Home Virou História Que o melhor gênero vença: 50 anos da Batalha dos Sexos 
Que o melhor gênero vença: 50 anos da Batalha dos Sexos 

A história por trás da partida que abriu as portas para a discussão sobre a desigualdade entre os gêneros no tênis, pauta não solucionada até os dias de hoje

ARQUIBANCADA
20 set 2023 | Por Isabella Gargano (bellagargano@usp.br)

No dia 20 de setembro de 1973, houve uma partida entre uma jovem tenista no auge de sua carreira e um atleta aposentado, vencedor de três títulos de Grand Slams no simples. O jogo entrou para a história como um símbolo da luta pela igualdade de gênero no tênis. 

A Batalha dos Sexos, nome eternizado pelo filme A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes, 2017), foi um marco no mundo do tênis e completa 50 anos em 2023, ano em que ainda se observam diferenças no tratamento a homens e a mulheres na modalidade. 

Billie Jean King (à direita) e Bobby Riggs (à esquerda), protagonistas da partida, interagindo na quadra [Imagem/ Reprodução: A Guerra dos Sexos StarPlus] 

Mulheres no Tênis na década de 70 

A desigualdade no esporte era um assunto em discussão naquela época. Antes mesmo da disputa  que ficou conhecida como  Batalha dos Sexos, Billie Jean King já tinha ajudado a liderar o movimento por direitos iguais no tênis. 

Com a modalidade em alta devido ao início da Era Aberta  — quando os torneios de Grand Slam deixaram de ser amadores e passaram a permitir a participação de profissionais — o que se via era um padrão:  os jogos dos homens continuavam a crescer, enquanto os das mulheres tinham menor visibilidade, além de suas premiações serem muito menores e as oportunidades de competir mais escassas.

O que se iniciou como um protesto passivo, com o boicote do US Open de 1970, cujo prêmio dos homens era 12 vezes maior que o das mulheres, evoluiu para a criação de um campeonato feminino no Texas. King, com o apoio de Gladys Heldman, responsável pela World Tennis Magazine, foi a responsável. 

Diante da novidade e se sentindo ameaçada, a Associação de Leis de tênis dos Estados Unidos (USTA) informou que as jogadoras que jogassem no evento seriam suspensas da liga. Muitas das melhores competidoras se afastaram da ideia por medo,mas algumas persistiram na luta. Billie Jean King, juntamente a outras oito tenistas, assinou o contrato  com o Circuito Virginia Slims por um dólar americano. Em 1973, o circuito se tornou a Associação de Tênis feminino (WTA). 

Participantes do Circuito Vìrginia Slims depois de assinarem seus contratos de um dólar [Imagem/ Reprodução: Guerra dos Sexos StarPlus] 

O confronto 

Billie Jean King nasceu em 1943 em Long Beach, Califórnia, ganhou seu primeiro título aos 14 anos em um campeonato estadual e, nove anos depois, venceu seu primeiro Wimbledon. Ativista pela igualdade de gênero no esporte, foi a primeira mulher atleta a receber mais de 100 mil dólares em uma temporada. 

Robert Riggs, mais conhecido como Bobby, foi a estrela de uma geração totalmente diferente do tênis — antes, discutia-se muito pouco sobre os problemas de inclusão e desigualdade na modalidade. Nascido em 1918, em Los Angeles, Califórnia, conquistou a primeira colocação do ranking mundial aos 21 anos, mesma idade em que venceu Wimbledon. Desistiu da carreira de profissional em 1951 mas em 1973 era ativo quanto às suas opiniões misóginas em relação à participação das mulheres no tênis. Bobby autoproclamava-se um “porco macho chauvinista”. 

Alguns meses antes da partida que entrou para a história, Riggs jogou contra Margaret Court, grande tenista australiana da época. Aos 55 anos, o homem teve uma vitória tranquila por 6/1 6/2, e a partida ficou conhecida pela imprensa como “Massacre do Dia das Mães”. Riggs lucrou com toda a publicidade gerada pela rixa de gêneros, além do prêmio da partida.

A partir de então, ele focou em conseguir jogar contra Billie para aumentar a rivalidade, já que ela era uma das mulheres mais engajadas. Foi assim que, em 20 de setembro de 1973, no Houston Astrodome, Texas, aconteceu o jogo. O evento teve um público de 30 mil pessoas e uma transmissão internacional estimada em cerca de 90 milhões de espectadores em mais de 30 países. 

A partida foi espetacularizada além do tênis. Ficaram marcadas algumas frases de Riggs para a imprensa, nas quais ele afirmava que “ela [Billie Jean King] é uma mulher e elas não têm estabilidade emocional para isso (vencer)” ou que “mulheres pertencem ao quarto e à cozinha”. O tenista entrou em quadra com uma jaqueta cravejada com os dizeres “Sugar Daddy” ( termo para designar homens abastados financeiramente que se envolvem com mulheres mais novas, oferecendo dinheiro em troca de algum tipo de relacionamento romântico). Billie Jean não ficou para trás: ela foi carregada em direção à quadra por homens vestidos com togas e ainda presenteou Riggs com um porco filhote. 

Com o jogo iniciado, Riggs logo percebeu que havia subestimado a tenista, a qual ganhou o primeiro set por 6/4 e dominou o restante da partida, enquanto seu oponente cometeu uma série de erros e sofreu com câimbras. King venceu os dois sets em um 6/4, 6/3 e refutou, assim, as falas machistas anteriores ao jogo. Além da visibilidade, King levou, como premiação, 100 mil dólares — atualmente, algo em torno de 600 mil dólares. 

Mundo do Tênis pós a vitória do sexo feminino 

Passada a Batalha dos Sexos, Riggs voltou para sua aposentadoria, enquanto Billie continuou lutando por igualdade de gênero e pelos direitos LGBTQIA+. Ela teve forte influência na aprovação da lei americana Title IX, que proibiu a discriminação baseada no sexo em programas de educação e em atividades que recebem apoio financeiro federal. Entre os exemplos listados como discriminação na lei está “falhar em fornecer igualdade de oportunidades para atletas baseado em gênero”, o que garante paridade na distribuição de recursos governamentais. 

O National Tennis Center, sede do US Open, foi renomeado para Billie Jean King National Tennis Center em sua homenagem, enquanto a Taça da Federação, principal competição de tênis feminino entre países, passou a se chamar Billie Jean King Cup em 2020. 

Graças ao movimento liderado por King, o prêmio no US Open é o mesmo para homens e mulheres desde 1973 — o Aberto dos Estados Unidos se tornou o primeiro torneio de Grand Slam a obter essa igualdade. 

Na edição de 2023, cuja final foi no início do mês, a vencedora da categoria feminina, Coco Gauff, recebeu um cheque de três milhões de dólares por seu título. Ela se direcionou a King, que estava presente no palco, e a agradeceu: “Obrigada Billie, por lutar por isso“.

Billie Jean King (à direita) premia Coco Gauff (à esquerda) na cerimônia do US Open 2023 [Imagem/ Reprodução: Instagram @usta] 

Foi só em 2007 que o renomado torneio de Wimbledon começou a pagar igualitariamente os campeões independentemente do gênero. A medida se deu como resultado da pressão da estrela do tênis Venus Williams. 

As irmãs Venus e Serena Williams entraram para o conselho da iniciativa Billie Jean King para um pagamento igualitário em 2018, três anos depois de Serena ter levado um prêmio no Western & Southern Open em Ohio com uma diferença monetária de mais de 20 mil dólares para o campeão masculino. 

Em junho de 2023, a WTA anunciou que estava criando uma estratégia visando ao pagamento equalitário. No site da instituição, foi explicado que os aumentos acontecerão de forma progressiva. Em eventos combinados com a Associação de Profissionais de Tênis (ATP), corpo

diretivo dos circuitos profissionais masculinos, a ideia é igualar ao masculino até 2027, enquanto em eventos não combinados espera-se equiparar os valores até 2033. 

O caminho para a igualdade de gênero no esporte ainda é longo, mas muito já foi conquistado. No Brasil, por exemplo, a semifinal feminina de Roland Garros, com a brasileira Bia Haddad Maia, teve a maior audiência da televisão paga desde 2012, superando as partidas masculinas. 

Sophia Santana, jogadora do time universitário de tênis da ECA-USP, conta que seu time tem muitas meninas e acredita que o ambiente universitário é mais acolhedor e diverso em relação ao profissional. Ela destaca a importância de se ter uma referência feminina nacional no esporte como meio de encorajar outras meninas interessadas no tênis a praticá-lo.  “Por ser um esporte com uma realidade elitista e muito masculina, acho que essa representatividade é muito importante para mostrar que a quadra também é nossa”, completa.

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