Por Raí Carvalhal (raicarvalhal@usp.br)
No segundo dia das 9ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos (HQ’s), as mesas deram continuidade às apresentações de pesquisas divididas entre os mesmos eixos temáticos do primeiro dia. Foram cinco sessões no primeiro horário e mais seis após o intervalo.
O evento contou com participantes interessados nos assuntos abordados. Parte do público acompanhou todos os dias do evento, porém, durante as mesas, alguns participantes revelaram ter ido especificamente para a sessão que assistiram.
O evento atraiu muitos amantes de quadrinhos, com maioria relacionada a fins acadêmicos: plateias estavam repletas de professores assistindo a apresentação de seus alunos e pesquisadores de quadrinhos buscando material para suas próprias teses.
Ficção e super-heróis nas HQ’s
Dentro do mundo dos quadrinhos, os super-heróis costumam contar com muitos fãs. A partir da década de 1930, a indústria do entretenimento estadunidense apresentou as revistas de aventuras de heróis para o mundo e, desde então, ficções da Marvel Comics e DC Comics atraem leitores de várias idades. Na sessão temática 14, a quinta mesa de Quadrinhos, Linguagem e Narratividade contou com a presença de fãs desse conteúdo.

[Imagem: Acervo pessoal/ Raí Carvalhal]
A mesa começou com apresentação de Lielson Zeni, doutorando em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Gabriel Lucas Martins Cavalcante, seu orientando, sobre os aspectos do cotidiano no quadrinho da personagem Senhor Milagre. A pesquisa mostrou a importância de cenas rotineiras e comuns ao dia a dia para aproximar a história dos heróis à realidade do leitor.
Cavalcante fez seu segundo discurso analisando a construção do autor de quadrinhos usando também como base o Senhor Milagre. Os recortes das HQ’s serviram de base para que ele apresentasse a construção dos autores expressa na obra e o papel deles na produção desse material.
A pesquisadora Thaís da Silva Tenório apresentou o tema “De realidades despedaçadas a ambições descontroladas: mulheres e poder no universo Marvel”. A discussão abordou diversas problemáticas no desenvolvimento da trama de personagens femininas nos quadrinhos. Dando como exemplo a Feiticeira Escarlate, a tese defende que é imposta para essas personagens uma condição emocional associada ao papel materno. De acordo com Thaís, as mulheres desse universo acabam condicionadas a ocupar um espaço que a sociedade enxerga como inseparável à concepção do gênero feminino.
Por fim, o debatedor Nataniel dos Santos Gomes fechou a mesa com a apresentação “The Uncanny X-Men: uma jornada pela etimologia do epíteto dos heróis mutantes e sua relação com o queer“. Ao analisar a trama dos mutantes como seres excluídos pela sociedade por suas diferenças, ele faz um paralelo com as lutas por emancipação de grupos oprimidos na sociedade moderna.
Além de lembrar o contexto do movimento negro em que os quadrinhos dos X-man atravessaram, o debatedor se extende para relacionar essas histórias com a identidade queer. O termo queer pode ser traduzido do inglês como “esquisito” e foi usado de forma pejorativa contra grupos cujas identidades de gênero ou orientações sexuais fogem às normas cis-heteronormativas. Atualmente, o termo foi apropriado e ressignificado pela comunidade LGBTQIA+ como símbolo de orgulho e autoafirmação.

Análise quadrinística
Após o intervalo, a sétima mesa de Quadrinhos: Linguagem e Narratividade trouxe uma análise voltada para a produção quadrinística. O primeiro a apresentar foi o próprio Lielson Zeni, que trouxe um resgate histórico do surgimento dos quadrinhos brasileiros no século 19. Ele defendeu que, para além do surgimento da primeira obra, é preciso buscar a partir de que momento passou a existir um sistema desse estilo que envolve todo o meio de produção dos quadrinhos.
Já o segundo tema buscou expor os desafios para se criar uma teoria geral dos gêneros quadrinísticos. Lucas Piter Alves Costa, pós-doutorando em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), fez um panorama dos mais diversos tipos de obras enquanto questionava se elas se enquadram em um mesmo gênero de quadrinho. “Charges são quadrinhos?”, “Qual é o limite das montagens?”, “Basta ter balão de fala?” e “Pode ser feito por Inteligência Artificial?” foram alguns dos questionamentos do apresentador que não houveram resposta, já que a ideia era despertar a discussão.
A última apresentação ficou por conta do debatedor da mesa Ricardo Jorge de Lucena com sua pesquisa acerca do que ele chamou de “esquemas de superficialidade nos quadrinhos”. Assim como foi proposto antes por Lucas Piter, a ideia de Ricardo também foi de propor um debate sobre as definições do que é um quadrinho. Dentre as dificuldades na construção epistemológica dessa modalidade, ele destacou a ausência de um campo próprio para as obras do gênero, que acabam ocupando diversos papéis, desde ferramenta pedagógica até estudo linguístico.
*[Imagem de capa: Divulgação/9ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos]
