Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)
Enquanto assistimos a um filme, o que faz com ele se torne uma lembrança fixa e recorrente na nossa memória? Quando o relembramos, é por causa da trilha sonora, da história, das pessoas com quem assistimos, do período de nossas vidas em que aquela obra chega até nós ou uma soma de tudo isso? E como essas memórias persistem à mudança do tempo? Será que intactas, ligadas à realidade, ou com um pouco de ficção, como os filmes que vemos?
Quando eu era pequeno, existia perto da minha casa uma locadora de DVDs, era pequena mas muito boa. Os filmes ficavam quase todos em uma única sala de parede rosada, onde cabiam quatro estantes de opções, duas nos cantos e as outras duas no meio, com catálogo dos dois lados, formando três corredores. Tinha ainda um outro cômodo que eu nunca entrava, tenho quase certeza que era onde ficavam os longas para maiores de 18 anos. Mas lembro bem da porta, que achava muito legal por ser como desses bares de velho oeste.
Ir na locadora era a minha alegria de todas as semanas, que por mim poderia ser diária, mas meu pai sempre dizia para alugarmos na sexta-feira, aí teríamos o final de semana inteiro pra assistir. Quando tinha feriado, era ótimo. Conseguia pegar mais de um filme com a certeza de ter tempo para ver tudo.
Sempre ia atrás do desenho que não tinha dado tempo de ver no cinema, mas diferentemente do streaming – que ainda não existia – a gente tinha que esperar um pouco mais. Caso não houvesse chegado o novo lançamento, existia alta probabilidade de eu alugar Zé Colmeia: O Filme (Yogi Bear, 2010) pela enésima vez. Um clássico subestimado, precursor, engraçado demais e muito melhor que qualquer live-action da Disney que existe hoje.
É curioso que, quando somos crianças, temos essa habilidade e vontade de rever o mesmo filme várias vezes, chegando até a decorar. Eu sabia de cor a abertura de Kung Fu Panda 2 (2011) – “há muito tempo na velha China, os pavões reinavam sobre Gongmen City…” – e alguns trechos de A Nova Onda do Imperador (The Emperor’s New Groove, 2000) eram sempre motivo de risada em casa – “tricô? Não, crochê. Ah, crochê é legal.”
Eu achava que sempre seria assim, reassistiria todo filme que gostasse, mas não. Com o passar do tempo, você já não gosta mais de todos os filmes e são cada vez mais raros os que se vê com frequência. Por que isso acontece, não sei. Mas, que nessa rotina cada vez mais corrida, não percamos o hábito de quando for possível, parar um pouco e rever os filmes que realmente nos marcaram, aqueles que nos fazem ter de volta esse deslumbramento infantil com o cinema e com a vida.
Hoje, nesse amontoado de filmes a que assistimos, com uma tecnologia de efeitos especiais e CGI cada vez maior e algumas vezes utilizada sem critério, talvez, não nos surpreendamos tanto com as explosões, com um personagem saltando de um prédio para o outro ou um ator fazendo dois personagens ao mesmo tempo. Mas eu acredito que, quando os efeitos servem ao roteiro, muitas vezes sendo práticos mesmo, construídos por um jogo de câmera ou efeito de luz por exemplo, ainda existe muito espaço para essa criatividade que deixa quem está assistindo sem entender como isso foi possível.
Isso provavelmente aconteceu com meus pais enquanto assistiam Cidade de Deus (2002) em uma das primeiras fileiras do “Nosso Cinema”, um cinema de praça da minha cidade, ao verem a histórica cena da galinha. Gravada com uma câmera presa a um cabo de vassoura, possibilitando gravar a perseguição ao animal.
Somada essa comoção causada pela criatividade técnica a uma boa história, o cinema também ainda nos faz viver as emoções que ele quer nos provocar. Clássicos de fantasia como Senhor dos Anéis: a Sociedade do Anel (Lord of The Rings: The Fellowship of the Ring, 2001) e Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher’s Stone, 2001) nos transportam completamente para os seus universos.
Dramas como Forrest Gump: O Contador de Histórias (Forrest Gump, 1994) e Central do Brasil (1998) nos fazem chorar como se nós mesmos estivéssemos vivendo aquelas tramas. Na mesma proporção, o terror também é um gênero que nos impacta muito pelo incômodo, aflição e desconforto, sentimentos com os quais alguns se divertem e outros evitam ao máximo.
Eu, por exemplo, não me disponho a me traumatizar. Quando criança, tinha tanto medo de A Casa Monstro (Monster House, 2006) que até a sua materialização física – o DVD – não poderia ficar em casa. Pedia constantemente para minha mãe deixá-lo na escola em que ela trabalhava. Só assim estaríamos protegidos. Se por um tempo ela levou e depois trouxe de volta, eu não sei. Sei apenas que depois de alguns anos eu vi ele lá, escondido no armário dela – tão sinistro quanto a casa do seu Epaminondas (Waldir Fiori).
Minha avó materna também tem horror a esse tipo de filme, mas ela teve de enfrentar um desafio muito maior do que a animação de Gil Kenan. Nos anos 70, ela foi convencida pelas irmãs a se dirigir ao cinema corajosamente para uma sessão de O Exorcista (The Exorcist, 1973). Agora, imagina ver esse filme no escuro, com uma tela enorme e um som a altura. Eu não conseguiria nem à luz do dia, ao ar livre.
A ideia se desmanchou rápido e minha avó abandonou a sessão. Ficou na sala de espera aguardando as irmãs terminarem o filme, mas merecidamente, ganhou uma Coca de graça do pessoal do cinema, que ficou conversando com ela, enquanto não se sujeitava a uma experiência terrível dessas.
Mas, a magia do cinema está na sua parte mais básica, e essa, pode passar o tempo que for e ainda que exista uma explicação química clara, sempre será surpreendente. Como é possível, pegar um momento da vida e guardá-lo fixo em um papel ou em uma tela? Este milisegundo que, se registrado várias vezes, se torna movimento. E ainda, para complementar, decidiram criar histórias não reais a partir dessas capturas da realidade, mas que mesmo assim, conversam tanto com a vida que vivemos. Isso é o que chamam de cinema.
Meu avô paterno cresceu na roça e mora lá até hoje, ainda tira leite das vacas e cuida do campo e da horta. Ele me conta que uma vez seu irmão o levou a um cinema de rua na cidade pela primeira vez, em uma época em que, assim como a maior parte do país, ele sequernão tinha televisão e o rádio era o principal meio de comunicação.
Na sala escura, com todos em silêncio, na grande tela um homem puxa o revólver e aponta para quem está assistindo. Meu avô não teve outra opção a não ser se abaixar e se proteger. O disparo vem, nada acontece. Meu avô percebe então que tinha sido salvo pelo meu tio, que lhe disse: “se acalma, Roque. É tudo de mentira”.
*Imagem da Capa: [Reprodução/Cinema em Cena]




