Por Karl Marx Lamerinha (karl_marx@usp.br)
A programação desta terça-feira (8) na 28ª Bienal do Livro de São Paulo destaca a literatura infantil com atividades voltadas à formação de leitores. Entre os destaques está o encontro “Cada história abre um mundo”, com Flávia Lins e Silva, Cristino Wapichana, Otávio Jr. e Henrique Rodrigues. No Espaço Infantil, a programação também reúne contações de histórias, oficinas, encontros com autores e experiências interativas para crianças e famílias.
A presença desse público não fica restrita aos estandes. No Distrito Anhembi, complexo que recebe o evento, atividades de contação de histórias, oficinas, apresentações e experiências artísticas ocupam diferentes espaços da feira. A programação oficial da Bienal inclui um Espaço Infantil dedicado a atividades que aproximam as crianças dos livros, enquanto estandes de editoras e instituições também criam suas próprias ações para atrair a atenção dos pequenos. A edição acontece até 13 de setembro.
Entre os estandes que apostam em livros interativos, sensoriais e educativos, está o da Editora Catapulta. A editora apresenta na Bienal uma seleção de títulos voltados desde a primeira infância até o público infantil e infantojuvenil. Parte das obras trabalha a leitura junto de outras atividades, como encaixar peças, levantar abas, tocar diferentes superfícies ou realizar exercícios.

A proposta aparece nos livros voltados aos primeiros anos de vida, como na obra Ver, Tocar, Sentir: Quem sou eu? (editora, ano de publicação) que apresenta páginas dobráveis e superfícies táteis. A criança é convidada a tocar o material e descobrir os animais representados. Já Meu Alô Sonoro – De Quem São Esses Chapéus? (editora, ano de publicação) utiliza sons para tornar a leitura uma atividade participativa.
A Catapulta também apresenta títulos voltados a crianças maiores. A coleção LEGO Pets de Mesa, por exemplo, combina livro de atividades com peças para montar animais. Alguns volumes também acompanham moldes e adesivos. A edição de O Pequeno Príncipe (editora, ano de lançamento) que utiliza peças móveis para acompanhar a história também é um dos destaques da editora. A criança retira os elementos do próprio livro e os utiliza ao longo das páginas, acompanhando a narrativa enquanto manipula os personagens e objetos. Nesse formato, a leitura acontece junto à interação física com a obra e faz com que a criança participe da construção da história.

Os formatos variam, mas seguem a mesma lógica: o livro deixa de ser apenas um objeto que a criança folheia para se tornar também uma ferramenta de ação. Em alguns casos, a leitura é acompanhada por uma montagem, em outros, por uma descoberta, uma atividade ou um estímulo sensorial.
A estratégia não aparece apenas em um catálogo. A presença da literatura infantil na Bienal também envolve editoras que trabalham com diferentes propostas de formação de leitores. O Grupo Companhia das Letras, por exemplo, participa do evento com selos como Companhia das Letrinhas, Brinque-Book, Pequena Zahar, Escarlate e Canoa!. A programação inclui a participação da autora e ilustradora sul-coreana Suzy Lee, além de discussões relacionadas à educação e à infância.
Nesse caso, a interatividade não está necessariamente concentrada em mecanismos físicos no livro. A editora também leva para o evento discussões sobre como a literatura pode dialogar com questões presentes na vida das crianças. Entre as obras que servem de ponto de partida para a programação de educação está Floresta de perguntas (2026), de André Gravatá e Anna Cunha, publicada pela Companhia das Letrinhas. O livro aborda a relação entre infância e meio ambiente e trata de temas como queimadas, mudanças climáticas e os riscos provocados por esses fenômenos. Ainda, integra a programação da editora na Bienal e será utilizado como ponto de partida para discussões sobre emergência climática
Outro exemplo está na programação da Editora Mostarda. A editora participa da Bienal com lançamentos, encontros com autores e atividades de contação de histórias voltadas principalmente à literatura infantil, à representatividade e à inclusão. Entre os lançamentos está O Livro da Democracia, que foi escrito pela ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia em parceria com a jornalista Mariana Oliveira desde 2006 e é, voltado para crianças de 8 a 11 anos.
A obra aborda temas como democracia, voto e os Três Poderes por meio de perguntas, curiosidades e elementos visuais. Ele foi desenvolvido através de oficinas com crianças, que ajudaram a orientar linguagem e ilustrações, e possui uma simulação de votação em urna eletrônica associada ao projeto.
A interação com o público infantil também aparece fora dos livros. No estande da Prefeitura de São Paulo, a programação inclui oficinas, contações de histórias, intervenções artísticas e apresentações. Uma delas é o teatro aberto que recebe crianças e famílias durante a Bienal. A atividade acontece em meio à circulação de visitantes pelo pavilhão e transforma o espaço do estande em uma área de encontro com o público infantil.

A programação da Prefeitura também inclui atividades como “Uma história conta outra”, em que crianças transformam elementos do cotidiano em produções artísticas, e o Clubinho do Livro, organizado pela Cia Caju Azul, que reúne livros, histórias e brincadeiras. Há ainda apresentações e contações que utilizam diferentes linguagens para aproximar as crianças da literatura.
No espaço da Prefeitura, a literatura aparece, portanto, fora do formato tradicional de uma criança sentada apenas para ouvir ou ler uma história. Ela pode ser acompanhada por desenho, brincadeira, teatro ou produção manual. A experiência também acontece coletivamente, com crianças acompanhadas de familiares e outras pessoas do público.
Esse tipo de atividade se repete em outros espaços. O estande do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), dedicado ao Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), possui uma arquibancada para atividades com o público e uma programação diária de contação de histórias. O local também recebe conversas com autores de obras didáticas e de literatura infantil.
A programação mostra que a presença infantil na Bienal não se limita à compra de livros. O evento também cria situações em que a criança participa diretamente da experiência.

A diferença entre as propostas ajuda a entender como o mercado trabalha para formar leitores. Em um estande, a criança pode encontrar um livro com peças de encaixe, em outro, pode participar de uma oficina e, mais adiante, uma contação de histórias transforma o espaço em uma pequena plateia. A literatura infantil ocupa diferentes pontos da feira e assume formatos distintos conforme a idade e o objetivo de cada atividade.
Com s livros produzidos para que a criança toque, monte, abra, responda, escute ou escreva, existem editoras que apostam nos livros sensoriais para bebês.A escolha por esses formatos também acompanha uma mudança na maneira como as crianças entram em contato com diferentes conteúdos. O livro concorre hoje com outras formas de entretenimento e informação, muitas delas presentes em dispositivos digitais. As editoras, porém, não apresentam uma única resposta para essa questão. Algumas investem na materialidade do livro. Outras trabalham temas que dialogam com o cotidiano infantil. Há ainda quem aposte em atividades presenciais para fazer da leitura uma experiência coletiva.

A própria organização da feira dedica um espaço específico ao público infantil e distribui atividades para crianças em diferentes áreas. A proposta acompanha a característica geral dessa edição, que reúne leitores, autores, educadores e famílias em uma programação que vai além da compra de livros.
Mais do que apresentar um único modelo de leitura, a Bienal expõe diferentes maneiras de aproximar as crianças dos livros. Há quem aposte na textura de uma página, nas peças de um brinquedo, no som de uma história ou na participação em uma oficina. Em comum, essas experiências colocam a criança em contato direto com o livro e com outras pessoas.
É nesse espaço entre o livro e a atividade que a literatura infantil aparece durante a feira. A leitura deixa de ser apenas uma atividade individual e passa a fazer parte da programação que as crianças encontram enquanto percorrem a Bienal que segue com sua programação até o dia 13 de setembro.
*Imagem: Reprodução/|Bienal do Livro SP
