emerge com a consolidação do modelo de produção capitalista no século XVIII. Baseado na expansão contínua do capital, o sistema econômico do livre mercado enfrenta o desafio da finitude dos recursos naturais que impedem sua tendência de propagação infinita. Ao se deparar com a deterioração do ecossistema global, intelectuais modernos recorrem à obra de Karl Marx para explicar a impossibilidade de desenvolvimento econômico na sociedade de consumo e a manutenção do equilíbrio ambiental.
Ecossistema como extensão humana
Há quem caracterize as relações do homem com seu ecossistema natural como essencialmente egoístas, assimétricas e predatórias, fato refutado pela análise antropológica de sociedades pré-capitalistas. Dado que desconheciam o conceito de propriedade privada e buscavam satisfazer as necessidades mais imediatas, as chamadas “sociedades primitivas”, formadas há quarenta mil anos, caracterizavam-se pelo nomadismo. Essa prática consiste no uso temporário dos elementos naturais de determinada área, abandonada após o esgotamento de seus recursos para que sejam restabelecidos naturalmente após um período de tempo. O fato de a natureza propiciar a manutenção e a reprodução da vida explica a necessidade de uma relação amigável neste período histórico, o que não significa que ela fosse vista como intocável. O meio ambiente era utilizado para assegurar a sobrevivência e a reprodução da vida social, mas dentro dos limites impostos pela disponibilidade ambiental.

Esse tipo de sistema social perdurou por mais de 30 mil anos, sendo transformado pela domesticação dos animais e a agricultura. Segundo José Paulo Netto, professor da UFRJ, na obra “Economia Política: uma introdução crítica”, o que permitiu a sedentarização das sociedade foi a prática de cercamento de animais, controle da reprodução de grãos e o domínio de ferramentas, possibilitando a permanência num determinado espaço físico e a ampliação de seus recursos naturais a partir da agropecuária. Esse processo teve dois efeitos principais:a especialização das tarefas e a criação do excedente, ou seja, a produção de maior quantidade do que o necessário para manutenção da comunidade.
Chega-se, então, ao ponto principal desta introdução: ao concluir um processo milenar que resultará no início da produção de excedente, as populações passaram a trocar suas mercadorias por outros bens de interesse. Ainda que de forma embrionária, esse processo estabeleceu as bases para a formação do capital moderno: a produção e a circulação organizadas de mercadorias.

Consolidação do capitalismo e irradiação da forma mercadoria
Milênios de anos e dezenas de formas de organizações sócio-político-econômicas – como as sociedades primitiva, escravista, oriental e feudal – separam as primeiras formas de produção e circulação de mercadorias da consolidação do modo capitalista de produção. A grande diferença entre esses sistemas consiste na finalidade dada à riqueza produzida. Segundo Carlos Aurélio Sobrinho, doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), em sociedades escravistas (como os egípcios e gregos) o “excedente de riqueza é para construção de grandes monumentos e estradas, por exemplo. Na Roma Antiga existe a utilização desse excedente para remuneração do exército”. Para o pesquisador, tais formas de utilização do excedente aproximam-se muito mais do caráter coletivista das sociedades primitivas do que a finalidade dada durante o século XV, no qual se inicia o processo de produção, acumulação e reprodução do capital por meio do comércio.
“Existia, de fato, riqueza em sociedades egípcias e romanas, por exemplo. Não havia, entretanto, autovalorização dessa riqueza, que é a característica principal do capital. A destinação da riqueza, no que se refere à essas sociedades e às sociedades a partir do século XV, com o comércio e as Grandes Navegações, é completamente diferente.”
Carlos Sobrinho, professor e doutor em ciências sociais pela UNESP
Esse texto se concentra em delinear somente o processo mais importante para a compreensão da crise climática e sua relação com a consolidação da sociedade burguesa moderna: a crise do feudalismo e as Revoluções Burguesas.
A deterioração do regime feudal teve início no século XIV e conclui-se somente no século XVIII. Entre os principais fatores apontados por pesquisadores, como Sérgio Lessa, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), na obra “Introdução à filosofia de Marx”, pode-se citar como causas dessa deterioração o esgotamento das terras agricultáveis e a queda da produtividade agrícola, base dessa formação econômica. José Paulo Netto acrescenta que, além disso, houve a redução da mineração de prata, ocasionando entrave no fluxo monetário representado pelo minério, ceifamento de um quarto da população europeia com a Peste Negra e o acirramento da luta de classes entre servos e senhores feudais.
Diante dessas problemáticas, alguns sintomas passaram a ganhar força. : com a diminuição do fluxo agrícola, a incipiente classe burguesa-mercantil ganha força econômica com as trocas de mercadorias. Ao mesmo tempo, segundo Netto, o aumento dos conflitos entre camponeses e senhores feudais deu origem a levantes camponeses em regiões como França (1358), Inglaterra (1381), Catalunha (1462), Calábria (1469) e Alemanha (1525). Essas tensões sociais são respondidas com a instauração dos Estados Absolutistas, regime caracterizado pela centralização do poder nas mãos do rei, ausência de Constituições, exército permanente e redução da influência institucional da nobreza fundiária. Com a diminuição da parcela de poder desta classe, a burguesia mercantil e bancária ampliou sua influência econômica e política. Esse movimento foi intensificado pela geração de monopólios comerciais realizados pelo Estado Absolutista e pelas companhias por ações, como a Companhia das Índias Orientais. O processo ocasionou a chamada Revolução Comercial, processo caracterizado pelo deslocamento das rotas comerciais anteriormente localizadas no oriente e que passam, agora, ao Oceano Atlântico.
Segundo Eric Hobsbawm, na obra “A Era das Revoluções”, o aumento do poder econômico da burguesia não é acompanhado, entretanto, pela expansão do poder político, dado a petrificação da estrutura social absolutista. Assim, as forças produtivas encontram um obstáculo para seu desenvolvimento, exigindo novos tipos de relações sociais, ou seja, a burguesia busca exatamente fugir da “‘camisa de força’ do Estado”, segundo Sobrinho. Entre os anos 1688 e 1789 países como França, Inglaterra e Estados Unidos assistiram às Revoluções Burguesas. Esses processos históricos marcam o desfecho de uma luta de classes plurissecular que se inaugura no século XIV. Com a hegemonia conquistada também no mundo das ideias, com o Iluminismo, a burguesia, juntamente com as classes populares, derrubam o chamado Antigo Regime, tomam os órgãos burocrático-repressivos para si (polícia, exército e instituições) e criam as condições para a consolidação do capitalismo.

Ecologia marxiana: humano e natureza como peça elementar
Uma vez instaurado esse sistema, diversos autores buscaram estudar e teorizar seu melhor funcionamento, suas contradições e tendências. Entre eles, os ingleses David Ricardo(1772-1823) e Adam Smith (1723-1790). Enquanto eles desenvolveram um tipo de teoria e metodologia de estudo, o alemão Karl Marx (1818-1883) revolucionou a crítica desta forma metodológico-científica adotada, entre outros, pelos ingleses, ao inaugurar uma nova crítica à ciência que estuda a relação entre a sociedade, economia e meios de produção: a Economia Política.
Marx desenvolveu conceitos e ferramentas para analisar a forma-mercadoria e sua circulação no capitalismo, como alienação, fetichismo da mercadoria, propriedade privada dos meios de produção, entre outros. Para o autor, porém, um dos pontos centrais dessa análise é a relação entre ser humano e natureza. O homem, para existir, precisa transformar constantemente a natureza para exercitar aquilo que o difere dos outros animais e que o torna autêntico: o trabalho. Segundo Ivo Tonet, ex-docente de filosofia da UFAL, ao construir ferramentas como um machado, por exemplo, o homem desenvolve conhecimentos, aperfeiçoa técnicas e transmite esse aprendizado para as gerações seguintes. Nesse processo, ao mesmo tempo em que transforma o mundo ao seu redor, também transforma a si próprio.
“O trabalho é, antes de tudo, um processo entre homem e natureza. […] Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio deste movimento, ele [o homem] modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza.”
Karl Marx, O capital , p.255

Sendo a natureza elemento tão fundamental no desenvolvimento humano, o que explica seu sucateamento, a usurpação de seus recursos até seu colapso, o aquecimento global, derretimento de geleiras, extinções de fauna e flora? Apesar de ter lidado com um panorama ambiental menos agressivo que a contemporaneidade, o pensador aponta como causa a quebra realizada pelo capitalismo da unidade original entre humanos e natureza, denominada de “fratura metabólica”. Ou seja, o capital, ao exigir produção, consumo e reprodução infinitas e utilizando de recursos naturais para tais ações, quebra um metabolismo equilibrado, amistoso e sereno entre natureza e homem.
Há um “esverdeamento” de Marx?
Desde a década de 70, impulsionado pelo tensionamento das discussões climáticas, os estudantes da obra de Marx, chamados Marxistas, optaram por aprofundar as pesquisas no ramo ambiental, adotando o conceito de Ecossocialismo. Parte dessa linha de pesquisa, entendia Marx como distante das pautas ecológicas. Segundo o pensador alemão Hans Himmler, por exemplo, o escritor d’O Capital é essencialmente antropocêntrico ao estipular que somente o trabalho humano é capaz de gerar valor, sendo essa falta de pensamento ecológico um mero espelho da época vivida por Marx, tese à qual Sobrinho se mostra alinhado.
Parte desta tradição marxista, representada pelo professor Michael Lowy membro do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), entende que Marx foi um “homem de seu tempo” e, por isso, não centralizou a ecologia em sua obra, prática comum na área científica do século XIX, dado que as temáticas ambientais surgirão com representativa força a partir de 1970, mais especificamente na Conferência de Estocolmo. Sobrinho se alinha à esse tipo de pensamento e entende que tentar aplicar essa análise no autor alemão é desnecessário.
“Marx não é um teórico da ecologia e não tem problema nenhum nisso, porque ele é um homem de seu tempo. Engels fala que os rios de Londres se tornaram a cloaca da cidade, mas não vai dizer que os meios de produção tem que ser sustentável. É insignificante tentar esverdear o trabalho de Marx.”
Carlos Sobrinho, professor e doutor em ciências sociais pela UNESP
Por outro lado, marxistas como Kohei Saito e Sabrina Fernandes defendem que Marx já desenvolvia uma reflexão ecológica ao analisar as condições materiais e históricas da sociedade. Segundo essa interpretação, o capitalismo se apropria do trabalho individual e torna os sujeitos alienados em relação a sua própria produção, afastando-os também da natureza.
A análise de Marx do trabalho alienado delineia a realidade moderna não livre, na qual não se pode executar o trabalho como um fim em si mesmo, mas o trabalho funciona como um processo de perda da realidade, empobrecimento, desumanização e atomização.
-Kohei Saito, na obra “O Ecossocialismo de Karl Marx” , p.47

Além disso, essa mesma linha de pesquisa entende que, mesmo não abordando específicamente a temática ecológica, a economia política de Marx permite a compreensão da crise ecológica como uma contradição do capitalismo. Isso ocorre justamente por descrever a dinâmica mais imanente do sistema capitalista: o impulso desmedido do capital pela valorização que destrói suas próprias condições materiais de reprodução.
Essa teoria se fundamenta de forma mais enfática ao analisar a relação de Marx com o trabalho do biólogo alemão Justus Von Liebig, responsável por importantes estudos acerca da utilização de fósforo, potássio e nitrogênio no solo. O criador do materialismo histórico se debruçou sobre esse trabalho para criar um aprofundamento da crítica ao capitalismo ligada à agricultura. Essa tese se baseia no fato de que, com a sociedade capitalista, a população cresceu exponencialmente para criar uma reserva de trabalhadores , obrigando que alimentos fossem transportados do campo para os centros urbanos em desenvolvimento. Assim, Marx afirma que o capitalismo não só explora e usurpa o trabalho alheio, mas também os nutrientes da terra, uma vez que esses alimentos são produzidos a partir de nutrientes do solo, levados aos centros urbanos e consumidos para a manutenção da mão de obra das indústrias, mas não são devolvidos ao ciclo ecológico de forma apropriada e natural.
“Por isso, a produção capitalista só desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na medida em que solapa os mananciais de toda a riqueza: a terra e o trabalhador”
Karl Marx, O Capital, p.573
O que se tem de concreto?
Essa contradição entre a expansão do capital e os limites materiais do planeta pode ser observada nos impactos ambientais associados à industrialização. Segundo Douglas Gouvêa, mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a necessidade de geração constante de mercadorias implica na utilização intensiva de matérias primas e liberação de dejetos na natureza, sendo que o início desses fenômenos de forma massiva datam de três séculos atrás com a queima de combustíveis fósseis.
“ A insensibilidade do desenvolvimento capitalista em não determinar quanto e como será extraído influenciou a intensificação do aquecimento global, o derretimento das geleiras e a migração de espécies de insetos, transportando doenças para novas localidades”
Douglas Gouvêa, professor e mestre na área biológica pela UNIFESP

Gouvêa aponta um exemplo contemporâneo do impacto do aumento das temperaturas globais em decorrência do avanço industrial desenfreado: a migração de mosquitos Aedes aegypti da Região Norte para as regiões sudeste e sudoeste do Brasil, que passaram a apresentar temperatura e habitat semelhante à localidade anterior devido ao aumento da temperatura terrestre, causando o espalhamento de doenças como dengue e malária.
“É necessário entender que o ser humano é somente uma das espécies habitando o planeta.Esse modo de produção nos trouxe à essa situação, colocando a ideia de que extraímos tudo porque nada tem dono. Se não houver mudança, não há futuro.”
Douglas Gouvêa, professor e mestre na área biológica pela UNIFESP
Apesar do diagnóstico, o debate acerca de possíveis soluções existe: é preciso ouvir outras vozes, modificar o ethos social e aprimorar o modelo educacional, aponta Gouvêa. A ideologia do capital provoca a quebra do caráter uníssono entre natureza e homem, entretanto pensamentos ancestrais, indígenas e quilombolas utilizam da natureza e do espaço como local a ser respeitado por ter sido habitado por sua ancestralidade. O senso de comunidade perpassa comunidades indígenas, assentamentos ecológicos, produtores agroflorestais e quilombolas e devem ser utilizados como bússola para alternativas futuras, segundo Gouvêa.

A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo
Ailton Krenak, na obra “Ideias para adiar o fim do mundo”,p.22-3
Segundo dados obtidos pela Revista Piauí, Terras demarcadas apresentam os menores índices de exposição à fragmentação e desmatamento. Gouvêa alerta: “há várias formas de desequilibrar um ecossistema, mas, para a homeostase ambiental, o equilíbrio ecossistêmico e o aspecto saudável da natureza, existe somente uma.”




