Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Os muros de “Os despossuídos”

Por Maria Eduarda Nogueira mariaeduardanogueira@usp.br Ursula K. Le Guin foi considerada pelo The New York Times como a maior escritora de ficção científica enquanto estava viva. Em entrevista para o mesmo jornal, porém, ela diz não querer ser reduzida ao título de escritora de sci-fi (abreviação de “science fiction”). Le Guin faleceu no começo do …

Os muros de “Os despossuídos” Leia mais »

Por Maria Eduarda Nogueira
mariaeduardanogueira@usp.br

Imagem: Yasmin Oliveira/ Audiovisual – Jornalismo Júnior

Ursula K. Le Guin foi considerada pelo The New York Times como a maior escritora de ficção científica enquanto estava viva. Em entrevista para o mesmo jornal, porém, ela diz não querer ser reduzida ao título de escritora de sci-fi (abreviação de “science fiction”). Le Guin faleceu no começo do ano, mas deixou para trás um legado incrível de livros que vão além de mundos imaginados e realidades paralelas. Um dos aspectos mais marcantes de sua obra é justamente a crítica social, aproximando o sci-fi da sociedade.

Em “Os despossuídos” (Aleph, 2017), dois mundos completamente diferentes mantêm uma relação um tanto quanto hostil dada à diferença de suas configurações socioeconômicas. Enquanto o planeta Urras coexiste com a desigualdade e as relações baseadas no capital, Anarres é uma ex-colônia anarquista baseada nos ideais comunitários de Odo (líder anarquista). Até mesmo o uso de pronomes possessivos e títulos como “doutor” e “senhor” são dispensáveis para aqueles que estão acostumados a partilhar tudo de forma igualitária.

É nesse contexto que o brilhante físico Shevek surge. Habitante de Anarres, extremamente reservado e ávido por conhecimento, o cientista é enviado a Urras com o objetivo de acabar com a hostilidade que permeia os dois planetas-irmãos. Shevek deseja quebrar os “muros ideológicos” que dividem os urrastis e os anarrestis, mas a realidade com a qual se depara é bem mais complexa do que aparenta. Afinal, as coisas de longe são sempre mais belas.

“— Quando se vê uma coisa por inteiro, a distância ‒ ele disse ‒, ela sempre parece bonita. Planetas, vidas… Mas, de perto, um mundo é feito todo de terra e pedras. E, dia após dia, a vida é um trabalho árduo, você se cansa, perde a perspectiva. Você precisa da distância, do intervalo. O jeito de ver como a terra é bela é vê-la como a lua. O jeito de ver como a vida é vê-la da perspectiva da morte.”

O entendimento do título é essencial para a compreensão da obra como um todo. Afinal, ele sintetiza a diferença primordial entre os dois planetas-irmãos. Embora o real conceito de “despossuídos” só possa ser compreendido com a leitura completa do livro, uma passagem é marcante nesse sentido ‒ e, como é característica dos clássicos, pode ser aplicada aos dias de hoje:

“Porque nossos homens e mulheres são livres… por não possuírem nada, são livres. E vocês, os possuidores, são possuídos. Vocês estão todos presos. Cada um sozinho, solitário, com o monte de coisas que possui. Vocês vivem na prisão, morrem na prisão. É tudo que consigo ver nos seus olhos… o muro, o muro!”

O livro tem uma divisão de capítulos interessante: os ímpares são dedicados à vivência de Shevek em Urras; os pares, em Anarres. Com isso, a autora consegue oferecer ao leitor um perfil extremamente detalhado da personalidade e formação de seu personagem principal. O físico vive um conflito existencial constante por não se sentir pertencente ao lugar onde vive. Mesmo em sua relação romântica com Takver ‒ bióloga marinha que torna-se sua parceira ‒, é como se ele estivesse constantemente deslocado.

A obra, contudo, peca por não conseguir criar empatia entre o leitor e o personagem principal. Embora a construção de Shevek tenha sido impecável, o físico não cativa. Em outros livros, tal característica pode ser dispensável. Em “Os despossuídos”, no entanto, um livro que trata de ideologia e condições sociais, é essencial que o público se identifique um protagonista. Seja para concordar com ele, ou não.

Quando o cientista chega em Urras, o choque de realidade é ainda maior. Não era um planeta horrendo. Muito pelo contrário. A tecnologia avançada, as árvores e os animais se diferenciavam muito das paisagens desérticas de Anarres, que infelizmente lidava com péssimas condições ambientais e reduzida fauna e flora.

O pensamento, porém, é extremamente diferente. Logo no primeiro contato de Shevek com os urrastis, Le Guin deixa clara sua intenção de crítica social. Os habitantes do outro planeta não reconheciam mulher e homem como seres iguais, o que pode ser observado na passagem a seguir:

“— Não há mesmo nenhuma distinção entre o trabalho do homem e o trabalho da mulher?

— Bem, não, isso parece uma base muito mecânica para a divisão do trabalho, não é? Uma pessoa escolhe o trabalho de acordo com seu interesse, seu talento, sua força… O que o sexo tem a ver com isso?

[…]

— Mas a perda de… de toda a feminilidade… de delicadeza… e a perda da dignidade masculina… Certamente o senhor não pode fingir, no seu trabalho, que as mulheres sejam iguais ao senhor? Em física, matemática, no intelecto? O senhor não pode fingir estar sempre se rebaixando ao nível delas!”

O encanto com Urras, no entanto, é inversamente proporcional ao tempo em que o físico passa no território. Onde estava a desigualdade social que tanto comentavam em Anarres? Onde estavam os pobres? Aos poucos, Shevek enxerga que foi inserido numa bolha. Por estar hospedado numa universidade e conviver apenas com intelectuais, não tinha contato com a maior parte da população, que tinha condições bem diferentes. Esse processo de percepção da realidade é construído de maneira brilhante, sendo o momento em que o leitor mais se aproxima do protagonista.

A primeira edição da obra foi publicada em 1974, durante a Guerra Fria, sendo profundamente influenciada por esse contexto geopolítico. Em analogia, Urras representa o capitalismo e Anarres, o comunismo ideal ‒ embora a sociedade se denomine anarquista, suas engrenagens baseadas na percepção de comunidade se aproximam muito mais daquele primeiro sistema.

Além disso, o livro também lida com duas noções opostas: a de individual e a de coletivo. Enquanto os anarrestis dependem do altruísmo e do ideal de coletivo para sobreviver, os urrastis se baseiam em seus interesses pessoais ‒ o que explica a extrema desigualdade.

“Tinha visto com frequência essa ansiedade nos rostos dos urrastis, e isso o intrigava. Seria porque, por mais dinheiro que tivessem, sempre se preocupavam em ganhar mais, a fim de não morrerem pobres? Seria culpa porque, por menos dinheiro que tivessem, sempre havia alguém mais pobre?”

A ideia do muro explorada em todo o livro se referia, literalmente, ao muro físico que dividia a cidade de Berlim. Trazendo para o contexto atual, essas barreiras não se apresentam de forma física. Em um momento que Shevek está na universidade e fica sabendo do sistema de admissão na instituição, pode-se perceber com clareza o intuito de Ursula ao criticar tais divisões, que se apresentam das mais variadas formas ‒ nos âmbitos sociais, econômicos, políticos…

“— Vocês colocam mais uma tranca na porta e chamam isso de democracia”

Embora seja fácil (e justo) criticar um mundo capitalista em que a desigualdade social é regra, a autora toma cuidado em não supervalorizar Anarres. A ex-colônia não é vista como um paraíso. Na verdade, a própria vontade de Shevek de ir à Urras representa uma das falhas de seu planeta natal, que não é capaz de produzir ciência e tecnologia o suficiente, dado os problemas de abastecimento e também ambientais que assolam os anarrestis.

Em certo momento, a própria concepção de “coletivo”, idealizado pela líder Odo, é criticada pelos habitantes de Anarres. Há, de certo modo, pressão social em se sacrificar em prol de outras pessoas. Isso é bem explícito no momento em que a parceira romântica de Shevek, Takver, vai para o outro lado do planeta a fim de ajudar no momento da crise causada pela seca.

Um aspecto decepcionante do livro é o final inconclusivo. O leitor pode apenas imaginar o que acontecerá em seguida, em ambos os mundos, mas não recebe nenhuma pista, pois tudo parece voltar ao que era antes. Talvez esse fosse o objetivo da autora ‒ expôr a ciclicidade dos acontecimentos ‒ mas certamente é decepcionante para o leitor que viveu a experiência de um livro com teor revolucionário.

Apesar de ter sido escrita na década de 1970, a obra de Ursula K. Le Guin é extremamente atual, principalmente no ponto em que tange às diferenças sociais e econômicas que parecem reger todas as relações contemporâneas. Ao compreender a dinâmica entre Urras e Anarres, é possível entender até que ponto os ideais de “individual” e “coletivo” podem mudar uma sociedade. Para melhor. Ou pior.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima