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Estudo revela relação entre o aumento do preço dos alimentos e a insegurança alimentar

Dados evidenciam que famílias em insegurança alimentar são menos impactadas pelo aumento do preço da cesta básica
Por Fernando Silvestre e Isabela Slussarek (fernando.silvestre@usp.br e isabelaslussarek@usp.br)

A Universidade Federal de Viçosa (UFV) realizou um estudo sobre o impacto do aumento dos preços dos alimentos na insegurança alimentar entre as famílias. O estudo feito entre 2020 e 2021 — no início da pandemia da COVID-19 — utilizou como base dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Conduzido pela pesquisadora Aline Carolina Rodrigues, o estudo restringiu a análise de dados às regiões metropolitanas de diferentes estados do país: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Para determinar os diferentes estados de insegurança/segurança alimentar, a pesquisa utilizou a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) — segurança alimentar, insegurança alimentar leve, insegurança alimentar moderada e insegurança alimentar grave.

O objetivo é analisar o impacto da variação de preços das cestas básicas na segurança alimentar, avaliar as preferências das famílias em relação à escolha de alimentos diante das variações de preços, propor políticas que considerem as particularidades regionais e compreender as diferentes consequências que o aumento causa em cada família .

Segundo a análise, dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (Food and Agriculture Organization – FAO, em inglês) revelaram que, em 2020, cerca de 8,9% da população brasileira enfrentava uma situação de subnutrição. Para as pesquisadoras, esse percentual elevado demonstra que a fome ainda será um problema no país em 2030 — prazo final da Meta de Desenvolvimento Sustentável. O alto preço dos alimentos, a baixa renda e o crescimento do desemprego são fatores que contribuem diretamente nessas condições.

Em Julho desse ano, o Brasil saiu mais uma vez do Mapa da Fome elaborado pela FAO. A saída do Brasil significa que menos de 2,5% da população sofre de insegurança alimentar. A conquista é proveniente de políticas públicas que estão sendo eficazes, na visão de Aline. Porém, a economista  ressalta que ainda é necessário se preocupar com os grupos em subalimentação e continuar fazendo projetos sobre.

Nós saímos do mapa da fome, mas a gente não pode ser ingênuo de acreditar que não podemos voltar para esse cenário.

Aline Caroline Rodrigues

A Dieese 2019 apontou que a cesta básica teve um aumento considerável entre dezembro de 2017 e dezembro de 2018. Campo Grande (MS), Brasília (DF) e Belo Horizonte (MG) tiveram o maior percentual, enquanto Recife (PE) e Natal (RN) apresentaram pouca alteração no preço. Segundo o estudo, o aumento do preço dos alimentos impacta o consumo das famílias mais vulneráveis, que são “obrigadas” a reduzir a qualidade e quantidade do consumo — o que pode contribuir com a insegurança alimentar.

Análise dos resultados

O levantamento apontou que, entre 2017 e 2018, o valor da cesta básica representava cerca de 42% do salário mínimo vigente à  época. Em cidades maiores, como São Paulo, essa proporção chegou a 46%. Em 2021, esse número já representa 60%. Os resultados indicam que as regiões Norte e Nordeste apresentam maior índice de Insegurança Alimentar Moderada e Grave (IAG). Já as regiões Sul e Sudeste apresentam um percentual menor, apesar da elevada relação entre salário mínimo e o preço da cesta básica.

Segundo Aline, essa diferença está ligada à desigualdade social que existe no território nacional. “Infelizmente, a região Nordeste ainda é muito desigual. Em razão da falta de políticas públicas e, até mesmo, das condições climáticas, a população cria uma dependência no turismo regional”, alega. Para ela, isso impede uma renda fixa e contribui com a diferença entre regiões turísticas e grandes metrópoles.

Em 2025, os alimentos que sofreram maior alteração nos preços foram os legumes, a carne bovina e a suína
[Imagem: Reprodução/Edilson Rodrigues/Agência Senado

No início dos estudos, a pesquisadora afirmou que a ideia inicial era de que as famílias com menor poder aquisitivo estariam mais suscetíveis a sofrer com a insegurança alimentar. Também se acreditava que, com o aumento do preço dos alimentos, as famílias passariam a consumir  produtos industrializados, de menor qualidade nutricional, mas conhecidos por serem mais acessíveis.

O resultado final da pesquisa chegou à conclusão de que o aumento do preço dos alimentos e da cesta básica reduzem as chances de segurança alimentar dos domicílios nas regiões metropolitanas brasileiras. Para o estudo, políticas públicas devem ser criadas para que domicílios em condição de vulnerabilidade permaneçam em segurança, mesmo diante da alteração de preços.

Ao encarecer os alimentos, as famílias mais vulneráveis reduzem o consumo de ultraprocessados e passam a priorizar alimentos in natura — arroz, feijão e carne — pois rendem maior quantidade e nutrem por mais tempo. As famílias mais ricas estão mais suscetíveis a entrar em quadro de insegurança alimentar. As pessoas com renda menor já sofrem com a alteração de preços e permanecem em insegurança, sem alterações significativas.

O desafio da pesquisa

Os estudos em microeconometria geralmente enfrentam  dificuldades com os dados. A área de estudo é um ramo da econometria que utiliza dados estatísticos e matemáticos com pouca influência da dimensão temporal  e princípios da microeconomia para investigações econômicas. Assim, a pesquisa teve que enfrentar obstáculos para encontrar dados recentes, que são mais trabalhosos de produzir.

Aline explica que essa condição da pesquisa foi o principal desafio apresentado. “Se você observar a linha do tempo, nós estamos analisando a POF 2017-18, mas só redigimos esse artigo em 2021. Nós não tínhamos dados mais recentes para isso”, afirma a estudiosa.

A escassez de informações atualizadas sobre segurança alimentar no Brasil fez com que o estudo não considerasse os efeitos da Pandemia de Coronavírus, iniciada em 2019, fato que o estudo relembra durante todo o artigo como forma de responsabilidade acadêmica.

*Imagem de capa: Reprodução/Creative Commons

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