Por Sofia Matos (sofi.matos@usp.br)
Apresentado na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, O Agente Secreto (2025), novo longa-metragem do cineasta Kleber Mendonça Filho, é uma das produções brasileiras mais aguardadas do ano.
Duplamente premiado no Festival de Cannes e escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar 2026 de Melhor Filme Internacional após a vitória de Ainda Estou Aqui (2024), o filme chega aos cinemas brasileiros em 6 de novembro de 2025, carregado de expectativas do público e da crítica.
Reconhecido por títulos como Aquarius (2016) e Bacurau (2019), Mendonça reafirma aqui sua habilidade de unir crítica social, linguagem cinematográfica refinada e um olhar profundamente brasileiro sobre o passado.
Ambientado em 1977, O Agente Secreto acompanha Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia que vive em fuga após se envolver com informações confidenciais do regime militar. Carregando o peso de um passado que o persegue, ele retorna para Recife, sua cidade natal, durante o Carnaval, em busca do filho e de um breve refúgio.
O que encontra, no entanto, é uma cidade tomada pela tensão, onde a euforia popular esconde a vigilância constante de um país em plena ditadura. Marcelo se instala no Edifício Ofir, comandado por Dona Sebastiana (Tânia Maria), mulher que acolhe refugiados e oferece abrigo a quem tenta escapar da repressão.

Ao longo do filme, Marcelo convive com os diferentes moradores do edifício, todos tentando sobreviver em um ambiente permeado pelo medo e pela desconfiança. Cada personagem carrega uma história de trauma, resistência ou fuga, tornando-se memorável em sua singularidade. Entre os moradores do prédio, encontram-se figuras interpretadas por grandes nomes do cinema brasileiro, como João Vitor Silva (Haroldo), Hermila Guedes (Cláudia) e Isabél Zuaa (Thereza Vitória).
Mesmo em meio à tensão e ao clima opressivo da época, o longa encontra momentos de leveza graças a Dona Sebastiana. Ela se destaca por seu humor espontâneo e presença acolhedora, trazendo risadas e descontração em cenas marcadas pelo medo. Mas seu papel vai além do cômico.
Dona Sebastiana funciona como um pilar emocional da narrativa, oferecendo apoio e proteção aos moradores da pensão e lembrando que, mesmo em tempos difíceis, a solidariedade e o cuidado entre as pessoas podem prevalecer. Sua energia humaniza o edifício e equilibra a tensão do enredo, mostrando que o calor humano e a esperança podem resistir mesmo diante da violência e da opressão.

A atuação de Wagner Moura como o protagonista em O Agente Secreto é intensa e arrebatadora, consolidando-o como um dos maiores atores do cinema atual. No papel de Marcelo, ele dá vida a um homem corajoso e profundamente humano, que enfrenta a perseguição e a violência da ditadura com determinação e sensibilidade. Sua atuação equilibra força e emoção, revelando um personagem movido pela esperança e pelo desejo de proteger o filho em meio ao caos.
A entrega de Moura é tamanha que ultrapassa a ficção, transmitindo ao público a angústia e a resistência de quem luta para sobreviver em tempos sombrios. Por essa performance marcante, o ator foi reconhecido internacionalmente, recebendo o prêmio de Melhor Ator no Festival de Chicago e o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes, conquistas que reforçam a grandiosidade de seu trabalho.
Com uma fotografia marcada por tons quentes e granulação analógica, Mendonça cria um visual que transporta o espectador diretamente à atmosfera opressiva da ditadura. O designer de produção impressiona pela atenção aos detalhes, os aparelhos de escuta, os carros antigos, as propagandas de época e o próprio som do rádio criam uma imersão sensorial completa.
A trilha sonora, assinada por Tomaz Alves Souza e Mateus Alves, equilibra o suspense com elementos da música popular brasileira, reforçando o contraste entre o clima festivo do Carnaval e a constante sensação de vigilância e medo.

Entre os aspectos positivos, destaca-se a habilidade de Mendonça em transformar o suspense político em reflexão social. O Agente Secreto evita o caminho fácil do herói ou da ação, preferindo revelar o medo e a resistência em pequenos gestos cotidianos, como em um olhar trocado em silêncio, uma conversa rápida no telefone sem revelar demais ou uma conversa sussurrada. Recife volta a ser, como em outros trabalhos do diretor, um personagem fundamental, uma cidade viva, contraditória e carregada de memórias.
Por outro lado, a densidade narrativa e o ritmo demorado podem afastar parte do público que espera uma trama mais convencional. O filme aposta em longos silêncios e transições demoradas, o que reforça o clima de vigilância, mas também exige do espectador uma atenção constante. Ainda assim, essa escolha estética revela coerência com a proposta do filme, mais do que contar uma história de espionagem, propor uma imersão sensorial e política sobre a opressão e a sobrevivência.
O Agente Secreto consolida Kleber Mendonça Filho como um dos nomes mais importantes do cinema contemporâneo brasileiro. Com uma linguagem sofisticada, o longa revisita o passado para discutir o presente, mostrando que as feridas deixadas pela vigilância e pela censura continuam abertas. Um filme que não apenas observa a história, mas a interroga com coragem, beleza e uma profundidade rara.

Esse filme fez parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Confira no site oficial as sessões disponíveis. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.
O Agente Secreto faz sua estreia nos cinemas brasileiros em 6 de novembro. Confira o trailer:
* Imagem de capa: Divulgação/Vitrine Filmes
