Por Laura Roson (lauraroson@usp.br)
A América Latina é uma região vasta, tanto territorialmente, quanto culturalmente. Por isso, alguns podem argumentar que a única coisa que une os países e povos agrupados por essa subdivisão seja apenas o passado colonial e as violências perpetradas por ele através dos séculos.
Fato é que as particularidades históricas, econômicas e políticas — muitas delas adquiridas como herança da colonização espanhola e portuguesa — moldaram a forma com a qual os latino-americanos reproduzem a vida e, com ela, a arte.
Dessa forma, a representação da transgeneridade e da travestilidade no cinema latino-americano acaba constituindo um fenômeno único, ainda pouco estudado e documentado, que reflete a maneira como os latinos, em sua pluralidade de fenótipos, culturas, crenças e traumas coloniais lidam com as suas questões de gênero e sexualidade.
Em entrevista ao Cinéfilos, Gabrielle Weber, travesti, ativista e professora da Escola de Engenharia de Lorena da USP, conta que não costuma consumir muito o audiovisual latino-americano por não se sentir representada. Esse sentimento acaba sendo frequente entre a comunidade por uma série motivos, como por exemplo os estereótipos negativos associados a esse grupo social perpetuados pelo cinema e pela televisão ao longo da história do mass media.
As pessoas trans existem!
Definir o que significa ser uma pessoa transgênero pode ser algo bastante complexo. Indivíduos que não se identificam, em graus diferentes, com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero que lhes foi determinado quando de seu nascimento formam um grupo diverso, que acaba sendo abraçado pelo termo “guarda-chuva” trans, o “T” da grande sigla.
Embora a definição de transgeneridade se mostre complexa e multifacetada, as pessoas que a vivenciam sempre existiram. A palavra “sempre” talvez seja imprecisa, mas é fato que, desde que os conceitos de “família” e “patriarcado” foram trazidos para o Novo Mundo pelo homem branco e impostos de forma violenta aos indígenas que já habitavam o que hoje se conhece por América, já havia quem os desafiasse.

Um exemplo desse tipo de resistência é Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil, que teve sua identidade resgatada apenas no final do século XX. Tendo as pessoas trans “sempre” existido e os debates acerca da transgeneridade e da travestilidade ganhado destaque na sociedade ao longo dos anos, o audiovisual acaba atuando como uma forma e um espaço de visibilidade ao abordar as vivências dessa comunidade.
De acordo com o relatório divulgado pelo Trans Murder Monitoring, projeto de pesquisa realizado pelo TGEU (Transgender Europe), cerca de 70% dos assassinatos de pessoas trans no mundo em 2024 ocorreram em países da América Latina e Caribe. Levando em consideração os números absolutos do início da pesquisa, em 2008, até setembro de 2024, o Brasil lidera com folga o ranking, com 1.947 dos 5.040 assassinatos documentados na série histórica. Países como México (772), Estados Unidos (447), Colômbia (279), Venezuela (138) e Argentina (127) também aparecem em destaque no mapa.
Tendo em vista o cenário de violência ao qual a população trans é submetida e realizando um recorte para a realidade latino-americana, a indústria cinematográfica desses países acaba desempenhando um papel importante na luta das pessoas transgênero por direitos institucionais e contra o preconceito da sociedade em geral.
O cinema como possível aliado
Os filmes podem servir como uma maneira de abordar temas complexos, adaptando-os a uma linguagem mais acessível para o público mais amplo. O cinema, como um todo, permite ao telespectador se afastar de preconceitos prévios e mergulhar no universo particular da narrativa retratada, e pode, com isso, afeiçoar-se aos personagens e as suas trajetórias de conflitos e conquistas.

Dessa forma, o universo da transgeneridade enfrenta um cotidiano de apagamento e segregação da vida social que muitas vezes acaba passando despercebido pelas narrativas dominantes da grande mídia. Isso tudo se choca com a realidade do espectador cisgênero, gerando empatia, afinidade e humanização.
A produção audiovisual é um reflexo das forças sociais que estão constantemente em embate. A quantidade de obras que abordam as vivências das pessoas transgênero aumentou exponencialmente nos últimos 30 anos, à medida que a luta do grupo por reconhecimento também avançou durante o mesmo período.
A representação das pessoas trans nas telonas ao longo do tempo também contou com erros e acertos. Como um espelho das lutas sociais travadas pela comunidade como um todo, alguns longas que abordam a temática transgênero retratam estereótipos violentos e ultrapassados, que são superados conforme os debates avançavam no plano da realidade.
Mais do que dar visibilidade à causa, é preciso analisar as obras criticamente para que o cinema possa de fato contribuir com a luta da população transexual por emancipação.
‘Emilia Pérez’: um exemplo do que não fazer
No filme Emilia Pérez (2024), é narrada a história da chefe do cartel mexicano “Manitas” (Karla Sofía Gascón), designada homem ao nascer e que, com a ajuda da advogada Rita (Zoe Saldaña), passa por procedimentos de redesignação de gênero para afirmar sua identidade e fugir das autoridades.
Aposentada de seus negócios e forjando sua própria morte, ela adota para si o nome de Emilia Perez, que dá nome ao longa, para poder se tornar a mulher que sempre sonhou em ser.

A ficção foi aclamada pela crítica especializada, chegando a vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e um BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Além disso, rendeu diversas premiações ao seu diretor, Jacques Audiard, e às suas atrizes principais.
Contudo, a recepção de Emilia Pérez pelo público geral, especialmente pelos mexicanos e pela comunidade LGBTQIA+ foi muito diferente. A obra foi amplamente rechaçada por reforçar estereótipos negativos sobre a população trans, como, por exemplo, a sua associação ao crime.
Ao simplificar a transição de gênero, a narrativa acaba tratando-a sob um viés maniqueísta, em que um homem, masculinizado e perigoso, se torna uma mulher doce e sensível às causas sociais, utilizando o processo, já tão estigmatizado, como uma espécie de “redenção moral”.
Segundo Paul B. Preciado, intelectual espanhol renomado por seus estudos nos campos das políticas do corpo, gênero e sexualidade, o longa “perpetua uma visão psicopatológica da transição de gênero, baseada em quatro premissas: criminalização, exotização etnográfica, representação médica-cirúrgica da transição de gênero e assassinato”. Preciado ainda completa: “E esse último não é um um spoiler. Todos os filmes normativos sobre pessoas trans acabam matando o protagonista.”

Mesmo com as possíveis boas intenções da produção por trás de Emilia Pérez, a obra se tornou um mau exemplo. Não basta apenas a escalação de uma pessoa transgênero para retratar temáticas e assuntos que lhe sejam familiares, mas é preciso, também, se atentar ao tipo de narrativa que está se constrói, para que não sejam reforçados estigmas que apenas prejudicam a luta de quem já está na base da pirâmide social.
Uma mulher trans no tapete vermelho
Dirigido por Sebastián Lelio, o filme Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica, 2017) retrata a história de Marina (Daniela Vega), uma cantora e garçonete que mora com seu marido Orlando (Francisco Reyes). Depois da morte de Orlando, vítima de um aneurisma cerebral, o longa acompanha o drama de Marina, que passa a sofrer com a violência de familiares e conhecidos do ex-companheiro durante seu processo de luto.
A trama não alivia e mostra, sem rodeios, uma parte das agressões que as pessoas transgênero sofrem frequentemente no dia a dia. Desrespeito ao seu nome social, desconfianças por parte da polícia quanto a sua participação na morte do marido, constrangimento durante o exame de corpo de delito e outros acontecimentos são apresentados ao espectador, que é estimulado a desenvolver sentimentos empáticos em relação à Marina e seu sofrimento.

Em uma das cenas mais emblemáticas da obra, Bruno (Nicolás Saavedra) passa a viver na casa onde Marina e Orlando viviam, com a intenção de expulsar a mulher. Até a guarda de Diabla, a cachorra do casal, é negada à protagonista.
Dessa forma, Uma Mulher Fantástica adquire o papel de retratar, através do universo particular de Marina, a vida de mulheres transgêneras, que constantemente têm seu direito ao afeto negado, até mesmo quando conseguem encontrar parceiros dispostos a encarar a transfobia que suas escolhas lhes impõem.
O filme foi vencedor da categoria de “Melhor Filme Internacional” na edição do Oscar de 2018, sendo a primeira vez que o Chile levou para casa a tão sonhada estatueta dourada. Além disso, Daniela Vega, que dá vida à protagonista, entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa transgênero a ser apresentadora da cerimônia.
A arte é capaz de transformar até aspectos da vida material. em dezembro de 2019, entrou em vigor a lei chilena de identidade de gênero, que permite que pessoas transgênero, a partir dos 14 anos, alterem legalmente o seu nome e gênero em documentos oficiais. A decisão representou um passo importante para o reconhecimento e proteção institucional das pessoas trans no país.
Embora Uma Mulher Fantástica seja considerado por muitos um dos primeiros filmes a abordar de forma sensível e humanizada a experiência de pessoas trans, a obra esbarra em outra problemática da representação da transgeneridade: o costume de abordar a temática da transexualidade como elemento principal do enredo, como se a única história possível a se contar sobre uma pessoa trans seja a sua experiência enquanto uma.
Sobre isso, Gabrielle destaca: “Infelizmente, vejo que, apesar da melhora da representação de pessoas trans nos últimos anos, as narrativas ainda focam demais nas histórias de tristeza, sofrimento e superação, com um foco ainda demasiadamente pesado sobre a transgeneridade da personagem”. Ela ainda almeja: “Quero ver filmes/séries em que ser trans seja apenas mais uma das várias características da personagem e não um traço determinante de suas personalidades”.
Exemplo brasileiro
Talvez a representação mais famosa da transgeneridade no cinema nacional seja no filme Carandiru (2003), através da vida de Lady Di (Rodrigo Santoro). O longa é baseado no livro Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, e narra as experiências do profissional da saúde atuando em projetos relacionados à prevenção da AIDS na Casa de Detenção de São Paulo.
Além de retratar a dura realidade nos presídios brasileiros, abordando assuntos como a superlotação, a violência policial, o consumo de drogas e a pandemia da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida — popularmente conhecida como AIDS —, a obra ainda têm como clímax a chacina ocorrida no presídio em 2 de outubro de 1992, quando a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) foi chamada para conter uma rebelião no Carandiru e executou 111 detentos.
Lady Di, uma travesti que vive na Casa de Detenção e ganha a vida se prostituindo, é uma personagem fictícia que foi construída com base em histórias e vivências de travestis que realmente passaram pelo Carandiru. Sua representação, contudo, reacende os debates sobre a prática do transfake, que se caracteriza pela escalação de atores cisgênero para interpretar pessoas trans.

O transfake trata-se, mais precisamente, de um problema estrutural. Isso significa que a crítica não é direcionada, como um desvio moral, aos atores, diretores e produtores, mas a toda uma estrutura montada em torno das produções.
Nesse cenário, as pessoas transgênero muitas vezes não possuem oportunidades concretas de desenvolver carreiras sólidas relacionadas à atuação profissional e os frutos das obras produzidas que retratam a temática da transgeneridade, convertidos apenas em ganhos financeiros para os seus realizadores cisgênero, não se transformam em mudanças concretas para as pessoas trans na vida real.
