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Crônica | Nunca se esqueça de sonhar

Depois de um dia importante, uma jovem reflete sobre os acontecimentos que lhe deram força para lutar por seus sonhos
Por Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br)

Algumas memórias tornam-se nebulosas ao longo do tempo, mas ainda me lembro perfeitamente do dia em que minha avó cortou o cabo da televisão com a tesoura da cozinha.

Foi em um dia chuvoso de março, quando eu ainda tinha 11 anos, um terreno fértil na mente e aquela sensação incômoda de não pertencer a lugar nenhum. Meus dedos percorriam as gotas que escorriam pelo vidro das janelas como lágrimas, enquanto eu fingia ser uma das filhas escondidas de Poseidon. Era fácil falar sozinha e inventar diálogos com um sátiro inexistente, depois de quase uma hora acompanhando em silêncio os passos de Percy Jackson do outro lado da tela da TV.

Já havia se passado metade do filme quando ela se aproximou. Eu estava distraída demais para perceber o golpe a tempo de desviar, e precisei firmar as mãos no braço do sofá para não tombar com o tapa na nuca. 

— Eu já não te disse que não aceito esse tipo de coisa dentro da minha casa, menina? — Vovó gritou, com aquela voz rígida de sempre — Espero que o Senhor poupe a sua alma, mesmo com toda essa falta de vergonha.

Olhei uma última vez para a corrida das gotas de chuva antes de abraçar minhas próprias pernas, encolhendo-me como uma bola. Vovó saiu bufando pela porta da sala, e não tardou a voltar com algo afiado nas mãos.

— O que é que você está fazendo, Neide? – Perguntou vovô ao correr pela porta, com a respiração acelerada e as mãos sujas de graxa. Sempre que a ouvia gritando, ele dizia a mesma coisa: o que é que você está fazendo? 

— Não me venha com essa cara, Nelson. Pergunte para a sua neta por que ela estava assistindo a uma criatura com chifres e patas de bode roubando crianças de seus pais! — Vovô ficou paralisado enquanto ela gesticulava com a ponta da tesoura em sua direção — Eu já fui paciente demais ao deixar passar quando ela ficou obcecada por aqueles filmes de meninos fazendo bruxarias. Francamente, não sei como você não percebe o trabalho demoníaco por trás dessas porcarias. Mas vou acabar com isso, juro que vou.

O fundo dos meus olhos ardeu quando ela passou a desencapar e roer o fio que conectava a televisão à energia por entre as lâminas da tesoura. A imagem na tela piscou uma última vez antes de se apagar, e foi o suficiente para me fazer correr até meu quarto. Quando os gritos ficaram mais altos lá embaixo, respirei fundo e fiz a mim mesma aquela única pergunta que vinha se repetindo na minha mente ao longo dos últimos dias: o que Annabeth Chase faria?

Não me leve a mal. É preciso ter um fio ao qual se agarrar quando se está sozinha no mundo e, para mim, esses fios sempre foram os meus personagens preferidos. Toda vez que os via na tela, sentia como se estivesse frente a frente com um punhado de grandes amigos. Mas, daquele momento em diante, tudo estaria acabado.

Eu era uma criança orgulhosa naquela época, e odiei cada uma das lágrimas que vieram. Hoje, já não me culpo por chorar. 

Parada em frente ao túmulo de meu avô, nem sequer me preocupo em esconder o pranto que escorre pelas maçãs do rosto e salga o canto dos lábios. Agora sei muito bem que o ser humano tem mil razões para chorar, e nem todas elas são ruins.

Algumas memórias tornam-se nebulosas ao longo do tempo, mas ainda me lembro perfeitamente do dia em que ele bateu na porta do meu quarto, menos de uma semana depois do incidente com os fios da televisão. Quando girei a maçaneta com um rangido, não encontrei nenhum sinal do homem grisalho. Só havia uma pilha de pacotes no chão, e nada mais. 

No topo, um bilhete: “Para a minha pequena heroína. Nunca se esqueça de sonhar.”

Demorei um tempo para abrir cada um dos papéis de presente. Naquele dia, não odiei as lágrimas, que caíram logo após o segundo pacote. Eu descobri que a gente também chora quando o amor não cabe no peito e precisa de um lugar para transbordar.

Sentada no chão do quarto, solucei enquanto lia e relia os títulos dos inúmeros DVDs que tinha ganhado de presente, junto com um notebook que me permitiria assisti-los a qualquer momento. Mesmo sem nunca ter ido a um cinema na vida, meu avô acolheu a minha maior paixão e me presenteou com mundos mágicos e companhias improváveis.

Enquanto crescia com ele, aproveitei cada fração de segundos para criar novas versões de mim. Queria ser inteligente como Hermione, corajosa como Katniss Everdeen e viver um amor intenso como Hazel em A Culpa é das Estrelas. Quando a solidão e o peso do mundo pareciam sufocantes, eu sempre tinha um refúgio seguro a uma tela de distância. 

De volta ao presente, estico a mão e coloco as flores coloridas sobre a lápide. Por trás do cimento frio, quase posso vê-lo. Se hoje vivo em um mundo feito de sonhos, é somente porque ele me apresentou aos universos que me ensinaram a sonhar.

Quando suspiro, o ar frio da noite condensa meu hálito em uma pequena nuvem de fumaça. Queria que meu avô soubesse que me formei na faculdade de cinema essa noite. Queria que soubesse que a minha paixão incendiosa por tudo que envolve a sétima arte só floresceu porque ele me ajudou a cultivar uma brasa no tempo certo. 

Queria que soubesse de tantas coisas.

Mas, na ausência de certezas, prefiro sonhar que ele sabe de tudo.

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