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110 anos da Vila Belmiro, a Vila mais famosa do mundo

Inaugurado em 1916, o estádio santista atravessou gerações e se tornou palco de momentos históricos do clube e do futebol brasileiro

Por Giovanna Martini (m.martini@usp.br), Victória Almeida Guedes (victoria.guedes12@usp.br) e Vitoria Luisa Lima Mendes (vitoria_luisalmendes@usp.br) vila

Em 12 de outubro de 1916, era inaugurado em Santos aquele que, mais tarde, se tornaria um dos estádios de futebol mais emblemáticos do mundo: a Vila Belmiro. Com capacidade para pouco mais de 16 mil torcedores, o estádio carrega a fama de um dos mais tradicionais e históricos palcos do futebol brasileiro.

Como nasceu a Vila Belmiro

Antes da construção de seu próprio estádio, o Santos Futebol Clube chegou a mandar seus jogos em outros três campos: o da Avenida Ana Costa, o da Avenida Conselheiro Nébias e o do Clube dos Ingleses. No entanto, como esses espaços também eram utilizados por outras equipes, durante uma reunião de diretoria, em 1915, o clube viu a necessidade de construir uma casa própria.

Na época, o clube era presidido por Agnello Cícero de Oliveira, que, junto a uma comissão de diretores formada por Luiz Suplicy Filho, Harold Cross, Sebastião Arantes e Francisco Viriato Corrêa, ficou responsável por buscar um terreno para a construção do estádio.  Apesar dos esforços da comissão, nenhum terreno foi aprovado pela direção. 

Nesse contexto,  surgiu uma figura fundamental para a história do Santos e da Vila Belmiro: Urbano Caldeira. Natural de Santa Catarina, ele se mudou para São Paulo e, posteriormente, para Santos, em 1913, a trabalho. Amante do futebol, Urbano chegou a defender algumas equipes na Capital Paulista como o Vila Buarque e o Paineiras e, quando chegou ao litoral, foi apresentado ao Santos, naquela época recém fundado.

Urbano se identificou com o clube rapidamente e chegou a integrar o elenco santista. Na segunda partida do Alvinegro no Campeonato Paulista daquele ano, contra o Corinthians, partida que marcou o primeiro encontro entre os dois rivais, Urbano foi uma forte liderança e ajudou na vitória santista por 6 a 3. Apesar do amor pelo esporte, Urbano teve uma carreira curta no futebol e, em 1915, já ocupava um cargo administrativo no Santos.

Em 1938, o Santos FC inaugurou o busto de Urbano Caldeira, atualmente exposto no setor das cadeiras sociais do estádio [Imagem: Santos/Wikimedia Commons]

Foi a partir de sua atuação na administração do clube que Urbano passou a contribuir diretamente para a busca por um terreno para a construção do estádio. Diante das dificuldades enfrentadas pela diretoria para encontrar uma área adequada, ele se destacou ao apresentar novas possibilidades e demonstrar entusiasmo com o projeto. Seu empenho chamou a atenção dos dirigentes, que o nomearam para integrar a comissão responsável pela procura de um local para o futuro estádio santista.

No dia 31 de maio de 1916, a compra do terreno, apresentado por Urbano Caldeira, finalmente aconteceu. O terreno santista foi adquirido com cento e sessenta metros de comprimento por cento e quinze de largura, próximo ao Canal 2 da cidade de Santos. O estádio, na época adquirido por dois mil réis o metro quadrado, ficou pronto em apenas quatro meses e causou grande animação na cidade.

O começo da história

A estreia do Santos em seu estádio aconteceu dez dias após a inauguração da Vila, em 22 de outubro de 1916, contra o Clube Atlético Ypiranga. Em partida válida pelo Campeonato Paulista da extinta Associação Paulista de Sports Athleticos (APEA), atual Federação Paulista de Futebol (FPF), a equipe alvinegra venceu por 2 a 1 o time da capital. 

O jogo de estreia estava marcado inicialmente para 12 de outubro, data da inauguração do estádio, mas precisou ser adiado em razão das fortes chuvas na Baixada Santista [Imagem: Reprodução: Facebook/Santos Futebol Clube]

O primeiro gol da história da casa santista foi marcado por Adolpho Millon Jr., seguido pelo gol do meio campista Jarbas que garantiu a vitória para o Alvinegro Praiano. A partida, inclusive, foi disputada no campo sem gramado, que, devido às condições climáticas, não pôde ser plantado. Naquele momento, ainda era difícil imaginar a dimensão que o estádio alcançaria na história do clube. Anos depois, a Vila Belmiro se tornaria o palco de grandes momentos do Santos e da trajetória de seu maior ídolo, o Rei Pelé.

A artilharia do estádio Urbano Caldeira é, até hoje, do maior nome revelado pela equipe santista. Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé, possui 288 gols na Vila e toma grande vantagem em relação ao vice-artilheiro, Feitiço, que acumula 162 bolas na rede. No século XXI, quem carrega o título de goleador da Vila Belmiro é Neymar Jr., com 73 gols. 

A origem do nome

Inicialmente, o estádio era chamado de “Praça do Santos” ou “Campo do Santos”. Foi apenas em 1933, após o falecimento de Urbano Caldeira, que o Alvinegro Praiano decidiu rebatizar o estádio em homenagem ao ídolo. Além de atleta e dirigente, Caldeira se tornou uma figura marcante na história do clube, e seu legado permanece vivo no nome oficial da Vila Belmiro: Estádio Urbano Caldeira.

Em entrevista ao Arquibancada, o historiador do Santos Futebol Clube, Gabriel Pierin, explica a origem do apelido Vila Belmiro, que já era utilizado antes de o estádio receber o nome oficial. Segundo ele, a expansão da cidade de Santos em direção à praia, ao longo do século XX, foi acompanhada por um processo de urbanização que transformou a região. 

O bairro, inicialmente conhecido como Vila Operária, recebeu o nome de Vila Belmiro em 1915, em homenagem ao então prefeito da cidade, Belmiro Ribeiro de Morais e Silva, ainda em vida: “Então o campo do Santos, que era chamado de Campo do Santos ou Praça de Esportes Vila Belmiro, enfim, começa a ter uma associação ao bairro”. A associação entre o nome de uma praça esportiva e sua localização, aliás, é comum no futebol brasileiro. O Maracanã, por exemplo, é originalmente nomeado Estádio Jornalista Mário Filho.

“Hoje a gente tem, na entrada principal, ‘Estádio Urbano Caldeira’ e embaixo ‘Vila Belmiro’, que é o nome popularmente conhecido. É ‘a Vila mais famosa do mundo’”, afirma o historiador Gabriel Pierin [Imagem: Victória Guedes/Acervo pessoal]

Quando ainda era conhecida como “a praça de esportes do Santos”, a Vila ganhou um apelido que perdura até hoje e é motivo de orgulho da torcida santista. Em 21 de dezembro de 1930, após uma partida válida pelo Campeonato Paulista entre Santos e Guarani de Campinas, que terminou com o placar favorável em 5 a 1 para o Alvinegro Praiano, o jornalista Antônio Guenaga, na época integrante do jornal A Tribuna, chamou o estádio santista de Alçapão, já que naquele ano o peixe não havia perdido uma única partida na sua casa. Além do termo representar a dominância do clube em casa, o apelido também deriva da proximidade entre as arquibancadas e o campo, que torna a pressão sonora da torcida ainda mais intimidadora aos adversários.

Partidas históricas 

Em 1933, a Vila recebeu o primeiro jogo do profissionalismo no futebol paulista: Santos 1, São Paulo da Floresta 5. Com o passar das décadas, o estádio ganhou  a forma que o torcedor conhece, com a iluminação ainda nos anos 1930 e, depois, a troca das arquibancadas de madeira pelo concreto. Dali em diante, a casa santista passou a acumular times, ídolos e decisões que atravessam gerações. 

Além do primeiro jogo profissional, a Vila também teria sido palco da primeira partida televisionada do futebol brasileiro. Para Pierin, “o Santos e a Vila Belmiro envolvem muitas curiosidades” e, segundo o historiador, em 18 de dezembro de 1955, a vitória do Santos sobre o Palmeiras por 3 a 1 foi “a primeira partida de futebol transmitida a longa distância, feita pela TV Tupi”. 

Essa versão, porém, encontra divergências. O jornalista Juca Kfouri, por exemplo, afirma que assistiu com os irmãos à decisão do Campeonato Paulista de 1954, disputada em 6 de fevereiro de 1955, entre Corinthians e Palmeiras, que, segundo ele, já havia sido transmitida pela televisão antes do confronto entre Santos e Palmeiras na Vila Belmiro.

Os grandes times da casa tomaram forma na sequência. Pelé chegou à Vila em 1956, aos 15 anos, e marcou pela primeira vez no estádio do Peixe no amistoso vencido por 5 a 3 contra o Corinthians em 1957. Em 21 de novembro de 1964, o Rei fez na Vila oito gols na vitória por 11 a 0 contra o Botafogo de Ribeirão Preto, pelo Campeonato Paulista, o maior número de gols que marcou em uma só partida. 

Pelé é o maior artilheiro da história do Santos, com 1.281 gols marcados durante a sua carreira [Imagem: Indalécio Wanderley/Wikimedia Commons]

Os momentos decisivos da Vila não pertencem a apenas uma era. Para Gabriel Pierin, eles passam pelos títulos e pelos jogos que fizeram da Vila um Alçapão: do Paulista de 1955, decidido no início de 1956 contra o Taubaté, à final da Libertadores de 1962 contra o Peñarol, que terminou em confusão e resultou em um terceiro jogo, na Argentina. Em 2006, a taça do Paulista chegou de helicóptero ao gramado, depois de um jejum que durava desde 1984, algo que, nas palavras de Pierin, foi “um negócio super diferente e que nunca se repetiu”. Naquele dia, o Santos venceu a Portuguesa Santista, que acabou rebaixada. Para ele, o que sustenta essa história é a troca entre estádio e clube. 

Glorioso alvinegro praiano 

Em entrevista ao Arquibancada, Ted Sartori, autor do livro “Histórias da Vila Belmiro: 100 Anos de Magia do Estádio Santista”, diz que a importância que o estádio santista tem para o futebol se deve muito à relevância que o próprio Santos tem para o esporte. “A Vila tem essa importância, não só pelo que ela é, mas pelo que o Santos conseguiu fazer ao longo de sua história”, comenta Sartori. 

Conhecido por revelar grandes nomes do futebol, o Santos construiu parte de sua história com gerações de jogadores que marcaram o esporte mundial. Entre eles, Pelé, eternizado como o “Rei do Futebol”, dividiu o gramado da Vila Belmiro com craques como Pepe, o “Canhão da Vila”, Coutinho, Zito e Gilmar, que fizeram parte de uma equipe que levou o nome do clube para o mundo nos anos 60.

Décadas depois, a Vila foi palco de novos ídolos como Diego, Robinho e Neymar, revelados pelo Santos FC e marcados na história do clube no Estádio Urbano Caldeira. Diego e Robinho, os “Meninos da Vila”, comandaram o time no título brasileiro de 2002 e no vice-campeonato da Libertadores de 2003. A partir de 2009, foi a vez de Neymar encantar a torcida santista, antes de conquistar a Copa do Brasil, em 2010, e a Libertadores, em 2011. 

Sartori ressalta que a trajetória do Santos ganha ainda mais relevância por ter sido construída fora da capital paulista. “A história que o clube conseguiu fazer, os títulos que o clube conseguiu, ainda mais por ser um time fora de capital, que conseguiu tornar a Vila Belmiro essa potência”, afirma. Entre os 12 grandes clubes do futebol brasileiro, o Santos é o único sediado fora de uma capital estadual.

Além de sediar partidas históricas, a Vila Belmiro também foi palco da despedida de Pelé. Em janeiro de 2023, o estádio recebeu o velório do Rei do Futebol, aberto ao público durante 24 horas para que torcedores e admiradores pudessem prestar suas últimas homenagens ao ídolo. 

Em homenagem ao Rei, clubes de todo mundo, incluindo Real Madrid e Palmeiras, enviaram coroa de flores ao seu velório [Imagem: Reprodução/YouTube/@otempo] 

Futuro da Vila Belmiro

Com o objetivo de modernizar a Vila Belmiro, o Santos iniciou, em 2026, uma série de reformas no estádio, com conclusão prevista para março de 2027. Nesta primeira etapa, as intervenções se concentraram na área de imprensa, na ampliação dos degraus da arquibancada destinada à torcida organizada e na reforma dos banheiros.

A segunda fase da modernização prevê a construção de 56 novos camarotes na parte superior das arquibancadas, além da demolição das antigas estruturas localizadas à beira do campo. As obras têm previsão de início para o fim deste ano. Já durante a pré-temporada de 2027, o estádio deve receber um novo gramado com sistema híbrido, que combina grama natural e fibras sintéticas para reforçar a estrutura das raízes. Por último, a Vila Belmiro terá sua capacidade aumentada para receber cerca de 23 a 25 mil torcedores. A previsão de gastos com a reforma é de R$72 milhões. 

O desafio da reforma está em modernizar a Vila Belmiro sem necessariamente seguir o modelo adotado por outras arenas. Para Ted Sartori, as reformas na Vila refletem um movimento curioso: ao mesmo tempo que moderniza alguns aspectos, o Santos adota mudanças que se afastam do padrão seguido por outras arenas. “O Santos vive um processo bem curioso com relação ao seu estádio. Se antes modernizava, agora moderniza em algumas partes, mas se torna mais antiquado, digamos assim, em outras”, comenta. 

*Imagem de capa: Lucas Alessandro Tobini Rigo/Wikimedia Commons

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