Jornalismo Júnior

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Dia 08 | A Feira do Livro 2026: do artesanato de rua até os grandes debates sobre a formação de movimentos políticos no Brasil

O oitavo dia do evento trouxe grandes nomes da cena jornalística e literária, como Fernando Morais, Lilian Schwarcz e Rodrigo Vianna, e ganhou vida com o comércio artesanal nas ruas
Estande de camisetas/ecobags nA Feira do Livro 2026, na Praça Charles Miller
Por Catarina Guidotte (catarinaguidotterodrigues@usp.br)

No último sábado (6), as atividades da Feira do Livro 2026 seguiram para seu oitavo e penúltimo dia de programação. A Praça Charles Miller, que recebe a feira, foi preenchida por tendas, palcos, praças, estandes, e pelo comércio ambulante associado ao evento, desde as 10 horas da manhã, e contou com a presença de inúmeros leitores, passeantes e consumidores interessados.

A programação do dia contou com mesas de conversa sobre assuntos diversos como a formação de movimentos revolucionários latino-americanos, a criação de espaços de resistência para a comunidade LGBTQIAPN+, e as contradições e transformações que marcaram o Brasil nas últimas décadas. O evento também teve como destaque  a mesa de conversa com Fernando Morais, autor da biografia do presidente Lula, no Folha na Praça.

A feira também ofertou atividades e programações paralelas, como o futebol dos autores, das 12 às 13 horas; os estandes de comida, bebida e de comércio artesanal; e os tradicionais estandes literários das editoras parceiras do evento, que exibiam os seus principais e mais populares títulos.

A Editora Rocco é detentora dos direitos de publicação da obra de Clarice Lispector no Brasil desde dezembro de 1997 [Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal]

Em entrevista ao Sala33, Teresa Casas, atendente do estande da editora Rocco, analisou o público consumidor e a demanda por diferentes títulos, de diferentes gêneros literários, que são oferecidos pela editora. “Nós temos um público bem dividido, muitos senhores, mas também muitos jovens. A gente tem o pessoal que vêm buscando a literatura mais clássica, como os livros da Clarice [Lispector], e também temos um público mais jovem, adolescente, buscando por Jogos Vorazes e Harry Potter “, conta a atendente.

O filme Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita (The Hunger Games: Sunrise on the Reaping), baseado no livro homônimo, será lançadono Brasil em 19 de novembro de 2026, e a campanha publicitária para o filme atrai muitos fãs da saga para a compra do livro, em capas inéditas   [Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal.]

A Espada de Bolívar: símbolos revolucionários na América Latina

Entre as diferentes mesas que marcaram o penúltimo dia da Feira do Livro 2026, destaca-se a mesa de conversa com Rodrigo Vianna, autor do livro em lançamento “A Espada de Bolívar: Democracia e Revolução na Colômbia (2026). Através de uma pesquisa extensa, o autor apresenta uma análise política, social e histórica dos movimentos de guerrilha latino-americanos, com foco na trajetória do M-19, grupo guerrilheiro com forte apelo simbólico e nacionalista, e a formação política de Gustavo Petro, primeiro presidente de esquerda da história colombiana.

Com mediação de Clarisse Escorel, Ingrid Fagundez e Beth Leites, a mesa abordou os temas centrais do lançamento, como a importância simbólica do roubo da espada de Símon Bolívar, pelo grupo M-19, a fim de colocar a arma “à serviço da revolução”. Através do debate das ideias que moldam o livro, o autor abordou a importância dos símbolos nacionais para movimentos  revolucionários de esquerda na América Latina, incluindo no Brasil.

Através da conversa, Rodrigo e os mediadores discutiram o caminho da esquerda revolucionária na América Latina, com foco na Colômbia e no Brasil. O autor chega a citar o  grupo Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) como um exemplo de símbolos nacionais usados na militância e na luta política.

A conversa também se dedicou a encontrar e analisar os acontecimentos e objetos que apresentariam um caráter simbólico para a identidade brasileira, tal qual a espada de Bolívar apresenta para a identidade colombiana. Entre eles,  a Carta Testamento, e a arma com que Getúlio Vargas se suicidou.

O comércio artesanal pelas ruas da Feira

Para além das mesas de conversa, os palcos e os estandes literários que colorem o evento, a Feira do Livro 2026 também contou com comerciantes independentes nas ruas  — autorizados pela instituição organizadora da feira, a Associação Quatro Cinco Um  — ofertando produtos artesanais e serviços diversos para os visitantes interessados.

Ali, comerciante senegalês, que já mora no Brasil há 12 anos, aproveita o evento para divulgar e vender os produtos de sua marca, Africanaropas — roupas e acessórios artesanais com estampas de origem africana —, que tem como objetivo a celebração da arte e cultura senegalesa, e africana no geral. A marca foi fundada em 2016, e conta com participações na Feira do Livro da USP desde 2018, além da participação integral na Feira do Livro 2026.

A marca Africaropas já tem mais de 10 anos
[Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal]

Fábio Cerio, marceneiro e escultor, também aproveita o evento para exibir seu trabalho. Bolsas, anéis e caixas de jóias esculpidas em madeira são os produtos que o artista vende e deixa à mostra em sua mesa de exposição logo na entrada da feira, próxima ao Espaço Motiva. Destaque pelo seu viés ecológico e pela técnica, o artesão utiliza métodos como a marchetaria, que consiste na incrustação, recorte e encaixe, de madeiras de texturas, vernizes e cores diferentes, com o objetivo de formar mosaicos e desenhos ornamentais.

O artesão utiliza madeira de poda, dessa forma mantendo o viés ecológico e sustentável da marca. Na foto acima, os anéis são feitos de madeira da poda de um ipê  [Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal]

Igor Pinheiro Andrade, comerciante e artesão, também concedeu entrevista ao Sala33, em que comentou sobre o movimento comercial do evento, e sobre sua própria marca. Presente desde o primeiro dia do evento, o comerciante destaca a grande demanda por “lembrancinhas”, com pessoas interessadas na compra de brincos, colares, pulseiras e piercings. 

DiásporaArtes é a marca de Igor, que possui ponto fixo na feira do Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo. O diferencial do artesão está na matéria-prima dos produtos, que ele  traz de sua cidade natal, Alto Floresta, localizada na tríplice fronteira entre os estados do Mato Grosso, Pará e Amazonas. Os materiais incluem madrepérola paraense, dentes de animais como javalis e jacarés,  coletados pela população indigena da região, e penas de pássaros locais, que atraem  muitos passeantes interessados pela feira.

Outros materiais utilizados pelo artesão incluem bronze, prata alemã, couro legítimo e poliéster  [Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal]

Folha na Praça: Lula biografado

Às 18 horas, o Palco da Praça foi tomado por um grande público, atraído pela mesa de conversa da Folha na Praça, mediada por Eduardo Sombini, apresentador do podcast Ilustríssima Conversa, e protagonizando o jornalista, político e escritor Fernando Morais, responsável pela biografia do presidente Luís Inácio Lula da Silva. 

Fernando Morais é reconhecido como um dos jornalistas e biógrafos brasileiros mais produtivos, vencedor de  prêmios nacionais e internacionais por seu trabalho, que inclui a biografia de figuras importantes na história nacional como Olga Benário e Paulo Coelho. Autor de alguns dos maiores sucessos editoriais brasileiros, como o livro-reportagem A Ilha (Companhia das Letras, 2001), que aborda aspectos de Cuba pós-revolução, o escritor voltou-se nos últimos anos para o projeto da biografia de Lula, narrada através de uma trilogia de livros.

Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a liderança do Sindicato dos Metalúrgicos em 1975 e foi central durante as greves gerais que desafiaram a ditadura militar e ajudaram a construir o movimento operário no Brasil [Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal]

A mesa de conversa foi focada no segundo volume da trilogia, lançado em março de 2026, mas também abordou as ideias iniciais para a biografia, assim como a relação próxima de Fernando com Lula. 

Fernando relembrou seus primeiros encontros com Lula, nas Greves do ABC Paulista — lideradas pelo então sindicalista e atual presidente, enquanto o próprio Fernando ainda atuava como deputado estadual pelo MDB — e o desenvolvimento de uma relação que o escritor descreve como fraternal entre os dois. Apesar disso, o autor confessa que originalmente foi contra à criação do Partido dos Trabalhadores (PT), receoso de que a criação de um partido tão alinhado à esquerda poderia atrasar a luta de redemocratização pós ditadura militar.

Entretanto, logo em seguida, Fernando destacou que, para além de não ter atrasado o processo de redemocratização, a criação do PT pode tê-lo até acelerado, e comentou, rindo:  “A história acabou provando que o Lula tinha razão e eu não”.

O escritor diz ter se inspirado no estilo da biografia clássica de John F. Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, pelo historiador Arthur M. Schlesinger Jr, para compor o tom geral adotado na biografia de Lula. A ideia do livro passou mais de 20 anos sendo pensada e desejada por Fernando Morais.

“Um operário, pela primeira vez na história do Brasil, com a história dele — que conta que comeu o seu primeiro pedaço de pão com 7 anos — se tornar presidente é uma ideia muito sedutora para um autor ou escritor, muito sedutora para um biógrafo” , conta ele. Entretanto, Fernando demorou anos para convencer o político a participar e lhe dar permissão para escrever a biografia. As primeiras duas vezes que o escritor propôs o projeto para Lula, em 2002 e em 2006, o atual presidente rejeitou a proposta.

Foi apenas durante o início do governo Dilma, em 2010, que Lula entrou em contato com Fernando, quando esse estava em uma viagem de lazer com sua neta, interessado na produção de um livro que contasse a sua história. Os dois começaram as gravações em 2011, e o escritor relata que um dos melhores lugares para conduzir as entrevistas era nos vôos para os diversos comícios internacionais que o presidente participava, pois dentro dos aviões, Lula não estava cercado por políticos ou jornalistas que demandavam sua atenção.

 O escritor Fernando Morais já foi Secretário de Estado da Cultura (1988 – 1991) e Secretário de Estado da Educação (1991 – 1993) do estado de São Paulo [Imagem: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal]

Os dois visitaram 18 países diferentes juntos, em quatro continentes, lugares onde Lula palestrou em sindicatos e comícios. Apenas pararam quando o atual presidente foi diagnosticado com um tumor na garganta, o que interrompeu a produção da biografia por alguns anos. “Um tumor logo na garganta, o instrumento de trabalho dele, o meio dele”, comentou Fernando, em recordação da importância da fala para o fazer político de Lula.

“Para a sorte do biógrafo, Lula dorme pouco e fala muito.”

Fernando Morais

A mesa também abordou a diferença que existe entre os dois primeiros volumes da biografia de Lula. O primeiro volume foca no presidente em sua trajetória como líder sindicalista, metalúrgico e guerrilheiro: o militante que liderou as greves do ABC Paulista. Já o segundo volume tem como foco Lula em preparação para concorrer em suas primeiras eleições, um pouco mais pragmático e disposto a forjar alianças mais ao centro do que para a esquerda.

O debate passou por questões que marcaram os primeiros dois mandatos de Lula, suas alianças com o centro, a Carta ao Povo Brasileiro e os seus efeitos nas eleições de 2002, assim como a transferência do governo para a ex-presidente Dilma Rousseff, e o nível de influência que Lula teria tido sobre os mandatos de sua sucessora.

Fernando chegou a ser questionado pelo mediador se a proximidade dele com Lula teria interferido no processo de escrever a biografia, ao que o escritor respondeu relembrando um dos maiores dogmas da prática jornalística, que é o distanciamento. “Não se pode amar e nem odiar o biografado”, comentou o autor. Fernando revelou, inclusive, que sabe que publicou algumas partes da história que Lula não aprovou.

O escritor terminou a mesa de conversa comentando suas expectativas pessoais em relação às eleições deste ano. Confiante na vitória do atual presidente, ele afirmou que “esse último mandato será a porta pela qual Lula entrará para a história brasileira”, e que esse será o mandato pelo qual o político será lembrado pelas próximas gerações no Brasil.

*Imagem de capa: Catarina Guidotte/Acervo Pessoal

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