Por Mariana Pontes (mariana.kpontes@usp.br)
Dois meninos que encontram sua sobrevivência em meio aos lixões, uma mãe solteira vendedora de chá, um rastafári da resistência e um funcionário público são os protagonistas do longa-metragem Cartum (Khartoum, 2025).
O documentário, que foi vencedor do Prêmio da Paz no Festival de Berlim e está presente na 49ª Mostra Internacional de Cinema de SP, começou suas filmagens sobre o cotidiano dos personagens em Cartum, capital do Sudão, no ano de 2022, mas elas foram impactadas pela eclosão da guerra no país no ano seguinte.
Anas Saeed, Rawia Alhag, Ibrahim Snoopy e Timeea M. Ahmed são os quatro cineastas sudaneses que desenvolveram a produção, com a colaboração do diretor e roteirista Phil Cox. O que começou como uma captação de rua, logo se transformou em uma obra complexa e criativa, que serve de relato e denúncia.
Em 2021, o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido (FRS) trabalharam em conjunto para expulsar os políticos que assumiram o governo deposto do presidente Omar al Bashir. Entretanto, houve uma cisão após uma tentativa de integrar paramilitares ao Exército, plano de fundo para a Guerra Civil no país que persiste até hoje. O evento eclodiu no dia 15 de abril de 2023, e os impactos desse momento, assim como todos o que decorreu dele, são vistos nos olhos e falas dos documentados.
O documentário mescla as imagens captadas antes e depois do conflito com efeitos visuais a partir de seus relatos e reencenações. As histórias refletem as dificuldades vividas mesmo antes do conflito se estabelecer. Junto com elas, existe o medo por si próprio e por seus entes queridos, os sonhos individuais e de uma Cartum melhor, assim como a vontade de contar isso para o mundo.

Durante todo o longa, existem vários momentos que revelam o “por trás das cenas”, o que é essencial para apresentar o recurso do chroma key, fundo verde em português, no qual cenas marcantes do momento de início da guerra são revividas. Os sudaneses narram o cenário, que é reconstruído com chroma key, e os relatos do episódio.
No início, contam o que aconteceu e os outros participantes repetem as falas, tornando-se os outros personagens e reconstruindo a cena. Entretanto, ao longo do tempo, esse cenário de clara atuação posterior do evento se tornava em uma representação muito semelhante de uma cena real — sem as direções de quem está contando o evento.
Cartum traz um relato cru da vivência de suas figuras, retratando as dores e medos de cada um deles de maneira realista — o que aproxima o público de suas histórias e humaniza os protagonistas. Além das representações, as entrevistas coletadas nos ambientes frequentados pelos personagens criam uma diversidade de perspectivas sobre a situação do país.
Além do que foi reproduzido no estúdio, as imagens captadas após a migração são breves e servem para pincelar um pequeno retrato de seu novo dia a dia, como uma esperança que surge de uma vida melhor e de, talvez, retornar um dia para Cartum. Elas também relembram a plateia de que, além dos cinco indivíduos que aparecem na tela do cinema, existem cerca de 50 milhões de habitantes no Sudão que ainda vivem sob condições precárias de uma guerra civil.
Intercalado com tudo isso, também existem as filmagens do começo do projeto, antes de abril de 2023. As pessoas que participavam da rotina dos personagens entram nas cenas, até mesmo compartilhando pontos de vista. O chá de Khadmallah era frequentado por clientes fiéis; outros meninos corriam pela cidade com Wilson e Lokain; os amigos de Majdi falavam sobre pombos; e a moto de Jawad levava quem precisasse nos dias de manifestações.

Porém, a apresentação de momentos culturais ou a narração de memórias que não estavam diretamente relacionadas à guerra, embora ricas, podem confundir o eixo narrativo. O documentário tenta abranger muitas perspectivas do Sudão, mas delimitar o foco dele — tanto a guerra, ou a vida dos personagens, ou a relação deles com o conflito — facilitaria que o público acompanhasse o filme e não abriria tantas portas para somente algumas serem exploradas.
Algumas imagens oníricas retratam esses desejos, destacando-se Majdi voando em um pombo pela cidade e fumando seu narguilé. Os fundos feitos a partir do chroma key variam de animações para os desenhos feitos pelos meninos, mas quando se aproximam muito da realidade parecem uma imagem de qualidade ruim e chamam mais atenção do que a cena em si.
A escolha de manter esse recurso ao longo do longa-metragem lhe dá uma forte característica e um diferencial positivo. Exatamente por isso, as entrevistas feitas com somente a voz dos protagonistas têm a mesma importância.
Os personagens apresentam uma Cartum “deles”, não do exército ou FRS, com o qual sonham em se concretizar. A esperança que o filme dá de um futuro melhor é quase suficiente para que a plateia se agarre nela e creia de verdade, especialmente com o início dos créditos que, na maioria das vezes, trazem uma conquista do personagem e ainda um desejo metafórico para um amanhã que ainda irá se concretizar.

Esse filme faz parte da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira no site oficial as sessões disponíveis. Para mais resenhas do festival, clique na tag no começo do texto.
Confira o trailer:
*Imagem da capa: Reprodução/TMDb
