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Saúde mental animal: como identificar e prevenir transtornos psicológicos em pets

Especialistas mostram como mudanças na rotina, no ambiente e na atitude do tutor podem evitar quadros de ansiedade e depressão em cães e gatos
Em imagem ilustrativa terapeuta conversa com cachorro deitado em um divã, como em uma sessão de terapia.
Amanda Yoshizaki (amanda.yoshizaki@usp.br)

Depressão, ansiedade, fobias e traumas em animais são reais, embora ainda pouco reconhecidos por tutores. Estudos recentes e relatos de veterinários comportamentalistas mostram que diversas espécies podem sofrer emocionalmente e manifestar sinais claros de adoecimento.

A falta de informação faz com que sintomas sejam confundidos com desobediência ou agitação natural. Dormir o dia todo, evitar brincadeiras e até se recusar a comer podem ser sinais que indicam que o pet sofre com transtornos psicológicos, condições cada vez mais observadas em animais domésticos e em cativeiro. 

Identificação dos sinais

Mudanças de comportamento são um sinal de alerta. Elas são a forma que o animal possui de comunicar que algo não está bem. Seja por  indícios de agressividade, apatia ou de ansiedade, caracterizada por euforia ou incapacidade de relaxar. 

O psiquiatra veterinário Luiz Fernando Martins descreve que sinais como recusa em comer, isolamento, apatia e medo generalizado indicam sofrimento emocional. O profissional relata casos de animais traumatizados que pararam de interagir com o ambiente e permaneceram sem comer, beber ou reagir, o que configura um quadro extremo de retração comportamental.

“Alterações de rotina sempre merecem investigação profissional”

Luiz Fernando Martins

A neurocientista Patrícia Ferreira Monticelli, professora de Psicobiologia da USP e especialista em etologia, explica que a ansiedade e a depressão em cães e gatos pode provocar alterações físicas — como a aceleração dos batimentos, tremores, ofegação — e mudanças comportamentais — como lambedura repetitiva, destruição de objetos, postura tensa e variações no apetite.

Martins diferencia comportamentos naturais de distúrbios psicológicos ao observar quando determinada ação perde sua função. O psiquiatra veterinário explica que a lambedura é comum, mas torna-se patológica quando o animal se machuca ou deixa de comer para continuar o comportamento compulsivo. “Quando a ação perde sua finalidade e se torna excessiva, repetitiva e descontrolada, ela passa a ser disfuncional” explica.

Cachorro na janela
Cães deprimidos costumam se isolar e podem até parar de comer. [Imagem:Reprodução/Freepik]

Segundo o psiquiatra veterinário, as manifestações variam conforme a espécie. Gatos expressam estresse por meio de problemas urinários psicogênicos, ou seja, doenças físicas que afetam o rim e que têm origem emocional. Aves ansiosas arrancam as próprias penas, enquanto cavalos desenvolvem comportamentos repetitivos como aerofagia, que consiste no ato de engolir ar repetidamente e em excesso. Em zoológicos, é comum observar movimentos incessantes, como andar de um lado para o outro, causados por confinamento e falta de estímulo.

Causas: Do ambiente até a genética

Segundo Martins, a principal origem dos transtornos está na falta de estímulos e de rotina. “O cachorro precisa ser cachorro, precisa correr, rolar na grama, cavar, roer. Quando ele é privado desses comportamentos naturais, o corpo e a mente adoecem”, afirma. O mesmo vale para gatos, que precisam explorar, caçar e brincar. Em lares com a ausência dessas atividades, os animais podem ficar entediados e frustrados.

“Quando um animal é muito suprimido e não consegue manifestar seus comportamentos, naturalmente, isso pode gerar um transtorno”

Luiz Fernando Martins

A epigenética, ciência que estuda como o ambiente altera a expressão dos genes, explica que filhotes de mães estressadas durante a gestação nascem mais ansiosos. A separação precoce da ninhada é outro agravante: “Filhotes vendidos muito cedo, antes dos 80 dias, tendem a ser mais ansiosos, porque perdem o vínculo materno e o aprendizado social essencial”, alerta Luiz Fernando Martins,  psiquiatra veterinário.

Dois filhotes de cachorro
Filhotes expostos ao estresse, como separação precoce da mãe ou ambientes barulhentos, têm maior risco de desenvolver ansiedade e fobias na vida adulta. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

A ansiedade e a depressão em cães e gatos estão ligadas ao funcionamento do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), o mesmo sistema biológico que regula o estresse em humanos. Quando o animal enfrenta uma situação que rompe seu equilíbrio emocional, esse eixo libera hormônios, como o cortisol, que atuam no cérebro preparando o organismo para reagir.

Monticelli explica que, quando a liberação de hormônios do estresse se mantém por longos períodos, a funcionalidade cerebral pode ser alterada, afetando neurotransmissores, como serotonina e acetilcolina, fundamentais para a regulação emocional. Além disso, regiões do cérebro como a amígdala, responsável pelo processamento do medo, podem permanecer hiperativadas, mesmo após o fim do estímulo estressor, o que favorece o desenvolvimento de quadros crônicos de ansiedade e depressão.

A influência do tutor

Ainda, a interação emocional entre tutor e pet tem base fisiológica. A neurocientista  conta que, quando o humano está estressado, ele libera cortisol.  animal, ao perceber isso, ajusta seu próprio eixo hormonal, entra no mesmo estado de hiperalerta e passa a reagir como se também estivesse em risco. 

Tal espelhamento fisiológico ocorre mesmo sem contato direto: voz alterada, passos apressados, respiração acelerada e rotina caótica são suficientes para sinalizar ao pet que algo está errado. Em lares onde há conflitos constantes, barulho excessivo ou imprevisibilidade, os animais tendem a apresentar comportamentos de ansiedade, como ofegação, tremores, lambedura compulsiva e dificuldade de relaxar.

Crianças brincando com animal como forma de cuidado em favor da saúde mental
Cães podem ser  reflexos dos donos, pessoas e pets compartilham traços de personalidade e hábitos semelhantes. [Imagem: Autor da Reprodução/Freepik]

A comportamentalista Ana Alice Vercesi acrescenta que muitos tutores contribuem para o agravamento dos sintomas ao interpretar hábitos ansiosos como “birra” ou “vontade de chamar atenção”. Ela explica que, ao brigar com o cão por destruir objetos ou fazer suas necessidades fora do lugar, o humano apenas intensifica o quadro. Para Vercesi, a postura do responsável deve ser de acolhimento, observação e busca de ajuda profissional, nunca punição.

“O humano é o único animal que faz birra. Quando um pet muda o comportamento, é porque algo está acontecendo, repreender só aumenta o estresse”

Ana Alice Vercesi

Essa influência também está presente quando o tutor confunde necessidades humanas com necessidades da espécie. “O animal não precisa de perfume, acessórios ou colo o dia inteiro, ele precisa de descanso, previsibilidade e oportunidade de ser o que é”, afirma Luiz Fernando Martins ao destacar que a humanização excessiva pode dessensibilizar comportamentos naturais e desencadear ansiedade.

Tratamento e prevenção

O tratamento dos transtornos psicológicos em animais começa, segundo o psiquiatra veterinário, pelo ajuste do ambiente. Ele explica que nenhum treino ou medicação funciona quando o cotidiano do animal é desorganizado, imprevisível ou estressante. Rotina estável, oportunidades de descanso e atividades adequadas à espécie compõem o primeiro pilar do tratamento. O manejo ambiental envolve reorganizar alimentação, passeios, estímulos e a dinâmica familiar, criando condições para que o pet volte a se equilibrar emocionalmente.

“Se o ambiente está tóxico para o animal, não há remédio que resolva”

Luiz Fernando Martins

O segundo pilar é o adestramento baseado em comunicação, reforço positivo e nunca em coerção. A especialista em comportamento animal ressalta que punições podem prejudicar o vínculo e agravar quadros de ansiedade. Para Vercesi, treinos eficazes preservam o bem-estar, ensinam repertórios novos e permitem que o tutor compreenda a forma como o animal se comunica.

O adestramento punitivo, baseado em dor ou medo, é apontado como um dos principais agravantes dos transtornos psicológicos em animais. O psiquiatra veterinário alerta que técnicas, como o uso de colares de choque, podem silenciar comportamentos, como o latido, mas não tratam a causa emocional do problema. Consequentemente , a ansiedade permanece ativa e pode se manifestar de outras maneiras . Além de ineficaz a longo prazo, esse método aumenta o estresse e pode desencadear novos distúrbios comportamentais.

“Dê preferência a profissionais que priorizem o bem-estar animal”

 Patrícia Monticelli

A medicação, quando indicada, entra como apoio. Ela ajuda a estabilizar o estado emocional do pet para que ele consiga responder melhor às mudanças ambientais e aos treinos. O psiquiatra veterinário menciona que muitos animais chegam à clínica com dor ou doenças que agravam sintomas de ansiedade, por isso, as abordagens farmacológicas fazem parte de um plano multifatorial e apenas são prescritas quando o manejo e o treinamento não são suficientes.

Animal sendo medicado para tratar possível transtorno mental
Qualquer medicação deve ser indicada por um médico veterinário. O uso de remédios para ansiedade ou depressão sem avaliação pode causar impactos negativos.  [Imagem: Autor da Reprodução/Freepik]

As terapias complementares ganham destaque no cuidado com a saúde mental dos animais. Vercesi, comportamentalista, explica que o enriquecimento ambiental e a musicoterapia já são reconhecidos como ferramentas importantes para o bem-estar, pois estimulam comportamentos naturais e favorecem a liberação de substâncias ligadas ao equilíbrio emocional. A feromonioterapia, com difusores e sprays que imitam substâncias naturais liberadas pelas mães, ajuda a induzir sensações de conforto e segurança.

Monticelli, especialista em etologia, reforça que esses recursos devem ser usados com responsabilidade e sempre respeitando a sensibilidade dos animais. Estratégias como massagens, playlists específicas para cães e gatos e o uso de fitoterápicos, como o CBD, aparecem como aliadas no controle da ansiedade, desde que acompanhadas por profissionais qualificados.

A saúde mental dos animais ainda é tabu?

Para o psiquiatra veterinário, o maior desafio dos transtornos psicológicos em animais é o desconhecimento. “Muitos tutores não sabem que o pet pode adoecer emocionalmente, acreditam que latir ou destruir objetos é apenas desobediência, quando na verdade é um pedido de ajuda”. Para Martins, esse olhar equivocado atrasa diagnósticos e faz com que muitos animais convivam com o sofrimento por longos períodos.

“Saúde mental é parte do bem-estar, não só dos humanos, mas de todos os seres sencientes”

Luiz Fernando Martins

Vercesi  ressalta que parte do tabu vem da falsa ideia de que só existe sofrimento quando há dor física. Como o animal não verbaliza, seus sinais emocionais acabam sendo desvalorizados. Sendo assim, quando o problema atinge o tutor, como nos casos de destruição da casa ou agressividade, a solução buscada, muitas vezes, é a punição, e não o tratamento.

Animal apresentando possíveis sinais de alerta para saúde mental
Gatos ansiosos costumam apresentar isolamento, automutilação, postura tensa e abandono da caixa de areia. [Imagem: Autor da Reprodução/Freepik]

Para a neurocientista Monticelli, o tabu começa a ser quebrado à medida que a informação chega aos tutores e que o atendimento comportamental se torna mais acessível. 

A pesquisadora afirma que o crescimento da procura por terapias, enriquecimento ambiental e acompanhamento profissional mostra que mais pessoas estão entendendo que saúde não é apenas ausência de doença física. Reconhecer que animais também adoecem emocionalmente é um passo fundamental para garantir qualidade de vida, bem-estar e relações mais equilibradas entre tutores e pets.

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