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“A atmosfera do planeta não reconhece limite administrativo”, geógrafa da UFSCar faz alerta sobre a poluição do ar

Especialistas explicam que a poluição do ar não é exclusiva dos centros urbanos e das zonas industriais, já que o movimento do ar transporta partículas por florestas e por cidades litorâneas, do interior e rurais
Por Grazielli Costa (grazielli.hcosta@usp.br)

Poluição é a presença de substâncias ou energias no ambiente em quantidades que prejudicam o funcionamento natural do meio. Substâncias produzidas pela queima de combustíveis fósseis em veículos, como o CO (monóxido de carbono), o CO2 (dióxido de carbono), e energias sonoras e térmicas exageradas são considerados poluentes. 

O Material Particulado fino PM2,5 (do inglês “particulate matter”) consiste em partículas poluentes de no máximo 2,5 micrômetros (μm) de diâmetro. Elas são tão pequenas que podem entrar no sangue a partir da inalação, por exemplo, e estão presentes em aerossóis, no ar emitido pela combustão de substâncias fósseis ou pelas queimadas. Uma vez na  atmosfera, as PM2,5 contribuem para chuvas ácidas e aquecimento global. Essa relação entre o material particulado e as desordens do meio ambiente ocorre devido à composição química dos pequenos poluentes que, por serem originados de diversas fontes, trazem consigo variadas substâncias prejudiciais à natureza e à humanidade. Alguns exemplos dessas prejudiciais são: carbono negro (fuligem), carbono elementar da queima de biomassa, sulfatos, nitratos, chumbo, zinco, cobre, manganês e poeira mineral.

 O clima urbano

Bioindicadores mostram que, de fato, as áreas urbanas das metrópoles têm o ar mais poluído que a maioria das cidades pequenas e das zonas rurais. Entretanto, para Edelci Nunes da Silva, professora de climatologia e geografia física na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), “no mundo de hoje, o ‘urbano’ é muito presente na vida das pessoas, mesmo que elas morem em áreas rurais”. Essa presença se dá de forma visível e invisível aos olhos, já que a poluição se aproxima do interior dos estados tanto pela chegada de centros industriais e do uso de veículos automotores, quanto pela ação natural das correntes de ar. 

Nunes explica que, em terrenos mais baixos que a Serra do Mar, há o fenômeno chamado inversão térmica. É o caso, por exemplo, do planalto onde fica a cidade de São Paulo, ou da depressão onde está Sorocaba (SP). Na inversão térmica, o ar frio e denso fica retido perto da superfície terrestre devido à camada de ar quente e leve que o impede de realizar o movimento de convecção e isso pode formar neblina e geada. Se trata de uma ocorrência natural do planeta terra, mas pode ser prejudicial à condição de vida humana dada a concentração da poluição no ar: o fenômeno auxilia as partículas poluentes a ficarem presas junto ao ar frio, já que também são densas quando comparadas ao ar quente. 

Foto do céu mostra poluição
A poluição térmica pode ser vista nos dias de céu acinzentado ou de céu dividido entre as cores azul e laranja ao amanhecer e anoitecer [Imagem: Kottairajcs/ WikiMedia Commons]

Carros e indústrias 

Na Primeira República (1889 a 1929), o surto industrial proporcionou a comercialização de bens de consumo para distâncias curtas, pois o país ainda não era integrado o bastante por meios de transporte. As atividades industriais ganharam mais protagonismo para o Estado apenas na Era Vargas. A partir de 1956, com o início do Governo JK, o Plano de Metas proposto para o Brasil incluía a expansão da rede de eletricidade e a criação de mais rodovias. Essa série de mudanças atraiu multinacionais para o Brasil, o que não teve pontos apenas positivos.

JK contraiu uma grande dívida para o país e implementou serviços de alto custo para o Estado. Entretanto, o Brasil já estava ocupado por montadoras de automóveis e a população, adepta à eles, de modo que a saída estatal para o impasse financeiro da manutenção das estradas foi a privatização desse serviço. Nesse cenário de mais urbanização devido às estradas e de capacitação profissional, a produção industrial brasileira conseguiu crescer em 3,5%, de acordo com o IBGE, durante os cinco anos do Governo de Juscelino. 

Gráfico mostra participação da indústria como agravante da poluição
A queima de combustível fóssil é o principal motivo da piora da qualidade do ar e da crise climática global, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) [Imagem: Reprodução/IBGE]

O crescimento industrial seguiu durante a Ditadura Militar (1964 até 1985). O “Milagre Econômico” priorizou o desenvolvimento de mão de obra em detrimento da tecnologia nacional, o que prejudicou a economia e a inflação do país. As décadas seguintes foram marcadas pela desindustrialização do Brasil e pela desconcentração geográfica das indústrias restantes. Elas saíram das metrópoles para os interiores dos estados, onde custos operacionais eram menores. Além disso, incentivos fiscais e proximidade a rodovias definiram o surgimento de novos polos industriais.

“Houve uma desindustrialização de São Paulo, não por conta da poluição, mas por conta de preços de terreno e mão de obra.”
Profa. Dra. Edelci Nunes da Silva da UFSCAR

A região sudeste sempre reuniu mais indústrias. Inicialmente, porque contava com a capital do país – na época, o Rio de Janeiro – e com o acesso ao litoral. Mais tarde, por consequência  do tamanho do mercado consumidor, que consome de fábricas locais, e da quantidade de imigrantes, que assume a posição de mão de obra.

Massas de ar poluídas e seus efeitos químicos

Edelci Nunes da Silva explica que “a atmosfera do planeta não reconhece limite administrativo”, ou seja, as correntes de ar não seguem as fronteiras entre cidades e estados definidas pelas pessoas. Tais correntes não ficam somente nos espaços onde surgem também, como polos e trópicos, já que é a atuação do Sol sobre a superfície da Terra que determina o início dos movimentos do ar que causam o vento, o qual sempre se desloca das áreas frias de alta pressão para as quentes de baixa pressão.

Para entender essa dinâmica mais facilmente, a pesquisadora relembra o caso de Cubatão, município que está na planície litorânea paulista e é rodeado pela Serra do Mar, que atua como um “paredão”. A massa de ar Tropical Atlântica (mTa), vinda do oceano, incorpora a poluição de Cubatão em seu corpo e sobe a serra, é quando o ar esfria e forma chuva. A interação das partículas poluentes com a umidade forma ácidos fracos, ou seja, forma a chuva  ácida.

Na década de 1980, havia menos regulações para a emissão de poluentes. Nesse contexto, a poluição de Cubatão estava contaminando a água, o solo e destruindo a vegetação de mata atlântica – o local ficou conhecido como “Vale da Morte”. A cidade poderia ser soterrada devido aos deslizamentos de terra causados pelo enfraquecimento da cobertura vegetal graças às chuvas ácidas. Como consequência, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) criou um plano antipoluição que incluía a instalação de filtros nas chaminés das fábricas, substituição de matérias-primas e descarte correto de resíduos.  

“O que vai definir [a qualidade do ar] no local é como essa cidade se move, a atividade econômica dela, a indústria e o que está em seu entorno”, aponta Nunes. Sobre a área rural, a professora conta que ainda existem outras questões que interferem na qualidade do ar, como o uso de agrotóxicos e, principalmente, as queimadas.

A poluição das queimadas também se desloca

Em 2019, a fuligem das queimadas na Amazônia chegaram à São Paulo e foram parte das razões para o céu da cidade ter ficado escuro no meio da tarde. “O material particulado, oriundo da fumaça produzida por esses incêndios silvestres de grande porte que estão acontecendo na Bolívia, conjugado com o ar frio e úmido que está no litoral de São Paulo, causou a escuridão”, foi o que disse Franco Villela, meteorologista do Inmet, para o G1 na época. 

Céu encoberto por poluição atmosférica
A imagem mostra o céu de São Paulo em 2014. A atmosfera já era poluída mesmo sem interferência direta e excepcional de outras regiões do país [Imagem: Paulisson Miura/ Wikimedia Commons]

Como aponta o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), dificilmente uma queimada na Amazônia começa de forma natural, pois a floresta é excepcionalmente úmida, então, entende-se que as queimadas são propositais como um jeito de “limpar” o terreno para interessados em utilizar a terra desmatada. O estudo “O Ar É Insuportável”, feito por Human Rigths Watch, IPAM e o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, explica que as estações secas são as mais escolhidas para a queima da vegetação morta a fim de conquistar ilegalmente terrenos para plantações, pastagem de gado e especulação de terras, o que ressalta a fragilidade das leis ambientais brasileiras.

A pesquisa aponta que 55% da área desmatada em 2019, que equivale a mais de 5.500 quilômetros quadrados da floresta amazônica, chegou a essa condição devido a queimadas. A Human Rights Watch concluiu que as queimas do período contribuíram para 2.195 internações por doenças respiratórias em estados da Amazônia. 21% delas eram de bebês de no máximo um ano e 49%, de idosos com 60 anos ou mais — ambas categorias fazem parte do grupo de risco.

Poluição atmosférica e saúde

A pneumologista Danielle Bedin conta que os fragmentos de poluição entram no corpo, principalmente, pela via aérea. No trajeto, as partículas irritam a mucosa da via e podem piorar ou até desencadear doenças respiratórias, como bronquite e asma. Quando chegam aos alvéolos, apenas as PM2,5, conseguem passar e atingir a corrente sanguínea, o que cria o risco de atingirem o resto do corpo. Nesse caso, a poluição pode comprometer o sistema cardiovascular, já que desestabiliza placas de gordura de dentro das artérias e do endotélio  e pode levar ao infarto ou ao derrame.

Outro meio de entrada da poluição no corpo humano é a pele. Segundo Bedin, após a absorção, as partículas também caem na corrente sanguínea. O agravante da poluição do ar é que ela piora a saúde de maneira cumulativa. Por ser invisível e seus efeitos, como coceira e incômodo respiratório, serem comumente confundidos com resfriados, os médicos ainda têm dificuldade em relacionar as mudanças climáticas às queixas que recebem nos consultórios. Para a médica, falta letramento sobre poluição para outras especialidades além da pneumologia.

A pneumologista conta que, nos centros, existe mais atenção à saúde, com mais postos de atendimento, por exemplo. Nas áreas periféricas, em contrapartida, principalmente por falta de médicos no local, a assistência à saúde é menor. Bedin diz que “essas regiões periféricas são as que mais podem sofrer com a crise climática. O Brasil inteiro é muito desigual em relação aos cuidados com a saúde.”

Nas zonas rurais, as maiores dificuldades são a baixa quantidade de profissionais da saúde e as distâncias entre os postos de atendimento e as casas. A pesquisadora apontou que os moradores do campo estão próximos de regiões de queimadas e, por isso, são impactados pela qualidade do ar. Portanto, em uma crise respiratória grave, se o paciente não conseguir chegar rapidamente ao local de atendimento, ele corre um sério risco de vida.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que haja 3,2 leitos hospitalares por 1.000 habitantes. No Brasil, de acordo com o Censo Demográfico feito pelo IBGE em 2022, 87,4% da população vivia em áreas urbanas. Logo, é compreensível que a densidade de leitos hospitalares esteja mais concentrada nos locais urbanizados. Porém, até nesses locais a quantidade de leitos no território brasileiro não chega a uma média de três por habitante. 

Cerca de 2 mil municípios brasileiros não possuem nenhum leito hospitalar, é o que aponta o Boletim n. 1/2024 da publicação Radar Mais SUS. Mesmo se destacando por possuir a maior parte dos municípios com hospitais bem equipados, a distribuição dos leitos da região Sul ainda apresenta grande disparidade entre as zonas urbanas e rurais. A Bahia é o estado com maior densidade demográfica na área rural no país.

Poluição do ar e expectativa de vida
A poluição diminui  a expectativa de vida e afeta principalmente os países em desenvolvimento. [Imagem: Reprodução/CNES/DATASUS/IBGE] 

Quanto aos cuidados com a saúde, a doutora explica que não existe máscara específica que faça com que o PM2,5 não entre nas vias aéreas, mas a máscara N95 é uma boa opção para filtrar cerca de 95% das partículas. Quando o ar estiver poluído, o recomendado é sair com máscara para locais com trânsito de automóveis. Também é preciso poupar o corpo de atividade física em ambiente externo, beber muita água e, para quem se aplica, avaliar o quão controlada a doença pulmonar ou cardiovascular está.

*Imagem da capa: Wim van ‘t Einde/ WikiMedia Commons

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