por Lorenzo Souza (lorenzosouza@usp.br)
Após desmaiar na escola, a adolescente Rosa (Klara Castanho) descobre um segredo sobre si mesma e começa a desconfiar dos interesses de sua mãe superprotetora, Dora (Karine Teles). Com o passar dos dias, a jovem entende que o cerco que o cerco construído por sua mãe não é por acaso. Essa é a premissa de #SalveRosa (2025), novo suspense brasileiro que aborda a superexposição de crianças na internet.
O longa é uma produção da Panorâmica, reconhecida por filmes como Tudo por um Popstar (2018), Fazendo Meu Filme (2024) e Cinderela Pop (2019). A direção é de Susanna Lira e o roteiro de Ângela Hirata Fabri.
A narrativa conta a história de Rosa, influencer que produz, junto de sua mãe, vídeos para o público infantil. A menina leva uma vida reclusa, sem familiares além de Dora. A mãe monitora todos os aspectos da vida da filha, da dieta às conversas no celular. Conhecida desde a infância, mas tímida e com poucos amigos, a trajetória da adolescente muda quando tem acesso aos seus resultados médicos, que denunciavam desnutrição severa e alteração hormonal grave, o que faz a jovem começar a desconfiar da mãe.
O longa-metragem, apesar de se apresentar como um suspense, não sustenta o gênero completamente. A construção narrativa não convence e o conjunto geral decepciona. Não é necessário assistir para saber o que acontece: tudo que importa da história já foi divulgado através dos trailers e, mesmo se não tivesse sido divulgado, qualquer indivíduo poderia acertar qual o plot twist (se é que tem um).

Ao assistir o trailer, pode-se inferir de imediato qual o cerne da história: Dora não quer que Rosa cresça e faz o possível para garantir isso. O que sobra é a dúvida do porquê ela o faz. O questionamento, que poderia ser respondido ao decorrer do filme, nunca é resolvido.
Apesar de contar com a proposta justa de abordar um tema em alta, os erros em diversos campos do filme diminuem a força do debate. O roteiro é uma das principais características que deixa a desejar. Em diversos momentos, pedaços da narrativa que não servem à nada gastam longos minutos, enquanto cenas que conseguiriam alavancar a carga dramática necessária para a consolidação de um bom suspense duram poucos segundos, ou são até cortadas bruscamente.
Outro aspecto que abala o prosseguimento do filme é o desenvolvimento da personagem Dora por volta da metade do longa. Após apresentar para o espectador a situação de Rosa com sua mãe e um início de dúvida sobre suas intenções, começa um processo de expor a vida que Dora leva sem o conhecimento da filha. Recheada de sexo e ações moralmente questionáveis, esse período constrói o sentimento de mistério e curiosidade essencial que se propõe ao fazer um suspense, além de contrastar com a personalidade controladora que gerencia a filha. Infelizmente, esse sentimento não continua ao restante do longa.
O tom final do filme é um ponto essencial para ser analisado. Apesar de trazer o contexto da superexposição de crianças na internet como forma de conscientização, o que deveria servir como debate e conscientização parece uma peça publicitária. Se levado em conta a intenção de veicular a necessidade de denúncia em casos similares ao do filme, ele o faz com maestria. Se levado em consideração o fato de o longa ainda ser um suspense e ter sido promovido como tal, ele peca em muitos momentos.
Apesar das falhas diversas que atrapalham o filme, ele se sobressaí em outros aspectos. A atuação de Karine Teles e Klara Castanho é grandiosa, como já se espera de duas artistas consolidadas. Karine traz a carga dramática necessária para encarnar uma mãe que, ao mesmo tempo em que demonstra amor, exerce chantagem subentendida com a própria filha. Klara, por sua vez, traz para as telas uma enxurrada de sentimentos, característicos da adolescência da personagem, mas também da situação adversa em que se encontra.
A direção também acerta ao construir cenas fechadas, em que a situação principal está em foco. Seja por meio dos rostos das personagens, das luzes nas cenas de sexo ou nos close-ups que forçam o espectador a olhar para um determinado ponto, o filme ganha fôlego de suspense com esse estilo.

É interessante também a filmagem das cenas de sexo, características da narrativa de Dora. Através de uma mistura que envolve jogo de luz, músicas — ou a falta delas — e a atuação de Karine Teles, elas acabam por contar mais da personalidade conflitante da personagem do que muitas outras cenas restantes do longa.
Existe a necessidade de enorme cuidado ao abordar assuntos como os do filme. Tratam-se de casos em que está em xeque a relação muito íntima entre mães, pais, tios e tias com indivíduos menores de idade ligados a eles, como filhos e sobrinhos. Dentro dessas relações existe ainda a dúvida sobre o que é cuidado, o que é abuso e o que é permitido dentro de um contexto em que a criança, incapaz de decidir legalmente por seus atos, é incentivada a produzir conteúdos para uma multidão de indivíduos anônimos, com interações anônimas.
Um produto artístico que se propõe a tratar isso deve ser delicado, o que não quer dizer que deva ser algo simples. Pode-se criar um suspense, um drama, uma comédia ou qualquer outro gênero audiovisual, desde que a abordagem correta seja aplicada. A sensação que fica com #SalveRosa é que o filme acaba por ser uma sequência de tentativas, umas boas, outras ruins. Porém as ruins se destacam em comparação com o todo e o que poderia ser uma ótima abordagem de um assunto complexo, não vinga.

#SalveRosa já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Imagem de capa: Reprodução/TMDb
