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As curvas do Edifício Copan: entre a arte de Niemeyer e a vida cotidiana

Aos 59 anos de existência, a construção é um dos maiores prédios da cidade de São Paulo e carrega um legado cultural para a arquitetura
Prédio Copan visto do alto de outro prédio vizinho.
Por Isabela Slussarek (isabelaslussarek@usp.br)

A década de 1950 foi um momento marcante para a urbanização de São Paulo, que enfrentou um elevado crescimento e a transformou em uma metrópole. O centro da cidade, chamado de Centro Novo, sofreu uma especulação imobiliária, na qual os edifícios existentes ofertavam comércio, cultura e lazer em uma mesma região. 

A área também passou por um processo de verticalização, em que os prédios tornaram-se cada vez mais altos e valorizados. São Paulo recebia milhares de migrantes que chegavam à cidade em busca de uma melhor qualidade de vida e de oportunidades de trabalho, o que gerou um aumento populacional da região. Os edifícios deixaram de ser totalmente comerciais e começaram a focar na área residencial, em busca de atender o maior número de pessoas possível.

No centro da cidade de São Paulo, no coração do município, está localizado o Edifício Copan, projetado em 1951. Inicialmente arquitetado por Oscar Niemeyer, o edifício foi encomendado como um novo projeto da Companhia Pan-Americana de Hotéis e Turismo, em homenagem ao Quarto Centenário da cidade.

Imagem em preto e branco dos arredores do Copan.
O Edifício Copan se destaca dos demais da região pelo seu tamanho e pela sua estrutura inovadora
[Imagem: Reprodução/PICRYL]

O objetivo inicial era de construir um maciço — uma estrutura sólida e compacta — formado por um conjunto habitacional e um hotel, que pudesse receber turistas e tornar-se um polo de atração. Com projeção de entrega para 1954, o Banco Nacional de Investimentos, responsável pelo financeiro da obra, foi liquidado pelo governo e o projeto ficou parado por três anos. Após a substituição pelo Banco Bradesco, alterações foram feitas no projeto inicial, o que não agradou Niemeyer.

Insatisfeito, o arquiteto deixou Carlos Alberto Cerqueira Lemos como o responsável pelo Edifício Copan. A parte externa é reconhecida como trabalho de Niemeyer, enquanto a interna foi realizada por Lemos. O Copan foi inaugurado apenas em 1966, 12 anos depois do prazo previsto. 

A grandiosidade arquitetônica

Originalmente, o Edifício apresentaria 32 andares e o hotel 600 apartamentos. O terreno ocupado seria de 10.572 metros quadrados e os dois prédios seriam ligados por uma área comum no térreo. Nesse espaço, ainda seria construído um teatro, um cinema e um terraço com lojas. 

O Bradesco exigiu que apenas o edifício residencial fosse construído, com 900 apartamentos e seis blocos no início do projeto. Os blocos E e F foram pensados para abranger apartamentos grandes, com cerca de quatro dormitórios cada. Porém, acabaram sendo redesenhados e foram divididos em kitnets e em áreas de apenas um quarto. 

O resultado dessa nova divisão foi de 260 apartamentos a mais do que o planejado, em busca de maior alcance financeiro. Atualmente, o Copan ocupa cerca de seis mil metros quadrados, com área comercial e um cinema, temporariamente fechado, mas que promete ser reaberto.

A diversidade de tamanhos e valores dos apartamentos é um fator associado pela sociedade como um ideal proposto por Niemeyer, declarado publicamente como comunista. Entretanto, o engenheiro e gerente de projetos do Edifício Copan, Daniel Bernardo, explica que essa relação é incorreta, pois o fator que desencadeou nessa variação foi, unicamente, o interesse econômico do Banco do Bradesco.

A fachada do Copan é marcada pela presença de brises solares e horizontais, que protegem os apartamentos da luz do sol e realçam o aspecto ondulado. Os moradores reclamam da presença das estruturas próximas às janelas, ao alegarem que dificulta a manutenção, limpeza e substituição da projeção. 

Com 115 metros de altura, é considerado o maior edifício residencial de concreto armado do Brasil. Sua grandiosidade foi reconhecida pelos Correios e o Copan obteve um CEP próprio. Os milhares de moradores e trabalhadores são representações da diversidade paulistana, e o prédio já abrigou grandes nomes da cultura brasileira, como Cauby Peixoto, Paulo Autran e Plínio Marcos.

“A arquitetura é, antes de mais nada, construção, mas construção concebida com o propósito primordial de ordenar e organizar o espaço para determinada finalidade e visando à determinada intenção.”

Oscar Niemeyer

Apesar da sua grandiosidade e pelo alto número de moradores do edifício, Daniel Bernardo acredita que o Copan não deve ser considerado uma “cidade vertical”, assim como é afirmado por muitos. “Cidade é um ambiente em que as pessoas convivem, em que existe um regramento do próprio governo e das leis. Existe um sistema de transporte, de suprimentos, de hospitais. Então, a ideia de cidade vertical para mim é confusa”, alega o arquiteto.

Entre a degradação e a modernização

Entre as décadas de 1960 a 1980, os subcentros da cidade passaram a abranger atividades diversificadas, o que impactou na expansão da centralidade e desencadeou a desconcentração dos projetos no centro de São Paulo. A região, marcada pelo alto preço de imobiliárias, foi abandonada pelas empresas e pelos moradores, que buscavam lugares baratos e que ofereciam a mesma proposta.

Em entrevista ao Museu da Pessoa, o síndico Affonso Celso Prazeres de Oliveira, responsável pela organização do prédio desde 1993, explica que, na década de 1960, o prédio era “dominado” por estudantes e solteiros, visto como um local passageiro. Após 1985, essas pessoas saíram do centro e passaram a investir em outras regiões, principalmente na Zona Sul da cidade.

No início dos anos 1990, foi iniciada uma reforma no Copan, em busca de revitalizar a estrutura e valorizar o espaço novamente. Substituições nos sistemas elétricos e hidráulicos, reforma dos elevadores e criação de rotas de fuga foram estratégias utilizadas para atrair novos moradores.

A degradação não aconteceu apenas na região do prédio e na parte interna. A fachada, repleta de pastilhas, sofreu com desgastes devido a falta de manutenção e do desgaste natural dos produtos. Com o tombamento do Copan pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), em 2012, as obras de restauração da fachada foram dificultadas.

Nos anos de 2010, a administração entrou com o pedido de modificação da parte externa, para resolver problemas de infiltração, trocar as pastilhas soltas e adotar redes de proteção. Em 2015, o Conpresp paralisou a obra ao exigir um projeto completo de restauração, pois os itens comprados para substituição não atendiam aos padrões especificados. A reforma só foi retomada em 2023 e ainda está em andamento em 2025.

Curvas do Copan vistas do chão
A tela de proteção foi instaurada após algumas pastilhas e o reboco caírem, atingindo um animal e causando a sua morte
[Imagem: Acervo pessoal/Isabela Slussarek]

Um legado cultural para a cidade

Por ser um dos quatro edifícios residenciais projetados por Oscar Niemeyer em São Paulo, o Copan ganha atenção do público apenas por sua existência natural. Marcado pelas características arquitetônicas modernas, o prédio chama atenção pelo seu formato em “S” e curvas únicas. 

Daniel explica que a arquitetura presente no projeto é uma mistura das características da escola modernista carioca com as que estão presentes no trabalho de Niemeyer. O estilo das obras do profissional é marcado pela presença de curvas, formas arredondadas e o uso constante de concreto armado. 

Para ele, o Copan é a representação da cidade entre os moradores e turistas. Fatores como seu tamanho, a presença de uma rua interna e a galeria do térreo promovem o aumento do interesse das pessoas em frequentar o ambiente, o que torna o edifício cada vez mais famoso e inesquecível.

Daniel alega que o prédio ainda influencia novas construções arquitetônicas, apesar dos seus 59 anos de existência. “A gente não deve olhar para o Copan apenas pela aparência externa, pois eu nunca mais vi um prédio ondulado na vida. Acredito que as qualidades do Copan extrapolam a própria forma”, afirma. A noção de fluidez do térreo, o relacionamento com os prédios vizinhos, como ele se encaixa na vida urbana e a disposição do projeto são fatores de inspiração para o entrevistado.

“O Copan tem uma coisa que gira ao redor dele, não palpável. Esses aspectos (energia) são, com certeza, uma inspiração, não só a nível nacional, como internacional também.”

Daniel Bernardo

Comercialização de uma área residencial

O início do século 20 marcou o centro de São Paulo como um distrito comercial sofisticado. Durante a década de 1950, a cidade passou por um grande crescimento econômico e, com isso, novos tipos de comércio ganharam maior potencial entre os empresários — as galerias. Nessa mesma época, a região central enfrentava uma valorização como espaço habitacional, comercial e cultural. 

Nos térreos dos edifícios, as galerias apresentavam lojas de luxo, bares, restaurantes renomados e pontos de encontros entre estudiosos e artistas. As galerias do centro eram marcadas por quatro tipos distintos: edifício-conjunto (espaço marcado pela presença comercial, residencial e empresarial); edifício galeria (lojas no andar térreo); edifício comercial (todos os andares apresentam comércios); e passagem (caminho que com lojas que cruza uma quadra). 

Com a degradação do centro de São Paulo, outras regiões da cidade, como a Rua Augusta e a Avenida Paulista, atraíram os investimentos comerciais que estavam presentes na parte central. As galerias deixaram de ser frequentadas e viraram partes abandonadas da área. Como o Copan foi inaugurado após a década de 1960, a galeria do prédio não passou pelo maior momento de valorização comercial dos anos 1950.

Em 2020, a galeria comercial do Edifício Copan apresentava cerca de 72 lojas. Com o início da pandemia da COVID-19, alguns comércios fecharam suas portas e, em 2025, muitos espaços estão vazios. A falta de segurança do centro da cidade é um fator que dispersa novos moradores, turistas e comerciantes que se interessam pela região.

Placa luminosa antiga do Edifício Copna, com seu mapa desenhado e as entradas dos blocos marcadas em vermelho.
O pavimento térreo é tão grande que nos corredores existem diferentes mapas para localizar os visitantes
[Imagem: Acervo Pessoal/Isabela Slussarek]

Em entrevista ao Sala33, a proprietária do Queijuz — loja especializada em queijos brasileiros no Copan há seis anos — Letícia Vilas Boas, explica que não existe uma dependência mútua entre os moradores e os comerciantes do edifício. “Os comerciantes vêm para o Copan com a ideia de que terão milhares de clientes potenciais do prédio, mas os principais compradores são os da região”, afirma.

Nas demais regiões da cidade ou, até mesmo, do Brasil, as pessoas não procuram os comércios embaixo dos prédios como primeira opção para compra. Letícia acredita que o diferencial da galeria do Copan, que atrai um grande número de clientes, é a especialização de cada loja. Para a empreendedora, “cada um se diferencia do outro e isso atrai pessoas que vêm por você, porque querem os seus produtos, não apenas por ser mais um comércio comum.”

O fim da área residencial?

Nos últimos meses, viralizaram vídeos nas redes sociais em que moradores do Copan reclamam sobre a falta de privacidade e de silêncio no prédio. A criadora de conteúdo, Djully Badu, expressou insatisfação em seu perfil no TikTok sobre a grande quantidade de novos airbnb e o constante barulho de reforma nos apartamentos.

“Meu prédio parece um canteiro de obras e eu não tenho paz. […] Eu não tenho privacidade há alguns anos, porque o prédio da frente está reformando […] e eu já vi trabalhadores da obra olhando para dentro do meu apartamento”, alega Djully. Para a moça, os maiores fatores que implicam nessas reformas constantes são a especulação imobiliária e o aumento do número de microapartamentos.

Ainda no vídeo, a moradora reclama que os hóspedes não se preocupam em fazer silêncio — segundo ela, estão “causando —, e que sempre tem pessoas limpando esses apartamentos fora do horário estipulado. Além disso, reformas realizadas pela plataforma de hospedagem impactam negativamente a estrutura do prédio e geram incômodo. Djully também reclama de ter que pagar o mesmo preço do condomínio do que os proprietários desses apartamentos, pois sua saúde mental é impactada.

O Edifício apresenta um elevado número de airbnb que hospedam os apaixonados por arquitetura e pela história do Copan. Com o crescimento dessa modalidade, na própria galeria existe uma área própria para atender esses hóspedes e ajudar com os transtornos durante a estadia. Além da “loja”, também existem páginas no Instagram e um site próprio que estimula a chegada dos visitantes.

Letícia Vilas Boas acredita que o prédio não deixará de ser residencial — pelo grande número de apartamentos —, mas esse crescimento das curtas estadias é algo que gera um maior movimento na área e que pode conflitar com os moradores permanentes. 


*[Imagem de capa: Reprodução/Wikimedia Commons]

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