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Dia 04 | 9ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos: últimas mesas e legado da nona edição

Quarto e último dia das Jornadas encerra com mesas sobre representação feminina, adaptações e formatos de quadrinhos, enquanto participantes recordam mais um ano do encontro
Capas de histórias em quadrinhos
Por Catarina Martines (catarina.martines@usp.br) e Bernardo Medeiros (bernardo10medeiros@usp.br)

Na última sexta-feira, dia 22 de agosto, ocorreu o último dia das 9ªs Jornadas Internacionais de HIstórias em Quadrinhos. O evento, que aconteceu no prédio central da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), teve quatro dias de apresentações e mais de uma centena de pesquisas sobre quadrinhos.

Reconhecida como uma das maiores conferências sobre histórias em quadrinhos na América Latina, o último dia de evento contou com mesas sobre a presença feminina na mídia e diferentes adaptações e formatos dos quadrinhos. Os participantes recordam a nona edição do evento e vêem seu crescimento positivamente no mundo acadêmico.

A história delas

Uma das sessões temáticas de História e Sociedade teve como tema central as mulheres. Conduzida pela pesquisadora Sônia Bibe Luyten, foram apresentadas duas pesquisas sobre a representação feminina nos quadrinhos. O primeiro trabalho mostrado foi o das alunas Gabriela Foscarini Strassburger e Larissa Gabrieli Fonseca, que abordaram a representação feminina nos mangás durante a Segunda Guerra Mundial. As pesquisadoras fizeram uma análise do mangá shoujo — estilo de manga japonês focado para um público jovem feminino — Cocoon (Akita Shoten, 2010) da mangaká Kyō Machiko.

Um dos conceitos apresentados por Gabriela e Larissa foi o termo herstory. Elas explicam que esse termo foi criado como um contraponto à palavra em inglês history (história), que contém em sua grafia o prefixo “his” — associado ao pronome masculino “dele” em inglês. Já herstory substitui esse prefixo por “her”, pronome feminino “dela”, como forma de dar visibilidade à perspectiva das mulheres na construção da história e da memória no Japão.

Gabriel Luis Mais Nascimento foi o segundo a se apresentar. Seu trabalho girou em torno da trajetória editorial do quadrinista francês Hugo Pratt — reconhecido mundialmente pelo seu personagem, Corto Maltese, que foi o assunto de outras mesas durante a conferência. A apresentação teve foco “nos rastros das mulheres reais que compunham uma força de trabalho, muitas vezes invisível, nos quadrinhos do autor”. O estudo não se concentrou em aspectos técnicos e o foco de seus slides não eram desenhos, mas sim os rostos por trás da criação do famoso marinheiro francês.

Fotografia apresentada durante o evento. Nela há uma mulher sentada em uma cadeira com encosto arredondado e um homem ao seu olho, que olha para o chão
“Na foto conhecida é só ele que aparece, mas a imagem inteira é assim”, afirma Nascimento ao exibir a fotografia [Imagem: Acervo pessoal/Catarina Martines] 

Novos formatos: situacionistas, Instagram e jornalismo

Conduzida pelo professor Ciro Inácio Marcondes, doutor pela Universidade de Brasília (UnB), foram apresentadas quatro pesquisas na mesa diversa de Artes e Mídias. Uma delas explicada pelo próprio debatedor, sobre as adaptações audiovisuais de Alice no País das Maravilhas (Companhia Editora Nacional, 1931), de Lewis Carroll. Usando como base a obra homônima de Cecil Hepworth — um dos primeiros produtores do cinema britânico — ele analisou a influência dos quadrinhos de Sir John Tenniel, gravurista original da obra de Carroll, nas adaptações futuras para o cinema.

Inácio José de Araújo da Costa, doutorando em filosofia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), foi um participante inédito nas Jornadas. A sua pesquisa sobre os situacionistas, vanguarda artística europeia que alterava obras populares para propagar mensagens políticas, analisa a ação dos agitadores sobre os quadrinhos. “O uso dos quadrinhos como desvio não são esporádicos, mas constantes nas produções do grupo”, afirma.

Já Thiago Vasconcellos Modenesi, doutor em educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), analisou o uso da mídia popular para propagar os quadrinhos. Editor da obra Desenhos do Nando (Quadriculando, 2022), do chargista Nando Motta, ele se debruçou sobre a produção do artista durante o período pandêmico, em que postava charges diárias no Instagram. Modenesi questionou: “Qual o limite da graça?” e Qual o impacto que ela tem sobre as pessoas afetadas pelo covid-19?”. Além disso, reforçou o impacto que as próprias obras tiveram sobre Nando, que teve depressão durante o período.

A pesquisa que gerou mais debate foi de Marina Duarte, uma expoente do jornalismo em quadrinhos no Brasil. Seu trabalho foi feito em cima da própria obra, Vozes Invisíveis (Avuá Edições, 2025). Por meio dessa área de atuação da profissão, ela questiona se não é possível ser subjetiva e artística e questiona a quebra dos padrões tradicionais da imprensa. “O papel do jornalismo é trazer essas histórias à tona. A gente, no jornalismo em quadrinho, tem um olhar insubordinado”, esclarece.

Imagem da capa do livro "Vozes Invisíveis", de Marina Duarte. A capa tem tons azulados, com uma mulher que grita o título da obra e "RElatos de resistência LBT em Campo Grande (MS).
A reportagem em quadrinhos de Marina Duarte questiona o conservadorismo de sua cidade, Cuiabá, e retrata a resistência das vozes LBT [Imagem: Divulgação/Marina Duarte]

O fim e o começo das histórias

Como um espaço de encontro para pesquisadores da área, as Jornadas promovem a circulação de ideias, em um ambiente que permite a arte ser política, entretenimento ou puramente arte. 

Foram apresentados trabalhos sobre os mais variados temas, desde a história da Disney no Brasil até a representação de personagens LGBTQIA+ nos quadrinhos. Bernard Martoni, pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), participa desde 2017 das Jornadas, quando apresentou a sua primeira pesquisa no evento. Ele afirma que o evento mostra um lado positivo da cultura geek: a solidariedade. “Esse espaço em que é possível você falar sobre um objeto de tanto afeto, eu acho que é uma característica muito forte das jornadas”, explica.

Bernard Martoni, de camiseta preta, posa na frente do banner do evento.
Bernard Martoni participou como debatedor pela primeira vez neste ano, além de ter apresentado a sua pesquisa sobre Jimmy Corrigan e Edward Hopper [Imagem: Acervo Pessoal/Bernardo Medeiros]

Eduardo Zamariano Fanaia Teixeira, conhecido por Zafate, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (UFG), veio ao evento junto de um grupo de pesquisa de sua universidade, o Cria_Ciber, e participou pela segunda vez do evento. “Esse meu projeto de mestrado veio de uma conversa que aconteceu nas 8ªs Jornadas, em uma sessão de perguntas e respostas”, afirma. Ele complementa: “É um evento sensacional e eu quero continuar vindo enquanto continuar.” Sua colega, Duane Ribeiro, que também se apresentou no evento, é a primeira pessoa do país a fazer uma dissertação de mestrado feita inteiramente em quadrinhos, sem nenhum texto para acompanhar a produção.

Cento e setenta e dois trabalhos foram apresentados durante a semana das 9ªs Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos. As pesquisas poderão ser revisitadas na revista 9ª Arte, periódico científico do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, com o objetivo de compor um arquivo dedicado ao evento.


*[Imagem de capa: Acervo pessoal/Catarina Martines]

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