Por Luana Riva (luanariva06@usp.br), Lucas Miranda (lucasmirandaf@usp.br) e Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br) lacoste
Jean René Lacoste, tenista e fundador da famosa marca de roupas que carrega seu sobrenome, chegou ao primeiro lugar do ranking mundial de tênis e contribuiu para transformar tanto o esporte quanto a indústria da moda. Relembre a trajetória do atleta conhecido como “Crocodilo”, trinta anos após sua morte.
A trajetória de um campeão lacoste
Lacoste nasceu em 2 de julho de 1904, em Paris, na França. Filho de família rica, cresceu em um ambiente que valorizava a educação e a disciplina. Seu interesse pelo tênis surgiu aos 14 anos, quando ganhou de sua mãe sua primeira raquete. Encantado pela modalidade, Lacoste passou a se dedicar intensamente aos treinos.
Em entrevista ao Arquibancada, José Nilton Dalcim, Diretor Executivo da TenisBrasil, ressalta a idade incomum com que o jovem começou a jogar: “Lacoste começou no tênis bem tarde e, mesmo para essa fase muito amadora do esporte, começar a jogar com 14 anos é uma idade muito alta.”
No início de 1923, aos 19 anos, Lacoste foi reprovado no exame de admissão da prestigiada escola de engenharia École Polytechnique. A partir de então, decidiu concentrar-se exclusivamente no tênis. O atleta já acumulava experiência em competições naquele momento, e sua determinação contribuiu para que conquistasse reconhecimento em pouco tempo.
Com apenas 19 anos, Lacoste foi escolhido para integrar a seleção francesa de tênis na Copa Davis, em 1923 [Imagem: Reprodução/X/@franceintheus]
Rapidamente, Lacoste chegou ao grupo de elite do esporte. Em 1925, com 20 anos, o jovem ganhou os Torneios de Roland Garros e Wimbledon. “Isso até hoje é um feito extraordinário. Na época, Roland Garros era o único dos grandes torneios que não era jogado na grama. Ele saiu do saibro de Roland Garros e, duas semanas depois, ganhou na grama de Wimbledon”, explica Dalcim.
O jovem integrou os chamados “Quatro Mosqueteiros” do tênis francês, ao lado de Jean Borotra, Jacques Brugnon e Henri Cochet. Juntos, os atletas marcaram época no cenário internacional e levaram a França à conquista da Copa Davis em 1927.
Naquele ano, Lacoste foi considerado o tenista número um do mundo. “É importante lembrar que não existia um ranking matemático. Apenas a Federação Internacional ou alguns dos principais veículos da época designavam quem tinha sido o melhor daquele ano”, esclarece Dalcim.
Ao longo de sua carreira, Lacoste conquistou sete títulos de Grand Slam — nome dado aos quatro torneios anuais mais importantes do circuito mundial de tênis: três Roland Garros, dois Wimbledon e dois US Open. Seu estilo de jogo é reconhecido por sua inteligência tática voraz e estratégica, características que lhe renderam o apelido de “O Crocodilo”.
René Lacoste também conquistou uma medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1924, na categoria de duplas [Imagem: Reprodução/WikimediaCommons]
O atleta, no entanto, nunca chegou a disputar o Australian Open, para “fechar o circuito” do tênis mundial. Felipe Priante, jornalista especializado na cobertura de tênis, explica que, na época, o esporte ainda era muito amador e viajar para a Austrália era muito caro. Por isso, poucos jogadores estrangeiros participavam da competição.
Lacoste também se destacava pela criatividade e pelo espírito inovador. Ao longo da carreira, percebeu que as roupas tradicionais do tênis — camisas de mangas compridas confeccionadas com tecidos pesados — eram desconfortáveis e restringiam os movimentos. A partir dessa constatação, desenvolveu a camisa polo, peça que transformaria não apenas o vestuário dos tenistas, mas também o universo da moda.
O crocodilo ao longo dos anos lacoste
A La Société Chemise Lacoste — ou a empresa “René Lacoste e André Gillier” — foi fundada em 1933, quatro anos depois que o tenista teve que se aposentar, com apenas 25 anos, por conta de uma doença respiratória. A marca foi uma das primeiras a estampar um logo visível em uma peça de roupa: o famoso crocodilo na altura do coração foi desenhado por Gillier, proprietário de uma fábrica de malhas e responsável pelo desenvolvimento das técnicas de tricô e dos padrões de materiais da camisa polo.
Em entrevista ao Arquibancada, Pedro Zannoni, CEO da Lacoste na América Latina, destaca a proposta que orientou a criação da marca: “O Lacoste acreditava que os atletas poderiam competir com mais conforto e liberdade, sem perder a elegância”. Feita de algodão piquet, a peça virou desejo da alta sociedade e passou a ser comercializada internacionalmente em 1950.
A introdução de novas cores e estilos a consolidou em um fenômeno global e referência no mercado de luxo acessível. Ao longo dos anos, a grife começou a desenvolver outros produtos, como fragrâncias, casacos, acessórios e calçados esportivos, visando peças confortáveis, sofisticadas e de alta qualidade.
“A escolha transformou o crocodilo em mais do que uma assinatura: ele se tornou um símbolo de pertencimento. O que começou como um apelido pessoal, virou um dos logotipos mais reconhecidos do mundo”
Pedro Zannoni
Nas décadas seguintes, através de seu estilo esportivo minimalista e atemporal, o crocodilo conquistou adeptos de diferentes perfis e estilos e ultrapassou as fronteiras das quadras de tênis. Nas décadas de 70 e 80, se tornou uma das principais marcas dentro do estilo preppy, marcado por uma estética polida e inspirada no uniforme de universidades da Ivy League. Nele, usar a polo com a gola levantada combinada com suéteres amarrados nos ombros e mocassins virou o uniforme oficial dos yuppies.
O livro The Official Preppy Handbook (1980) foi o marco definitivo da Lacoste como sinônimo do visual. Inicialmente, a obra servia como um guia satírico do estilo, mas acabou por se tornar um verdadeiro manual de regras sobre o padrão de vida da classe alta americana [Imagem: Reprodução/X/@Lacoste]
Caracterizada por versatilidade e sofisticação casual, a marca de fashion sport foi aderida por personalidades como Audrey Hepburn e Jackie Kennedy — além de estrelas do tênis e do golfe como Fabrice Santoro, Henri Leconte e Severiano Ballesteros. Durante os anos 90 com a logomania, porém, a Lacoste teve que iniciar uma expansão e modernização da rede de lojas. Em 1994, inaugurou a primeira unidade na China e passou a investir em novos estilistas para coleções mais joviais.
A ligação com o esporte, entretanto, permaneceu central para sua identidade. Atualmente, no tênis profissional, a grife patrocina atletas como Novak Djokovic e Daniil Medvedev, além de vestir equipes e profissionais envolvidos em grandes torneios. A marca também mantém parcerias com competições internacionais, como Roland Garros e o Miami Open, do qual é patrocinadora platinum e fornecedora oficial de uniformes desde 2015.
Em 2026, durante o Miami Open, lançou uma coleção desenvolvida especialmente para o torneio e promoveu experiências que aproximaram esporte, moda e hospitalidade. Já no Roland Garros, apostou em peças inspiradas no saibro e em uniformes que combinam referências tradicionais do tênis com materiais e propostas contemporâneas.
Sob a direção criativa de Pelagia Kolotouro, a coleção de verão 2027 rompeu com a tradição do branco impecável ao incorporar manchas que remetem ao saibro e ao suor [Imagem: Reprodução/Instagram/@lacoste]
No Brasil, o crocodilo virou um item de desejo que vai desde os compradores de artigos de luxo até os jovens que vivem nas periferias. Na música, especialmente no funk, é um símbolo de status e até nome de um remix: Mega Funk Forte de Lacoste, hit de 2023. Nesse mesmo ano, quando completou 90 anos, a marca inaugurou a Casa Lalá, espaço temporário em São Paulo dedicado à relação com os brasileiros, com shows, oficinas e experiências ligadas à música e à cultura.
O crocodilo já apostou em diversas campanhas e parcerias dedicadas aos “lacosteiros” — fusão de Lacoste com funkeiro —, como a Arara Mc Hariel, que apresentou 18 peças escolhidas pelo cantor; a campanha publicitária “Atitude para virar o jogo, autenticidade para fazer tudo com estilo”, com o MC Livinho como protagonista; e o convite aos parceiros da companhia e trappers Kayblack e Caverinha para a final masculina do Roland Garros entre Rafael Nadal e Casper Ruud em 2022.
A aproximação com o país também passa pelo investimento em atletas locais. Desde maio de 2012, o maior tenista da história nacional Gustavo ‘Guga’ Kuerten é parceiro e embaixador global da marca, com coleções de roupas assinadas por ele e licenciamento de produtos como óculos e relógios. No beach tennis, a Lacoste patrocina a brasileira Sophia Chow, que ocupa posição de destaque nos rankings da modalidade.
Embora mantenha suas raízes, a Lacoste S.A. foi totalmente adquirida pelo grupo suíço MF Brands Group e não pertence mais à família do fundador desde 2012. Hoje, está presente em quase 100 países e adapta sua identidade ao público com estratégias locais. “O mais interessante é que o crocodilo mantém o mesmo significado independente do lugar no mundo, enquanto cada cultura acrescenta sua própria interpretação da marca”, relata Zannoni.
“Até hoje o crocodilo representa valores centrais da marca: perseverança, autenticidade, coragem, elegância e esse espírito pioneiro — um símbolo que carrega tanto a história de René quanto a visão inovadora que deu origem à Lacoste”
Pedro Zannoni
O inventor por trás do mosqueteiro
Três décadas após sua morte, em 1996, René Lacoste permanece marcado na história não apenas como um dos grandes nomes do tênis, mas também como um dos responsáveis por transformar a modalidade através de inovações dentro e fora das quadras. A história de Lacoste desafiou a tradição, tanto que, segundo Zannoni, “ele nunca se definiu apenas como um atleta, sempre se via como um inventor”.
“Inventor. Se eu tivesse que colocar uma profissão no meu cartão de visitas, seria essa que eu escreveria. Eu inventei durante toda minha vida”
O lado estrategista que René tinha dentro de quadra, descrito por José Dalcim como “o que era mais interessante nele […] e uma inovação na época”, contribuiu para o despertar de sua criatividade. Na década de 1920, a raquete de tênis era feita de madeira sem material algum para revestimento.
René, no entanto, inquieto com as lesões que a madeira causava nos atletas por conta o atrito e da falta de amortecimento, passou a revestir o cabo do aparelho com uma fita cirúrgica, de maneira que o manuseio da raquete ficasse melhor para os tenistas. Para Priante, essa foi a principal inovação de René, devido ao seu impacto para a indústria atual do esporte.
Sem revestimento, o cabo de madeira pode provocar bolhas e escoriações pelo atrito contínuo com a mão, além de transmitir 100% das vibrações dos impactos da bola direto para o punho e o cotovelo [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Em 1930, René desenvolveu outra invenção para o treinamento no esporte: uma máquina lançadora de bolas, chamada, inclusive, de “máquina Lacoste”. Segundo Dalcim, a criação se transformou em uma máquina importante para o circuito de tênis, pois “ajudava muito o treinamento, especialmente para os jogadores que estavam sozinhos, não tinham técnico ou alguém para bater a bola”. Depois de sua popularização, René começou a produzi-la em larga escala.
“A importância de René Lacoste talvez seja não só na forma de jogar, mas também como projetista e inovador nestas situações em que procurava desenvolver o jogo do tênis”
José Nilton Dalcim
Desde o início das competições de tênis, em 1877, sempre se usou raquetes feitas de madeira. Até que, na década de 60, Lacoste apresentou uma raquete de metal, sua mais recente criação. De acordo com Dalcim, a ideia já vinha sendo desenvolvida pelo atleta desde a década de 1930, após encerrar sua carreira como tenista.
O novo equipamento era tão resistente quanto a madeira e mais leve do que o material tradicional, o que permitia mais potência nos golpes e representava um avanço tecnológico para o esporte. “Inicialmente, René patenteia a raquete de metal na França, mas, depois, vende a patente para os Estados Unidos e quem compra é a Wilson”, conta José Dalcim. Em 1967, a fabricante lançou a Wilson T2000, baseada no projeto do francês, que se tornou a primeira raquete de metal a alcançar grande sucesso comercial e gerou uma “família” de raquetes subsequentes ao longo dos anos 70 e 80, como os modelos T3000, T4000 e T5000.
A Wilson surgiu em 1913, originalmente fundada como Ashland Manufacturing Company em Chicago; atualmente, a marca lidera o mercado de vendas do tênis e é a raquete mais usada do mundo [Imagem: Reprodução/Instagram/@wilsonaustralia]
O espírito inovador que marcou suas criações esportivas é o mesmo que deu origem à camisa polo, peça que revolucionou o vestuário esportivo e, décadas depois, se consolidou como um dos principais símbolos do legado de Lacoste e de sua marca de roupas.
“Muito antes da moda, esporte e cultura serem vistos como territórios complementares, René já transformava uma peça esportiva em um símbolo de estilo”
Pedro Zannoni
Para o CEO da empresa, essas dimensões nunca estiveram separadas: “o esporte influencia comportamentos, a moda traduz esses comportamentos e a cultura amplia relevância”, explica. A camisa polo é uma herança de René e tornou-se um ícone que ultrapassou o universo esportivo por representar o modo como o tenista via a inovação: a partir da observação de como as pessoas vivem, se movimentam e se expressam.
A forma de pensar do atleta continua a orientar a marca, que busca atualizar sua herança por meio de novas interpretações de seus produtos. Um exemplo é a relevância constante adquirida pela camisa polo em diferentes contextos culturais e gerações. “O René tinha a capacidade de questionar, desafiar e encontrar soluções elegantes para problemas reais”, afirma Zannoni sobre a filosofia do fundador da marca.
Para Priante, “René entrou para a história como um dos precursores da mudança no vestuário, e criou uma marca que virou sinônimo de glamour e do tênis” [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Talvez a principal marca da trajetória de René Lacoste tenha sido a recusa em aceitar que as coisas precisavam permanecer como eram. De acordo com Felipe Priante sua atuação no esporte e na moda foi movida por uma “inquietude” que sobrevive ao próprio inventor.
Trinta anos após a morte de René, preservar esse espírito continua sendo um desafio para a marca que leva seu sobrenome. Para Zannoni, isso não significa abandonar o passado, mas sim encontrar novas maneiras de dar continuidade à história sem perder aquilo que a tornou única. “A história da Lacoste sempre foi uma história de constante movimento, criatividade e reinvenção constante, sem nunca esquecer a sua essência”, afirma.







