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Entre erros e acertos: representações da transgeneridade no cinema latino-americano

Responsável por 73% dos assassinatos de pessoas trans no mundo, subcontinente tem no audiovisual uma oportunidade de mudar essa assustadora estatística
Por Laura Roson (lauraroson@usp.br)

A América Latina é uma região vasta, tanto territorialmente, quanto culturalmente. Por isso, alguns podem argumentar que a única coisa que une os países e povos agrupados por essa subdivisão seja apenas o passado colonial e as violências perpetradas por ele através dos séculos.

Fato é que as particularidades históricas, econômicas e políticas — muitas delas adquiridas como herança da colonização espanhola e portuguesa — moldaram a forma com a qual os latino-americanos reproduzem a vida e, com ela, a arte. 

Dessa forma, a representação da transgeneridade e da travestilidade no cinema latino-americano acaba constituindo um fenômeno único, ainda pouco estudado e documentado, que reflete a maneira como os latinos, em sua pluralidade de fenótipos, culturas, crenças e traumas coloniais lidam com as suas questões de gênero e sexualidade. 

Em entrevista ao Cinéfilos, Gabrielle Weber, travesti, ativista e professora da Escola de Engenharia de Lorena da USP, conta que não costuma consumir muito o audiovisual latino-americano por não se sentir representada. Esse sentimento acaba sendo frequente entre a comunidade por uma série motivos, como por exemplo os estereótipos negativos associados a esse grupo social perpetuados pelo cinema e pela televisão ao longo da história do mass media

As pessoas trans existem! 

Definir o que significa ser uma pessoa transgênero pode ser algo bastante complexo. Indivíduos que não se identificam, em graus diferentes, com comportamentos e/ou papéis esperados do gênero que lhes foi determinado quando de seu nascimento formam um grupo diverso, que acaba sendo abraçado pelo termo “guarda-chuva” trans, o “T” da grande sigla. 

Embora a definição de transgeneridade se mostre complexa e multifacetada, as pessoas que a vivenciam sempre existiram. A palavra “sempre” talvez seja imprecisa, mas é fato que, desde que os conceitos de “família” e “patriarcado” foram trazidos para o Novo Mundo pelo homem branco e impostos de forma violenta aos indígenas que já habitavam o que hoje se conhece por América, já havia quem os desafiasse.

O quadro de Victor Meirelles retrata a primeira missa celebrada em território brasileiro e representa a imposição da religião cristã aos nativos pelos colonizadores portugueses [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Um exemplo desse tipo de resistência é Xica Manicongo, considerada a primeira travesti do Brasil, que teve sua identidade resgatada apenas no final do século XX. Tendo as pessoas trans “sempre” existido e os debates acerca da transgeneridade e da travestilidade ganhado destaque na sociedade ao longo dos anos, o audiovisual acaba atuando como uma forma e um espaço de visibilidade ao abordar as vivências dessa comunidade. 

De acordo com o relatório divulgado pelo Trans Murder Monitoring, projeto de pesquisa realizado pelo TGEU (Transgender Europe), cerca de 70% dos assassinatos de pessoas trans no mundo em 2024 ocorreram em países da América Latina e Caribe. Levando em consideração os números absolutos do início da pesquisa, em 2008, até setembro de 2024, o Brasil lidera com folga o ranking, com 1.947 dos 5.040 assassinatos documentados na série histórica. Países como México (772), Estados Unidos (447), Colômbia (279), Venezuela (138) e Argentina (127) também aparecem em destaque no mapa. 

Tendo em vista o cenário de violência ao qual a população trans é submetida e realizando um recorte para a realidade latino-americana, a indústria cinematográfica desses países acaba desempenhando um papel importante na luta das pessoas transgênero por direitos institucionais e contra o preconceito da sociedade em geral. 

O cinema como possível aliado

Os filmes podem servir como uma maneira de abordar temas complexos, adaptando-os a uma linguagem mais acessível para o público mais amplo. O cinema, como um todo, permite ao telespectador se afastar de preconceitos prévios e mergulhar no universo particular da narrativa retratada, e pode, com isso, afeiçoar-se aos personagens e as suas trajetórias de conflitos e conquistas.

A série brasileira Manhãs de Setembro (2021) retrata a vida de uma mulher trans que acaba de conquistar sua independência quando é surpreendida com a chegada de um filho que ela gerou com outra mulher dez anos antes [Imagem: Reprodução/IMDb]

Dessa forma, o universo da transgeneridade enfrenta um cotidiano de apagamento e segregação da vida social que muitas vezes acaba passando despercebido pelas narrativas dominantes da grande mídia. Isso tudo se  choca com a realidade do espectador cisgênero, gerando empatia, afinidade e humanização. 

A produção audiovisual é um reflexo das forças sociais que estão constantemente em embate. A quantidade de obras que abordam as vivências das pessoas transgênero aumentou exponencialmente nos últimos 30 anos, à medida que a luta do grupo por reconhecimento também avançou durante o mesmo período. 

A representação das pessoas trans nas telonas ao longo do tempo também contou com erros e acertos. Como um espelho das lutas sociais travadas pela comunidade como um todo, alguns longas que abordam a temática transgênero retratam  estereótipos violentos e ultrapassados, que são  superados conforme os debates avançavam no plano da realidade. 

Mais do que dar visibilidade à causa, é preciso analisar as obras criticamente para que o cinema possa de fato contribuir com a luta da população transexual por emancipação. 

‘Emilia Pérez’: um exemplo do que não fazer

No filme Emilia Pérez (2024), é narrada a história da chefe do cartel mexicano “Manitas” (Karla Sofía Gascón), designada homem ao nascer e que, com a ajuda da advogada Rita (Zoe Saldaña), passa por procedimentos de redesignação de gênero para afirmar sua identidade e fugir das autoridades.

Aposentada de seus negócios e forjando sua própria morte, ela adota para si o nome de Emilia Perez, que dá nome ao longa,  para poder se tornar a mulher que sempre sonhou em ser.

Karla Sofía Gascón foi a primeira mulher trans a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

A ficção foi aclamada pela crítica especializada, chegando a vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira e um BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. Além disso, rendeu diversas premiações ao seu diretor, Jacques Audiard, e às suas atrizes principais. 

Contudo, a recepção de Emilia Pérez pelo público geral, especialmente pelos mexicanos e pela comunidade LGBTQIA+ foi muito diferente. A obra foi amplamente rechaçada por reforçar estereótipos negativos sobre a população trans, como, por exemplo, a sua associação ao crime. 

Ao simplificar a transição de gênero, a narrativa acaba tratando-a sob um viés maniqueísta, em que um homem, masculinizado e perigoso, se torna uma mulher doce e sensível às causas sociais, utilizando o processo, já tão estigmatizado, como uma espécie de “redenção moral”.

Segundo Paul B. Preciado, intelectual espanhol renomado por seus estudos nos campos das políticas do corpo, gênero e sexualidade, o longa “perpetua uma visão psicopatológica da transição de gênero, baseada em quatro premissas: criminalização, exotização etnográfica, representação médica-cirúrgica da transição de gênero e assassinato”. Preciado ainda completa: “E esse último não é um um spoiler. Todos os filmes normativos sobre pessoas trans acabam matando o protagonista.”

Antes de seu assassinato, Emília ainda é brutalmente torturada [Imagem: Reprodução/IMDb]

Mesmo com as possíveis boas intenções da produção por trás de Emilia Pérez, a obra se tornou  um mau exemplo. Não basta apenas a escalação de uma pessoa transgênero para retratar temáticas e assuntos que lhe sejam familiares, mas é preciso, também, se atentar ao tipo de narrativa que está se constrói, para que não sejam reforçados estigmas que apenas prejudicam a luta de quem já está na base da pirâmide social. 

Uma mulher trans no tapete vermelho

Dirigido por Sebastián Lelio, o filme Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica, 2017) retrata a história de Marina (Daniela Vega), uma cantora e garçonete que mora com seu marido Orlando (Francisco Reyes). Depois da morte de Orlando, vítima de um aneurisma cerebral, o longa acompanha o drama de Marina, que passa a sofrer com a violência de familiares e conhecidos do ex-companheiro durante seu processo de luto. 

A trama não alivia e mostra, sem rodeios, uma parte das agressões que as pessoas transgênero sofrem frequentemente no dia a dia. Desrespeito ao seu nome social, desconfianças por parte da polícia quanto a sua participação na morte do marido, constrangimento durante o exame de corpo de delito e outros acontecimentos são apresentados ao espectador, que é estimulado a desenvolver sentimentos empáticos em relação à Marina e seu sofrimento.

Daniela Vega foi nomeada pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2018 [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

Em uma das cenas mais emblemáticas da obra, Bruno (Nicolás Saavedra) passa a viver na casa onde Marina e Orlando viviam, com a intenção de expulsar a mulher. Até a guarda de Diabla, a cachorra do casal, é negada à protagonista.

Dessa forma, Uma Mulher Fantástica adquire o papel de retratar, através do universo particular de Marina, a vida de mulheres transgêneras, que constantemente têm seu direito ao afeto negado, até mesmo quando conseguem encontrar parceiros dispostos a encarar a transfobia que suas escolhas lhes impõem. 

O filme foi vencedor da categoria de “Melhor Filme Internacional” na edição do Oscar de 2018, sendo a primeira vez que o Chile levou para casa a tão sonhada estatueta dourada. Além disso, Daniela Vega, que dá vida à protagonista, entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa transgênero a ser apresentadora da cerimônia. 

A arte é capaz de transformar até aspectos da vida material. em dezembro de 2019, entrou em vigor a lei chilena de identidade de gênero, que permite que pessoas transgênero, a partir dos 14 anos, alterem legalmente o seu nome e gênero em documentos oficiais. A decisão representou um passo importante para o reconhecimento e proteção institucional das pessoas trans no país. 

Embora Uma Mulher Fantástica seja considerado por muitos um dos primeiros filmes a abordar de forma sensível e humanizada a experiência de pessoas trans, a obra esbarra em outra problemática da representação da transgeneridade: o costume de abordar a temática da transexualidade como elemento principal do enredo, como se a única história possível a se contar sobre uma pessoa trans seja a sua experiência enquanto uma. 

Sobre isso, Gabrielle destaca: “Infelizmente, vejo que, apesar da melhora da representação de pessoas trans nos últimos anos, as narrativas ainda focam demais nas histórias de tristeza, sofrimento e superação, com um foco ainda demasiadamente pesado sobre a transgeneridade da personagem”. Ela ainda almeja: “Quero ver filmes/séries em que ser trans seja apenas mais uma das várias características da personagem e não um traço determinante de suas personalidades”.

Exemplo brasileiro 

Talvez a representação mais famosa da transgeneridade no cinema nacional seja no filme Carandiru (2003), através da vida de Lady Di (Rodrigo Santoro). O longa é baseado no livro Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella, e narra as experiências do profissional da saúde atuando em projetos relacionados à prevenção da AIDS na Casa de Detenção de São Paulo. 

Além de retratar a dura realidade nos presídios brasileiros, abordando assuntos como a superlotação, a violência policial, o consumo de drogas e a pandemia da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida — popularmente conhecida como AIDS —, a obra ainda têm como clímax a chacina ocorrida no presídio em 2 de outubro de 1992, quando a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) foi chamada para conter uma rebelião no Carandiru e executou 111 detentos. 

Lady Di, uma travesti que vive na Casa de Detenção e ganha a vida se prostituindo, é uma personagem fictícia que foi construída com base em histórias e vivências de travestis que realmente passaram pelo Carandiru. Sua representação, contudo, reacende os debates sobre a prática do transfake, que se caracteriza pela escalação de atores cisgênero para interpretar pessoas trans.

No filme, Lady Di se casa com Sem Chance (Gero Camilo) dentro da Casa de Detenção [Imagem: Reprodução/The Movie Database]

O transfake trata-se, mais precisamente, de um problema estrutural. Isso significa que a crítica não é direcionada, como um desvio moral, aos atores, diretores e produtores, mas a toda uma estrutura montada em torno das produções.

Nesse cenário, as pessoas transgênero muitas vezes não possuem oportunidades concretas de desenvolver carreiras sólidas relacionadas à atuação profissional e os frutos das obras produzidas que retratam a temática da transgeneridade, convertidos apenas em ganhos financeiros para os seus realizadores cisgênero, não se transformam em mudanças concretas para as pessoas trans na vida real. 

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