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Paterson: a jornada de um homem comum

Toda história é uma jornada. Essa é uma das leis fundamentais e mais antigas de todas as narrativas. Em linhas gerais, um protagonista é aquele personagem que, em determinado momento de sua história, se vê confrontado com a necessidade de extrapolar as fronteiras de seu mundo e partir em busca de alguma coisa, sendo necessário …

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Paterson 1

Toda história é uma jornada. Essa é uma das leis fundamentais e mais antigas de todas as narrativas. Em linhas gerais, um protagonista é aquele personagem que, em determinado momento de sua história, se vê confrontado com a necessidade de extrapolar as fronteiras de seu mundo e partir em busca de alguma coisa, sendo necessário que se transforme nesse processo. As grandes jornadas não precisam acontecer entre mundos, lugares muito distintos uns dos outros, como planetas, desertos e montanhas. Muitas vezes as maiores jornadas, as transformações mais difíceis são justamente aquelas que se passam no mundo interno das personagens. Paterson (2016) é um filme que aparenta desafiar todos os conceitos pré-estabelecidos de uma narrativa. O novo filme de Jim Jarmusch não se preocupa com nenhuma grande jornada. O personagem título do filme não se vê imbuído de uma grande tarefa, muito menos confrontado por demônios do passado. Não tem grandes ambições a não ser viver sua vida, sua rotina.

Interpretado por Adam Driver, ator que a cada novo trabalho se mostra uma das figuras mais promissoras do cinema norte-americano, o filme é uma interessante crônica sobre a vida de um homem comum. Paterson é um motorista de ônibus que vive na também chamada cidade de Paterson, com sua esposa Laura – interpretada pela excelente Golshifteh Farahani –  e seu buldogue Marvin. Todos os dias, durante os sete dias abordados pelo filme, realiza pequenos rituais: acorda, toma seu café da manhã, dirige seu ônibus enquanto observa a cidade e se põe a escutar a conversa de passageiros, volta para casa, passeia com o cachorro, vai para um bar e volta para a casa; os mesmos gestos, sempre. Porém, ao contrário de uma visão simplificada do que o filme pode aparentar, ele não é monótono ou desprovido de atrativos que o tornem singular. O ponto mais forte de todo o filme está justamente na narrativa visual estabelecida entre o personagem e seu mundo. Paterson, além de motorista, é um poeta amador – influenciado pelas poesias do escritor americano William Carlo Williams – que compõe sobretudo, poesias que fazem ode as pequenas coisas da vida cotidiana, como uma caixa de fósforos, por exemplo. E o filme, por sua vez, é todo uma ode à simplicidade da vida, fazendo pequenos elementos – como o nome de um ônibus ser o mesmo do personagem, um retrato em um criado mudo levantar muitas teorias sobre o passado do protagonista – ecoarem e rimarem com a narrativa apresentada.

Segundo o próprio diretor e roteirista do filme, Jim Jarmusch, Paterson foi concebido como uma forma de “antídoto” ao excesso de carga dramática e narrativas grandiloquentes do cinema convencional. É um filme de eixos narrativos contidos e circulares, que se repetem ao longo da rotina do personagem, de uma segunda-feira a outra, sempre apresentando algumas variações. Um dos melhores eixos narrativos do filme é quando Paterson, de volta do trabalho, interage com sua esposa, uma mulher idealista, espalhafatosa – exatamente o oposto do marido – cheia de sonhos grandiloquentes e até mesmo irreais, ou quando, no bar, todas as noites após o passeio com seu cachorro, conversa com seu amigo Doc (Barry Hanley) enquanto acompanha os infortúnios amorosos de um casal.

Paterson, mesmo se entendido pela ótica de um contraponto à dramaturgia tradicional Hollywoodiana, ainda peca pelo excesso. É muito longo (120 minutos) para o que o filme se põe a apresentar. As mesmas ações, sete vezes, com algumas alterações pontuais, podem gerar um cansaço mental e um certo desinteresse no espectador, exatamente pela ausência de um gatilho dramatúrgico que o mantenha preso ao filme. Isso não tira, de forma alguma, todos os pontos positivos alcançados pela obra, que consegue ser interessante, mesmo trabalhando com material tão difícil – o que é por si só digno de ser louvado. Mesmo não sendo papel da crítica sugerir o que um realizador deve ou não fazer em seu trabalho, talvez, se Paterson fosse um pouco mais limpo de suas gorduras e 30 minutos mais curto, teríamos uma obra muito mais prazerosa de ser vista, ao menos mais simples, assim como a poesia que o filme tanto preza.

 

Trailer legendado:

https://www.youtube.com/watch?v=4U-mELmrR6M

por Pedro Graminha
Graminhaph@gmail.com

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