Por Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br)
Em janeiro de 1959, o Movimento 26 de Julho ー uma força guerrilheira coordenada por Fidel Castro ー derrubou o governo autoritário de Fulgêncio Batista durante o processo que ficou conhecido como Revolução Cubana. Ao criar medidas para diminuir a influência estadunidense sobre o território de Cuba e, posteriormente, se alinhar à União Soviética, o novo regime se tornou mais um precedente para diversas movimentações globais no contexto da Guerra Fria.

O líder da Revolução Cubana assumiu o cargo de primeiro-ministro do país durante o período entre 1959 e 1976, e permaneceu no poder como presidente entre 1976 e 2008 [Imagem: Reprodução/PICRYL]
Em meio à turbulência política da época, porém, uma mudança estrutural imposta pelo Movimento se destacou em outro cenário: o aumento da mobilização de políticas públicas para incentivar a prática de esportes transformou a ilha em uma potência na área, e garantiu visibilidade em competições internacionais. Por outro lado, uma dessas políticas ー a proibição da atuação de forma profissional no esporte ー gerou uma dualidade de pensamentos entre os atletas cubanos, que precisaram escolher entre abandonar a profissionalização ou desertar do país.
O contexto social
Antes de assumir o poder, o Movimento 26 de julho não contava com nenhum programa de políticas públicas voltadas para o cenário esportivo. Logo após a Revolução, porém, essa realidade mudou: o incentivo em massa à prática de esportes passou a ser visto como um método para transformar determinados comportamentos e hábitos sociais do povo cubano, além de servir como um meio de propaganda do regime.
A vitória dos guerrilheiros aconteceu em um cenário onde a prática esportiva encontrava-se enfraquecida. Em um artigo que estuda as primeiras políticas desenvolvidas pelo Movimento na área, Renato Valentin, Doutor em História pela UNESP, aponta que o antigo governo de Fulgêncio Batista “destinou ao esporte apenas 1,75 milhões de pesos durante os anos de 1957 e 1958”. Além disso, o ex-presidente também negou fundos para o financiamento da participação da delegação cubana nos Jogos Pan-americanos de 1955.

Batista passou a liderar um governo ditatorial em Cuba a partir de 1952, que ficou marcado pela violência e pela censura [Imagem: Reprodução/LOC´s Public Domain Image Collections]
Haviam apenas 30 instalações esportivas públicas no início de 1959, e a maioria delas estava concentrada na capital do país, Havana. Já as instalações privadas eram reservadas às elites e inacessíveis a uma grande parcela da população, além de manterem políticas de segregação racial em seu interior.
Os hábitos de lazer populares em Cuba estavam condicionados majoritariamente aos jogos praticados em cassinos, às brigas de galo, às apostas em dinheiro feitas em lutas de boxe e às corridas de cachorros e cavalos. De acordo com o artigo de Renato, essas práticas eram vistas pelo Movimento como um conjunto de vícios e maus costumes que deveriam ser modificados por meio da ampliação do interesse na prática de esportes.
A organização política do esporte
Ainda em janeiro de 1959, a criação da Dirección General de Deportes (DGD) – órgão público voltado para a administração e o desenvolvimento do esporte e do lazer no país – marcou o início do envolvimento da nova gestão governamental no ramo. Em entrevista ao Arquibancada, Renato Valentin afirma que, ao que tudo indica, a gestão esportiva de Cuba ficou sob a responsabilidade do Movimento 26 de Julho por iniciativa do próprio Fidel Castro, que havia sido atleta em sua juventude e possuía gosto pela área.
Um dos indicativos da influência que Castro assumiu sobre as questões relacionadas ao esporte – antes mesmo de tomar posse como primeiro-ministro – foi o seu papel na nomeação do capitão Felipe Guerra Matos, um veterano da guerrilha de Sierra Maestra, para o cargo de diretor-geral de esportes. Apesar de não ter conhecimento técnico no ramo esportivo, Matos ficou à frente da função por um período de dois anos.
A princípio, a função da DGD consistia em gerenciar as 30 instalações públicas e os equipamentos esportivos que pertenciam ao Estado. Porém, conforme o governo passou a expropriar bens julgados como malversados – ou seja, utilizados de maneira indevida ou ilícita – durante o governo de Fulgêncio Batista, muitos espaços esportivos e recreativos deixaram de ser propriedade privada e se tornaram uma responsabilidade estatal, o que criou um desafio operacional para a Dirección.
Essa situação ganhou um agravante com a alta taxa de evasão de banqueiros, empresários e profissionais liberais para países do exterior entre os anos de 1959 e 1961. Alguns deles eram donos, sócios ou mantenedores de instalações esportivas privadas, e esses locais também foram estatizados quando os antigos responsáveis deixaram o solo cubano.
Uma das medidas aplicadas a alguns espaços recreativos expropriados dos emigrantes foi a sua transformação em Círculos Sociales Obreros (CSOs) ー em português, Círculos Sociais dos Trabalhadores ー, clubes administrados por sindicatos e acessíveis ao grande público, sem distinção racial. Com a promulgação da Ley Organica del Ministerio del Trabajo, em 1960, os CSOs foram definidos como ferramentas para a criação de vínculos entre os trabalhadores e seus familiares em um ambiente externo, além de gerar um desenvolvimento esportivo e cultural da população.

O Havana Yacht Club é um dos exemplos de clubes privados expropriados pelo Movimento. O local, que fica na capital cubana, se tornou o CSO Cubacanán [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Essa definição – somada ao aumento das responsabilidades operacionais causadas pelo crescimento do número de CSOs – responsabilizou o Ministério do Trabalho pela administração desses centros esportivos. Com pouca margem de ação, a DGD foi dissolvida em fevereiro de 1961 e deu lugar ao Instituto Nacional de Deportes, Educación Física y Recreación (INDER), uma espécie de ministério cubano dos esportes que existe até os dias de hoje. José Llanusa Gobel, antigo jogador e, posteriormente, técnico da seleção cubana de basquete, foi nomeado para o cargo de diretor-geral do INDER.
A ascensão
A criação do INDER possibilitou uma maior atuação do Estado no âmbito esportivo ao fundar os meios jurídicos e institucionais necessários para tal. A partir de 1961, medidas em larga escala passaram a ser desenvolvidas para promover um maior envolvimento da população cubana na área, como a construção de espaços e equipamentos recreativos em áreas rurais e montanhosas e a criação do programa Listos para Vencer, que consistia na aplicação massiva de testes físicos com o objetivo de incentivar e descobrir talentos no esporte.
Porém, apesar da importância dessas medidas, a aplicação do chamado Plan INDER-MINED foi uma das maiores responsáveis pela ascensão de Cuba no ramo. O plano tinha como objetivo conectar a educação ao esporte por meio de iniciativas como a introdução da educação física em todos os níveis do sistema educacional, a formação de professores de educação física e treinadores, a organização de competições esportivas estudantis e a criação de escolas especializadas na prática de esportes.

Atualmente sob a gestão de Raúl Fornés, o INDER mantém a parceria com o Ministério da Educação (MINED). Porém, a diminuição dos recursos empregados resulta na baixa capacidade de manutenção das antigas infraestruturas esportivas [Imagem: Reprodução/X: @RaulFornes]
Um mês após o estabelecimento do embargo sobre Cuba pelos Estados Unidos e seus aliados, o país caribenho, já sob o título de Estado socialista, firmou um convênio com a União Soviética. No contexto da Guerra Fria, o investimento da URSS em território cubano tinha como objetivo promover o crescimento e a propaganda do comunismo em diversos setores. Segundo Renato, o acordo envolvia o intercâmbio de recursos humanos e materiais, o que possibilitou o envio de treinadores esportivos soviéticos para Cuba e a ida de cubanos para o leste europeu com o objetivo de estudar treinamento físico.

Além de colaborar para uma evolução ainda maior no cenário esportivo, a parceria entre os países possibilitou a recuperação e o crescimento da economia cubana, altamente fragilizada após os desgastes com os Estados Unidos [Imagem: Reprodução/Flickr: Tomas Paoliello]
O historiador afirma que essas políticas “contribuíram decisivamente para a formação de gerações de atletas e equipes esportivas de excelência, em linha com os países mais destacados nas principais competições internacionais”. Com uma participação inexpressiva em competições esportivas até a vitória da Revolução e apenas 12 medalhas conquistadas até 1959, Cuba teve sua ascensão no ramo a partir dos Jogos Olímpicos de 1972, quando acumulou 8 medalhas e finalizou a temporada na 14° posição da colocação geral.
Nos Jogos seguintes, em 1976, o país alcançou a 8° posição na colocação e conquistou 13 medalhas, 8 delas no boxe. Na edição de 1980, marcada pela ausência dos países capitalistas devido a um boicote, Cuba obteve a sua melhor classificação na história: o quarto lugar no ranking geral. Mas foi em 1992, após ficar de fora das Olimpíadas por duas edições consecutivas, que a nação caribenha viu o seu desempenho esportivo chegar ao ápice ao conquistar 31 medalhas. Atualmente, Cuba conta com um total de 244 medalhas e é o 18° país mais vitorioso nos Jogos.
A postagem do JIT ー uma publicação informativa do INDER ー comemora o aniversário de 30 anos do excelente desempenho esportivo do país nas Olimpíadas de Barcelona e exibe uma imagem de Castro na ocasião, demonstrando a íntima relação entre o esporte e o governo.
Os Jogos Pan-americanos de 1991, sediados em Havana, também representaram um marco para a força esportiva dos atletas da ilha, que conquistaram um total de 265 pódios competindo em casa. Por uma diferença de 140 a 130 medalhas de ouro, a delegação cubana assumiu o primeiro lugar no quadro de medalhas e desbancou os Estados Unidos pela primeira vez na história do evento.
Os impactos da proibição da profissionalização esportiva
Paralelamente ao desenvolvimento das medidas que levaram o desempenho esportivo de Cuba ao ápice, uma política governamental instaurada no início da década de 60 foi responsável por intensificar a evasão de atletas da ilha. Pouco tempo após a consolidação do INDER, o esporte profissional foi abolido e os atletas do país passaram a atuar apenas de forma amadora.
Em seu artigo “As políticas públicas de esporte e a transição para o socialismo em Cuba”, Renato aponta que uma das motivações para essa proibição foi a escassez de mão-de-obra que o país passou a enfrentar, conforme o embargo econômico e as ameaças de uma guerra contra os Estados Unidos provocaram a falta de recursos básicos no país. Imposta antes do início do convênio com a União Soviética, a medida impedia que os cidadãos vivessem exclusivamente do esporte devido à intensa necessidade de ampliar as atividades produtivas.
A proibição da profissionalização do esporte colocou os atletas a serviço do Estado ao proibir a assinatura de contratos com clubes do exterior e controlar as participações dos esportistas em competições internacionais, que deveriam ter como objetivo representar o país e os ideais do regime ao invés da obtenção de ganho financeiro. A imposição foi algo que ocorreu progressivamente até se consumar em março de 1962, com a promulgação da resolução 83-A. Renato explica que uma série de medidas legais foram registradas oficialmente ao longo de pouco mais de um ano, até o anúncio da proibição:
- Março de 1961: As apresentações de luta livre foram proibidas sob a alegação de que se tratavam de um “nefasto espetáculo profissional” que “deforma a verdade” e “não contribui para o desenvolvimento esportivo” do povo.
- Setembro de 1961: As licenças comerciais e empresariais no âmbito do boxe foram proibidas, com a justificativa de que a atividade consistia em “lucrar à custa de trabalho, suor e sangue de outros semelhantes”.
- Janeiro de 1962: O boxe profissional foi proibido, sob o argumento de que sua prática levava o lutador à extenuação e trazia perigo à sua própria vida.
- Setembro de 1962: O Frontón Jai-Alai, maior ambiente de apostas esportivas e recreativas de Havana, foi fechado por lei sob a dupla alegação de que “o vício no jogo era algo incompatível com o socialismo e que o governo revolucionário não iria tirar proveito da aposta esportiva e recreativa para fins de arrecadação fiscal”.
- Março de 1962: O esporte profissional foi definitivamente proibido em todas as modalidades e por todo o território nacional, sob a justificativa de que se tratava de uma atividade que “fomenta a exploração do homem pelo homem”, contrária ao “desenvolvimento físico e moral dos participantes”
Pouco tempo após a proibição da prática esportiva profissional, o Ministério do Trabalho sancionou a licença esportiva, que dava aos atletas o direito de se ausentar de seus empregos ー sem prejuízo salarial ー para comparecer a treinos e competições, com a apresentação de um certificado comprobatório expedido pelo INDER. A medida foi o passo final que marcou a obrigatoriedade do amadorismo aos esportistas.
“Houve uma dualidade de reações frente ao processo de abolição do profissionalismo esportivo em Cuba: enquanto alguns atletas optaram pela migração para os Estados Unidos (ou, em menor escala, para Porto Rico), outros optaram por permanecer no país e até mesmo colaborar com o governo revolucionário”, afirma o pesquisador. Isso ocasionou uma divisão entre os atletas, já que alguns decidiram continuar representando o país internacionalmente e outros utilizaram as oportunidades de competir no exterior para desertar e não retornar à ilha.

O sentimento de patriotismo e o orgulho nacional gerado pelas vitórias no exterior foram a razão para que vários esportistas permanecessem fiéis à atuação em Cuba, como demonstra o caso de Teófilo Stevenson [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Um dos maiores destaques entre os atletas que escolheram permanecer em Cuba foi Teófilo Stevenson, um dos três únicos boxeadores a acumular três ouros olímpicos. Como um grande apoiador do regime socialista, Stevenson lutou em campeonatos amadores ao longo de toda a carreira, apesar de ter recebido diversas propostas e ofertas milionárias para desertar e competir profissionalmente nos Estados Unidos.
“O que são um milhão de dólares em comparação ao amor de oito milhões de cubanos?”
Teófilo Stevenson
A decadência
No início da década de 1990, o comunismo cubano entrou em declínio durante o chamado “Período Especial”. A queda do bloco socialista e a súbita ausência de aliados internacionais causaram um grande impacto negativo na economia local, e a população passou a enfrentar uma escassez de produtos vitais que não fazia parte da realidade da ilha desde o início da parceria com a URSS. Essas dificuldades obrigaram o governo a reduzir o orçamento público em diferentes setores, incluindo o esportivo, o que causou uma decadência gradual na força do país na área.
“Com o fim do bloco socialista, Cuba perdeu seus principais parceiros e passou a sofrer os efeitos destrutivos do isolamento internacional do país como, por exemplo, a falta de acesso à tecnologia esportiva de ponta, produzida no exterior”, afirma o historiador. O fim da União Soviética em 1991 também interrompeu o financiamento e o convênio que incentivou a atuação de treinadores e técnicos do Leste europeu no Caribe.
“Em 2013, o governo cubano deu início à abertura do campo esportivo para o investimento de capital privado, inclusive o capital estrangeiro, representado por grandes empresas e acionistas que investem e lucram no esporte mundo afora.”, comenta o pesquisador. Desde então, os atletas cubanos podem firmar contratos com clubes e empresas do exterior, sem deixar de representar o país e sem ter que migrar clandestinamente para atuar profissionalmente.
Porém, apesar da flexibilização, as deserções de atletas ainda são uma realidade recorrente e afetam significativamente o desempenho esportivo de Cuba. Em uma entrevista concedida ao programa da TV estatal “Mesa Redonda” em 2023, o diretor de alta performance do INDER, José Antonio Miranda, afirmou que 187 atletas quebraram o seu vínculo com a ilha entre 2022 e setembro de 2023. Segundo ele, o persistente bloqueio norte-americano e os impactos da crise econômica foram os maiores causadores das deserções.

Nas Olimpíadas de 2024, o cubano Jordan Díaz competiu pela delegação da Espanha após desertar de Cuba em 2021. O atleta conquistou a medalha de ouro e subiu no pódio ao lado de outros dois esportistas de origem cubana, que também deixaram o Caribe e passaram a representar países europeus [Imagem: Reprodução/X: @Olympics]
Ainda hoje, a crise econômica ー somada à falta de liberdade e oportunidade para o crescimento profissional e financeiro na ilha ー são motivos para frequentes evasões em massa. O caso mais recente ocorreu durante os Jogos Pan-americanos Juvenis, sediados no Paraguai em agosto de 2025. Na ocasião, o Ministro do Interior do Paraguai, Enrique Riera, declarou a jornalistas que quatro atletas cubanos se separaram de seu grupo durante um passeio turístico e informaram ao chefe da delegação que não iriam retornar ao hotel.
Os veículos oficiais de comunicação de Cuba condenam as baixas nas delegações de atletas. Em um comentário à fuga de Ismael Burrero durante o Campeonato Pan-americano de Wrestling, em 2022, o JIT afirmou que “a decisão de Burrero constitui uma grave indisciplina dentro do sistema esportivo cubano, e deixa de lado os objetivos de sua equipe”. Enquanto o mercado esportivo global utiliza a situação como uma oportunidade para buscar atletas promissores, o governo cubano considera as deserções como um abandono próximo à traição.
Nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, a delegação de Cuba teve o seu pior desempenho desde 1972 e conquistou apenas 9 medalhas. Renato argumenta que a soma dos conflitos enfrentados pelo país no âmbito do esporte de alto rendimento desde o “Período Especial” dificultou uma recuperação, o que faz com que o cenário atual permaneça “aquém dos tempos áureos da segunda metade do século XX”.
