Por Estela Bughay (estelabhupalo@usp.br)
No último sábado (6), a Feira do Livro recebeu o ativista e pesquisador Luiz Mott e o escritor e professor de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Renan Quinalha para uma conversa sobre a trajetória de Mott na vida acadêmica, na luta por direitos LGBTQIA+ e na pesquisa realizada para seu novo livro Xica Manicongo: primeira transexual do Brasil (Cosac, 2026) que resgata a história da primeira transexual conhecida no Brasil.
O antropólogo contou também sobre os estudos de etno-historiografia que realizou ao longo de sua vida e que resultaram em diversos livros, como Rosa Egipcíaca: Uma santa africana no Brasil (Companhia das Letras, 2023), Bahia: inquisição & sociedade (EDUFBA, 2010) e no mais recente sobre Xica Manicongo. Ele afirma que a pesquisa para esse livro não foi fácil, pois a documentação sobre o assunto era limitada, mas que seguiu o mesmo rigor científico presente em suas outras obras. “O meu rigor como cientista social, antropólogo, étnico. Eu me identifico como etno-historiador, na verdade. Faço antropologia do passado.”, diz.
A palestra fez parte da lista de atividades que aconteceram na Feira do Livro 2026, entre os dias 30 de maio e 07 de junho. O evento, que ocorre anualmente desde 2022, reuniu autores nacionais e internacionais para debaterem sobre suas obras durante a semana ao lado de convidados de diversas áreas culturais.
Do Liceu Coração de Jesus ao Grupo Gay da Bahia: a trajetória de Luiz Mott
Mott estudou no Liceu Coração de Jesus, um colégio tradicional de São Paulo, antes de ingressar no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Ele conta que durante a graduação, nunca ouviu os professores falarem a palavra homossexual na sala de aula: “nenhum falou que a homossexualidade era uma variável, orientação sexual, ou, para os travestis, uma identidade de gênero existente em tantas sociedades, não, nada.”
Esse apagamento da homossexualidade somado à discriminação que sofria fez com que Mott demorasse para aceitar sua própria identidade como pessoa LGBT. Ele conta que casou, teve duas filhas e que só se assumiu gay depois de cinco anos de casamento. Ele, então, deixou Campinas, cidade que chamou de “muito parada, uma cidade muito familista”, em 1979 e mudou-se para Salvador.
Em 1980, após ser agredido por estar com seu companheiro em público, ele fundou o Grupo Gay da Bahia (GGB), que, de acordo com ele, se “tornou o mais atuante do Brasil, que conseguiu vitórias fundamentais para a cidadania LGBT e que continua até hoje atuante, há 46 anos”. A partir daí, Mott passou a estar envolvido com o ativismo na defesa de direitos LGBTQIA+ de forma permanente. Ele celebrou os avanços que ocorreram desde sua época, mas afirmou que é importante que o governo continue sendo pressionado para discutir direitos da comunidade, pois ainda há muito a ser feito.
“Houve vitórias importantes, equiparação da homofobia ao racismo, casamento
igualitário, operações e tratamento hormonal para trans, mas continuamos com a mesma epidemia do ódio.”
Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia
As pesquisas de Luiz Mott
Ao falar sobre seus estudos de sexualidade na universidade, Mott conta que sua família sempre foi muito erudita e que ele seguiu o mesmo caminho. Ao entrar no curso de Ciências Sociais, se interessou por antropologia econômica e estudou, especialmente, sobre mercados e feiras populares.
Mas ele logo passou para a demografia histórica. Para Mott, estudar a população através das estimativas existentes, como registros de óbito, casamento e nascimento é fundamental para saber quantas pessoas nasciam, sua raça e ocupações. Mas para além disso, a pesquisa significou outra coisa para ele. “E, quando eu me assumi, eu vi a necessidade de, para justificar que a homossexualidade não era doença, não era pecado e não era crime, estudar a história da homossexualidade no Brasil e em Portugal, sobretudo, para ter argumentos, para calar a boca dos ignorantes”, relata.
Mott conta que teve a sorte de encontrar documentos que faziam referência a pessoas LGBTs em arquivos de Portugal, Rio de Janeiro, Sergipe, Bahia, entre outros lugares. Foi nesses espaços que ele encontrou registros da história de nomes como Filipa de Souza, primeira lésbica a ser açoitada publicamente em Salvador, Rosa Egipcíaca, escravizada liberta que fundou um centro de recolhimento para ex-prostitutas no Rio de Janeiro e da própria Xica Manicongo, nome que foi atribuído posteriormente a Francisco Manicongo, figura acusada de sodomia e que foi considerada a primeira transexual do Brasil.
Ele revela que, na década de 80, pesquisas sobre sexualidade eram mal vistas pela comunidade acadêmica. Por isso, precisou abordar a homossexualidade de forma indireta em pesquisas sobre crimes sexuais que ocorreram durante a inquisição, para conseguir bolsas para realizar seus estudos em Portugal. Porém Mott considera o apoio que recebeu de diversas associações de ciências humanas brasileiras, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que aprovou uma moção que considerava que estudos sobre sexualidade humana e homossexualidade deveriam ter o mesmo estímulo e aceitação que outros temas, uma vitória em sua trajetória. “Cimentando o caminho para todos esses que fazem pesquisa hoje, do mestrado, do doutorado, do TCC, sobre esses temas.”, diz sobre o apoio da SBPC.
“Eu fico felicíssimo de ver esse progresso de tantas
teses sobre os sodomitas no Brasil colonial,
teses, dissertações, TCCs, artigos, livros, coletâneas, sobre todos esses assuntos.”
Luiz Mott sobre o cenário atual de pesquisas sobre gênero e sexualidade
Xica Manicongo: um registro de poucas linhas que se tornou uma vasta biografia
Mott conta que descobriu Xica Manicongo através de visitas ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Ao ter contato com documentos do Tribunal do Santo Ofício de 1591, ele se deparou com uma descrição de vinte e nove linhas de Francisco Manicongo, acusado do crime de sodomia, e que utilizava trajes com uma fenda na frente, típico dos quimbandas, que, de acordo com Mott, na época eram uma “quadrilha de feiticeiros que se vestem como mulher, que rasgam os pelos e que são respeitadíssimos.”
“Não se sabe com que idade chegou no Brasil, se ele [Francisco Manicongo] já veio escravizado, se ele veio marcado com ferro, circuncidado, qual era o nome, tudo isso eu resgatei.” diz Mott. De acordo com registros verificados por ele, Xica foi traficada do Congo para o Brasil no século XVI e viveu como escravizada em Salvador, onde foi processada pela Inquisição por recusar roupas masculinas e se relacionar com homens.
Mott explica que se referiu a Francisco Manicongo como homossexual devido a forma que as travestis se identificavam na época, e que “Francisca Manicongo” foi batizada pela ativista travesti Majorie Marchi , em 2010. Desde então, Xica Manicongo se tornou um símbolo importante para o movimento trans e foi homenageada pela escola de samba Paraíso do Tuiuti no Carnaval, em 2025.

Luiz Mott ainda incentivou historiadores e historiadoras a continuarem seus estudos na área de gênero e sexualidade, pois há muito material disponível e muito há ser descoberto, de acordo com ele. Ele reforça que é importante que as pesquisas continuem para fortalecer a historiografia da comunidade. “Eu sempre defendi que existe uma genealogia, quase que uma genética que nos liga aos gays, às gays, às travestis, aos nossos antepassados, aos nossos ancestrais”, defende.
[Imagem da capa: Estela Bughay/Acervo Pessoal]
