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Como a ciência pode ajudar na investigação de crimes?

Física forense foi tema de palestra ministrada por perita criminal no Instituto Principia
Por Marimel Feitosa (marimel.afeitosa@usp.br)

A palestra Física Forense: a ciência por trás da perícia criminal aconteceu no Instituto Principia, localizado na capital paulista, no dia 16 de agosto. A palestrante e perita criminal Monica Midori deu exemplos de aplicação da física na sua profissão, mostrou fotografias inéditas do laboratório do Núcleo de Física da Polícia Científica de São Paulo e debateu sobre história da criminalística, bancos de dados de DNA e hipnose forense.

Peritos criminais são profissionais concursados pela Polícia Científica, responsáveis por usar a ciência para analisar vestígios de locais de crime. Quando uma área científica é aplicada na investigação criminal, ela é chamada de forense. Toda a análise e os experimentos feitos pelos peritos são documentados no laudo pericial.

A palestra de Monica fez parte do projeto Física para Todos, feito em parceria com o Instituto de Física da USP (IFUSP). Mensalmente, o Instituto Principia recebe um palestrante e experimentos interativos de física realizados pelo Laboratório de Demonstrações do IFUSP.

Os experimentos demonstrados foram sobre óptica (campo da física que estuda a luz) e mecânica (área da física que estuda os movimentos) [Imagem: Marimel Feitosa / Acervo Pessoal]

A ciência estudando o crime

Balística e padrões de mancha de sangue são algumas das aplicações da física no campo forense. Monica comentou que a balística não se preocupa apenas com o projétil que foi disparado pela arma, pois o estojo e a análise das marcas de tiro também são importantes. “Quando a gente dá um tiro com uma pistola, o projétil sai pelo cano, pela parte da frente, e o estojo pula para fora”, explica. De acordo com a posição do estojo, pode-se determinar a localização do atirador no momento do tiro.

A trajetória do estojo varia de pistola para pistola [Imagem: José Reynaldo da Fonseca / Wikimedia Commons]

Com base no formato das fraturas de um vidro baleado, pode-se concluir qual tiro foi dado primeiro e se os projéteis foram atirados de dentro ou de fora do lugar em questão. Medindo a inclinação da marca de um disparo na lataria de um carro, é possível verificar se ele foi efetuado com o veículo parado ou em movimento.

Padrões de mancha de sangue são determinados por meio do estudo geométrico do formato das manchas de sangue deixadas no local. Elas indicam a posição das pessoas envolvidas e a dinâmica dos fatos que ocorreram.

Em entrevista ao Laboratório, Monica explica que a perícia criminal usa a física para  “conseguir interpretar todos esses vestígios e reconstruir [o que aconteceu na cena de crime]”. Ela afirmou que a física forense também pode ser usada para entender arrombamentos de portas e acidentes de trânsito.

A Polícia Científica paulista

A Polícia Científica de São Paulo é a única no Brasil com um Núcleo de Física, responsável por fazer testes laboratoriais, investigar microvestígios e desenvolver pesquisas. No laboratório, os peritos podem identificar materiais desconhecidos fazendo, por exemplo, testes de densidade e de resistência elétrica. Eles também podem verificar o limite de força que um material suporta por meio de ensaios de tração e de compressão

O Núcleo de Física conta, dentre outros equipamentos, com um microscópio capaz de produzir imagens de alta definição, chamado de microscópio eletrônico de varredura com espectroscopia de energia dispersiva. A espectroscopia dá ao microscópio a possibilidade de identificar a composição química das amostras.

Imagem de cristais de ferro obtida por um microscópio eletrônico de varredura [Imagem: Johnson Space Center / Wikimedia Commons]

Microvestígios são vestígios que admitem duas definições: são invisíveis ao olho nu ou são capazes de serem transferidos de um lugar para o outro sem as pessoas perceberem. Eles são encontrados no solo, na areia e na poeira. Pólen, algas, poluição humana e a própria composição do solo são alguns exemplos.

Monica afirmou que a Polícia Científica de SP possui um convênio com o IFUSP, por meio do qual são realizados estudos em microscopia eletrônica, resíduos de disparos de armas de fogo e microvestígios.

A Polícia Científica é dividida em dois setores: o Instituto Médico Legal (IML) e o Instituto de Criminalística. O IML é composto pelos médicos legistas e auxiliares de necrópsia. Mônica desmente o senso comum de que esse é um local dedicado apenas para exame de cadáveres: a maior parte das atividades do IML é conduzida em pessoas vivas. O órgão é responsável, além das necrópsias, pela realização de exames toxicológicos e de corpo de delito.

No Instituto de Criminalística, trabalham os peritos criminais que vão aos locais de crime e os que ficam nos laboratórios. 

Criminalística: só a palavra basta?

A criminologia é a área que estuda tanto os fatores psicológicos, psiquiátricos e sociais que levaram o criminoso a cometer o delito quanto o porquê da escolha da vítima. Já a criminalística usa as ciências forenses para estudar vestígios criminais. 

Segundo a palestrante, desde a Antiguidade, o Heptâmetro de Quintiliano era usado como forma de investigar crimes. Ele consiste em responder a sete perguntas: “O que aconteceu? Quem são os envolvidos? Quando? Onde? Como? Por qual motivo? Com que meios?”.

Porém, até o século XIX, a investigação era baseada apenas no relato das pessoas. Hans Gross, jurista austríaco, mudou esse cenário e redigiu um manual propondo maneiras de utilizar a ciência para analisar crimes e reconstruir o que teria acontecido sem depender dos testemunhos possivelmente falsos e incompletos. Hans criou o termo “criminalística”.

Posteriormente, o francês Edmond Locard fundou o primeiro laboratório forense. Ele criou também o princípio de que “todo contato deixa uma marca”, que orienta a criminalística até hoje.

Respondendo perguntas: desaparecidos e hipnotizados

No final do evento, a perita respondeu as dúvidas do público. Monica ressaltou que no Brasil existem dois bancos de DNA cujos dados não conversam: o criminal e o civil. Quando o DNA de um criminoso é encontrado em cenas de crime, ele vai para o banco criminal. Em casos de teste de paternidade e de doação voluntária em casos de desaparecimento, ele vai para o banco civil. 

Quando uma pessoa desaparece, um parente próximo pode colocar o próprio DNA no banco civil. Também é possível fornecer vestígios genéticos da pessoa desaparecida, que podem estar, por exemplo, em uma escova de dentes usada. Após a coleta, esse DNA é constantemente comparado com os dados do banco civil e, assim, é possível encontrar um ente desaparecido ou o seu corpo. 

Mais informações sobre a doação voluntária de DNA para familiares de desaparecidos podem ser encontradas aqui. No estado de São Paulo, o agendamento dessa coleta pode ser feito neste link.

A palestrante também comentou sobre a astronomia e a hipnose forenses. Se alguém, por exemplo, alegar que um acidente de trânsito ocorreu porque o sol estava cegando a visão ou porque a noite estava pouco iluminada, a astronomia forense é aplicada para verificar as condições do céu na hora da ocorrência. 

Já a validade do uso da hipnose varia conforme a legislação de cada estado. Ela é aplicada em vítimas ou testemunhas que, devido a um trauma psicológico, não conseguem se lembrar do crime. O procedimento é feito voluntariamente e ajuda pessoas a elaborarem um depoimento. O Instituto de Criminalística do Paraná é o único na América Latina com um laboratório de hipnose.

O Instituto Principia

Local da palestra fica próximo da estação do metrô Trianon-Masp, na Avenida Paulista [Imagem: Marimel Feitosa / Acervo Pessoal]

O Instituto Principia é uma fundação sem fins lucrativos voltada para educação, pesquisa e divulgação científica. Ele possui uma Escola de Talentos para jovens com altas habilidades e sedia eventos internacionais de pesquisa. O ingresso para as atividades de difusão científica é gratuito e pode ser adquirido aqui.

*Imagem de capa: Arquivo Pessoal/Marimel Feitosa

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