Jornalismo Júnior

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O braço cibernético de Edgar Allan Poe 

Face inédita do autor no Brasil é delineada em coletânea de contos que tem a ciência como ponto de partida
Edgar Allan Poe em preto e branco com a capa de seu livro colorido ao fundo
Por Catarina Martines (catarina.martines@usp.br

Para uma história de ficção ser considerada boa, são muitos os critérios que precisam ser alcançados. Personagens com desenvolvimento, ambientação envolvente e diálogos bem elaborados são alguns deles. Todos compõem a atmosfera capaz de “pescar” quem consome sua narrativa para dentro dela. Há, no entanto, um autor tão habilidoso em mergulhar o leitor em suas histórias, que o real e o inventado se confundiam: Edgar Allan Poe. A força da narrativa do escritor, presente em livro que desconstrói a visão estigmatizada sobre ele, revela-se na sua destreza ao costurar ficção e não-ficção.

Edgar Allan Poe: Contos de ficção científica (Aleph, 2025) é uma obra fundamental para compreender o homem que foi carimbado na história como o mestre do macabro. A coletânea foi organizada por Martha Argel e Humberto Moura Neto, casal de biólogos que tem pé na ficção científica. Os textos de apoio contribuem para o livro ao apresentar um pouco da história, tanto pessoal quanto literária, e desconstruir a imagem enraizada de Poe como autor de textos góticos. 

“Com a ficção científica de Edgar Allan Poe esperamos contribuir para desfazer a visão monocromática com a qual ele ainda é visto, e mostrar alguns outros tons da paleta desse escritor tão cheio de nuances”.

Apresentação, M. A. e H. M. N. Página 12

Faces do macabro

O prefácio da edição, intitulado A invenção de Edgar Allan Poe  é assinado pelo pesquisador e tradutor Bruno Anselmi Matangrano. O texto explora o nascimento, a vida e a morte de Poe. Sua vida boêmia, tão comentada após seu falecimento, foi um dos fatos que contribui para a visão melancólica ao redor da figura do escritor. No entanto, o livro mostra que não é bem assim. 

O escritor norte-americano é comparado a Lord Byron: órfão desde muito cedo, com um possível vício nas bebidas e frequentador assíduo das tavernas da cidade. Parte dessa reputação foi alimentada por relatos exagerados e por textos publicados por desafetos, especialmente o crítico Rufus Griswold, que ajudou a consolidar a figura de um Poe decadente e moralmente degradado. Biografias posteriores, em contrapartida, mostraram um escritor respeitado enquanto editor e crítico, além de um autor meticuloso, que planejava cuidadosamente os efeitos que produzia com cada texto. 

Inspiração para diversos autores de diversos gêneros literários, incluindo ficção científica, a literatura de Poe é composta quase que inteiramente por poemas e contos. Uma das figuras que o defendeu como um dos mais importantes escritores de sua época foi Charles Baudelaire. O poeta francês se identificava com a escrita e o conteúdo da obra do norte-americano. Por essa razão, passou boa parte da vida traduzindo as obras para o francês, o que, posteriormente, serviu como importante base para a tradução em outras línguas. 

Julio Verne foi outro entusiasta do trabalho do norte-americano, o que revela-se pelo fato de que o único texto de crítica literária que ele escreveu foi sobre a obra de Poe. Arthur Conan Doyle e todo o gênero da literatura detetivesca também foi amplamente influenciada por ele. 

Os 14 contos que compõem este livro estão divididos em 5 eixos temáticos, cada um possui um texto explicativo. São eles: As assustadores aventuras marinhas de Poe, Poe e seu interesse pelo mesmerismo, O jornalismo insólito de Poe, A filosofia de Poe em diálogos e O humor satírico de Poe.

Morto e vivo

O livro defende que muitos autores consagrados da ficção científica beberam da fonte de Poe para entender o que almejavam alcançar. Um deles é Julio Verne, considerado o pai do gênero e que cujo cerne das produções – a possibilidade de usar a ciência como explicação de eventos extraordinários presentes nas histórias – advém de Poe.

Para os dias de hoje, deve soar exagerado a crença de que existem buracos que conectam um lado a outro da Terra, mas, para o leitor do século XIX, tal hipótese era plausível. A Teoria da Terra Oca, desenvolvida por Edmond Halley em 1740 e só refutada com a física moderna no século XX, foi explorada primeiro por Poe e posteriormente por Verne. Ambos criaram narrativas em que essa teoria fundamentava os pontos de reviravolta.Edgar Allan Poe constrói A narrativa de Arthur Gordon Pym (Cosac & Naify, 2010) – seu único romance completo – com base nela e Julio Verne fez isso em Viagem ao Centro da Terra

De volta a Poe, a primeira história em que ele aborda a teoria da Terra Oca é no seu primeiro conto publicado. Intitulado Manuscrito encontrado em uma garrafa, o texto foi escrito em 1833, quando ele tinha 24 anos.  O desabafo do narrador, um marinheiro que teve seu navio afundado por uma forte tempestade, ganha um tom mais desesperador a cada frase. Depois de dias à deriva, ele chega a um navio cuja tripulação de fantasmas é alheia à sua presença ali. Essa embarcação, enquanto ruma aos polos do planeta, chega a um redemoinho que a traga para o centro da Terra e dá fim ao relato do personagem. 

O texto leva o leitor para o lado do marinheiro e faz o público se questionar se essa história é, de fato, apenas ficção.  Esse conto foi o escolhido para dar início à primeira parte do livro da Aleph, que conta também com Uma descida no Maelström (1841). A característica de imergir o leitor na narrativa também está presente em contos dos dois próximos eixos temáticos do livro. Em Os fatos no caso de Monsieur Valdemar (1845), uma teoria científica presente no imaginário da época e objeto de fascinação de Poe é explorada: o mesmerismo. Essa pseudociência defendia que todos os seres do mundo são permeados por uma força sobrenatural, dotada de um suposto poder de cura.  

Após contato com o narrador do livro, identificado como P, o Monsieur Valdemar aceita receber o tratamento do mesmerismo nos seus últimos instantes de vida. De acordo com os médicos, o paciente se encontrava em estado terminal. Porém, após receber o tratamento mesmérico, o corpo do doente persiste por mais sete meses em um estado de hipnose. A condição de “semi vida” termina de modo súbito, quando,meses após o procedimento, P retorna e tira Monsieur Valdemar daquele estado em uma das cenas mais grotescas da literatura. O corpo do homem apodrece em segundos e seus restos mortais caem sobre as mãos do cientista. 

Essa imagem em si já é suficiente para a imaginação do leitor, mas o uso de termos técnicos, a semelhança estrutural com um artigo científico e a presença de médicos que atestam o ocorrido, trazem ao relato uma desconfortável sensação de realidade. Poe alude ao mesmerismo em mais dois contos do livro, intitulados Um conto dos Montes Escarpados (1844) e Revelação mesmérica (1844).

“Sinto que cheguei a um ponto da narrativa em que todos os leitores devem estar tomados de total descrença. É meu ofício, entretanto, apenas seguir adiante”. 

Os fatos no caso de Monsieur Valdemar, Página 144

Fim do mundo

A ficção pós-apocalíptica foi outro subgênero que teve Poe como pai. O conto A conversação entre Eiros e Charmion (1839) apresentado em forma de diálogo, é uma reflexão entre dois espíritos que vivenciaram o fim do mundo. O que se destaca é a riqueza dos detalhes da descrição desse cenário. A passagem de um cometa pela Terra resultou na extinção de todo o nitrogênio da atmosfera e ocasionou uma explosão cataclísmica. Nesse texto, Poe racionaliza o apocalipse ao entrelaçar a profecia bíblica e os avanços científicos para explicar o fenômeno.

Algumas das sensações que os personagens descrevem ter tido no conto não passam de ficção, mas alguns dos sintomas decorrentes do aumento do oxigênio são, de fato, verídicos. Uma das inspirações de Poe para esse conto foi a passagem do cometa Halley, que gerou uma série de estudos sobre a constituição desses corpos cósmicos. Além desse conto, no livro outros dois diálogos, O colóquio de Monos e Una (1841) e O poder das palavras (1845).

A coletânea também apresenta alguns contos satíricos de Poe, que tinha fama de ser fervoroso em suas críticas. No conto O homem que foi consumido (1839), o culto a heróis militares e ao progresso tecnológico é satirizado. O personagem principal, o brigadeiro-general Honorário John A. B. C. Smith defende o progresso e a era das máquinas. Uma das sátiras do livro reside no fato de que ele próprio é composto de próteses, tendo seu corpo inteiro sendo um conjunto de partes artificiais, ou seja o grande herói admirado pela sociedade é, literalmente, uma construção artificial.  

Ainda, há no texto uma forte crítica ao extermínio dos povos indígenas –  contra quem o personagem principal nutria grande ódio – e ao racismo da época. Novamente aqui, o artifício de recorrer a tecnologias e a cientistas reais dão ao texto um tom verídico. Esse conto pode ser considerado como o precursor das histórias de robô. O livro possui mais 3 narrativas satíricas: O milésimo segundo conto de Sherazade (1845), Conversa com uma múmia (1845) e Mellonta Tauta216 (1849)

Poe e o jornalismo

Como muitos escritores de sua época, grande parte do sustento de Edgar Allan Poe vinha das suas atividades enquanto jornalista. Muitos dos contos presentes no livro da editora Aleph foram publicados, inicialmente, em jornais. O assombro causado por suas histórias também vinha disso. Misturadas com as notícias, elas eram confundidas com fatos reais. Um dos casos mais marcantes é o conto A descoberta de Von Kempelen (1849).

Nessa história o narrador descreve as ações de Von Kempelen, um alquimista que descobriu como transformar chumbo em ouro, rememorando a ideia da “pedra filosofal”, líquido capaz de transformar qualquer metal em ouro.  Escrito no Período da Corrida do Ouro nos Estados Unidos, o conto gerou grande comoção por apresentar uma descoberta que indicaria a possível desvalorização do outro no mercado mundial. Mesmo este personagem que intitula o conto ser fictício, Poe cita diversos nomes de cientistas reais da época para atestarem aquela descoberta. 

Embora muitas das teorias apresentadas nos contos do autor sejam, hoje, consideradas pseudociências e já tenham sido descredibilizadas, na época, elas eram  estudos vigentes. A utilização da ciência como artifício para as narrativas ficcionais é uma das características principais da ficção científica. 

A possibilidade de construir um ser a partir de cadáveres, de existir uma sociedade totalitária que controla a população com câmeras e robôs que lideram a população soam absurdas, mas é justamente aí que o gênero fisga o leitor: o impossível vira possibilidade ao ser atestado com teorias reais. Uma pulga se instaura atrás da orelha e o pensamento constante de “e se isso fosse verdade?” cativa o leitor e o transporta para dentro das realidades ficcionais. 

Poe foi um dos primeiros a ter essa sacada. Ele começou a trabalhar em uma revista por necessidade financeira e suas histórias foram pensadas também com o propósito de vendas. Ou seja, fisgar o leitor para convencê-lo a continuar consumindo essas histórias era um objetivo. Porém, no prefácio do livro é explicado que, muito embora esse fosse um dos interesses, todas as discussões metafísicas e científicas presentes na sua obra eram bem fundamentadas e seguem influenciando a cultura até o presente.

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