Por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br), Letícia Longo (letlongo2006@usp.br) e Luana Riva (luanariva06@usp.br)
O Kansas City Royals é um dos mais tradicionais times de baseball dos Estados Unidos. Mesmo sendo uma equipe jovem, fundada em 1969, é marcada por jogadores históricos e trajetória consistente. Há 40 anos, em 27 de outubro de 1985, o time venceu o primeiro título de sua carreira.
A icônica primeira vitória no World Series – série de campeonatos da Major League Baseball – marcou a história dos Royals e de Kansas City, em um jogo polêmico que dividiu opiniões entre os amantes do esporte sobre a participação da arbitragem.
A Major League Baseball
A Major League Baseball, ou simplesmente MLB, é uma organização de baseball profissional. Resultado da junção de duas grandes ligas do esporte: a Liga Nacional e a Liga Americana.
Ambas produtos de uma época em que a profissionalização da modalidade estava em curso nos Estados Unidos, a Liga Nacional (National League – NL), com domínio na região da Costa Leste norte-americana, é a mais velha associação profissional do esporte, e surgiu no início da década de 1880, a partir da divisão da Associação Nacional dos Jogadores de Baseball em profissional e não profissional.
Cerca de 16 anos depois, surgiu a Liga Americana (American League – AL), sediada no Centro-oeste do país, que se desenvolveu a partir de uma competição mais antiga, a Western League, fundada em 1885, que reunia clubes da região meio oeste dos Estados Unidos.

A logo da MBL, criada pelo designer Jerry Dior em 1968, pensada originalmente para celebrar o centenário da profissionalização do baseball [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
As organizações passaram por um período de intensa rivalidade no início da década de 1900, quando a Liga Americana transferiu seus times para a Costa-Leste, o que acirrou a rixa entre as equipes das competições.
Em 1903, as Ligas se uniram em uma espécie de trégua que, no ano 2000, ocasionaria na formação da Major League Baseball. Apesar da fusão, a divisão entre elas continua, com os 30 times totais da MLB sendo divididos em 15 para cada uma das antigas associações.
As disputas normalmente ocorrem entre grupos da mesma divisão e liga – agrupamentos definidos pela posição geográfica da equipe, sendo divididos nas categorias: central, leste e oeste.
O campeonato é composto pela temporada regular e pós-temporada. Durante a primeira fase, as franquias se enfrentam dentro de suas divisões em suas próprias ligas, ou seja um time da região central enfrenta outro também da região central. Depois, elas passam para a divisão geográfica, para enfrentarem equipes ainda da mesma liga – em eventuais casos, acontecem disputas entre diferentes ligas – agora em outra divisão.

A etapa da temporada regular pode chegar a durar seis meses e é considerada uma das mais longas temporadas no mundo [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Os times que apresentarem melhor desempenho se mantém à frente e garantem maiores chances de se destacarem na pós-temporada. Já nos playoffs, as disputas dentro das ligas se intensificam e a grande final, conhecida como World Series, ocorre entre as equipes campeãs e de melhor desempenho de cada uma. A vencedora final desta se torna a grande campeã da MLB.
Surgem os Boys in Blue
O Kansas City Royals é um tradicional time de baseball dos Estados Unidos. Fundado em 1969 pelo empresário Erwing Kauffman e sua esposa, Muriel, o time surgiu, principalmente, devido a necessidade de preencher um espaço deixado vazio após, no ano anterior, o Kansas City Athletics ter se mudado para Oakland devido a questões econômicas da equipe.
Sem os Athletics, uma lacuna se abriu na divisão central, questão que foi rapidamente preenchida pelos Royals, que começaram a se destacar na Liga Americana desde seu surgimento.

Os Royals usaram os uniformes azuis claros, marca registrada do time, de 1973 a 1991 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Apesar de não ser o mais vitorioso de todos, o Kansas City Royals demonstrou um crescimento consistente, o suficiente para marcar seu nome na história do baseball aos poucos. Foi destaque na divisão Oeste da Liga Americana por três vezes e, em 1980, alcançou a World Series, apesar de não ter se tornado campeão.
Nessa fase, o time alcançou um de seus principais feitos: os três títulos consecutivos da categoria divisional e, eventualmente, seu título na Liga Americana.
Mesmo chegando à pós-temporada diversas vezes, a equipe nem sempre obteve o melhor resultado. Mas, ao longo da década de 1980, o Kansas City Royals crescia e prometia cada vez mais, inclusive no ano de 1984, temporada que contou com quebra de recordes e ficou marcada pela vitória da Liga Americana Oeste.
Entretanto, a derrota na temporada regular para o tradicional Detroit Tigers fechou este ano com um gosto amargo que, felizmente, para o time, se reverteu no ano seguinte.
O comeback em 1985
O Kansas City Royals iniciou a temporada regular pela Divisão Oeste da Liga Americana (AL West) de maneira inconstante. Na primeira metade da competição, o time conquistou 44 vitórias contra 42 derrotas, e se encontrava na penúltima colocação da AL. A falta de entrosamento dos jovens arremessadores, Danny Jackson e Bret Saberhagen, somada a má atuação dos rebatedores prejudicou o time. Mesmo assim, para a segunda metade da temporada, o técnico Dick Howser optou por não fazer grandes mudanças no estilo de jogo da equipe.

O técnico Dick Howser, conhecido por levar os Royals à primeira vitória, leva o nome do prêmio de melhor jogador de baseball universitário do país, o Dick Howser Trophy, e do estádio de baseball da Florida State [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
A partir de agosto, os Royals apresentaram mais consistência. A equipe passou a usar o estilo Small Ball – tática concentrada em velocidade, com foco em corridas de base, toques e conquistas de base extra. Os arremessadores se adaptaram a essa maneira de jogo, e a média de rebatidas subiu de .252 para .261. No dia 6 de outubro, os Royals venceram o Oakland Athletics de virada por 5 a 4 e conquistaram o título da divisão. O time finalizou a temporada com um recorde de 91 a 71, apenas um jogo na frente dos Angels (90 a 72).
O jogador destaque da equipe foi Brett Saberhagen, de apenas 21 anos, vencedor do Cy Young da Liga Americana de 1985. O arremessador, apesar de ter feito uma primeira etapa fraca, conquistou 20 vitórias em 32 jogos, e teve uma média de corridas permitidas (ERA) de 2.87. Em entrevista ao MLB.com, Saberhagen disse que a confiança de Dick Howser nele, mesmo em uma idade tão jovem, foi um dos elementos responsáveis pela sua boa atuação na temporada.
Com a vitória na AL West, os Royals avançaram para a American League Championship Series (ALCS). Eles enfrentaram o Toronto Jay Blues, vencedor da AL East. Os Royals aplicaram uma virada histórica em cima dos Blues, quando reverteram um déficit de 3 a 1 em uma série melhor de sete para 4 a 3. O destaque do playoff foi o experiente rebatedor George Brett, eleito o Jogador Mais Valioso – Most Valuable Player (MVP), no inglês, do campeonato. No jogo três, Brett teve quatro rebatidas perfeitas e dois home runs, o que garantiu a primeira vitória na série e marcou o início da virada.

“Essa é uma performance de Hall da Fama”, disse Howser sobre a atuação de George Brett após o jogo três [Imagem:Reprodução/Instagram/@baseballhall]
Final com emoções e polêmicas
A vitória na World Series desta temporada foi disputada entre os Kansas City Royals e o St.Louis Cardinals, ambos times do estado do Missouri que se classificaram com uma virada de 3 a 1 para 4 a 3. Os Royals perderam as duas primeiras partidas da série. Na terceira, saíram vitoriosos por um amplo placar de 6 a 1, mas perderam novamente a quarta partida.
Para o quinto jogo, o técnico Dick Howser confiou em Danny Jackson para ser o principal arremessador da partida. Ele eliminou cinco rebatedores por strikeout e manteve o Royals vivo para a vitória do jogo por 6 a 1.
O sexto jogo foi marcado por uma decisão polêmica por parte do árbitro Don Denkinger: episódio que ficou conhecido como The Call. Na série, estava 3 a 2 para o St. Louis Cardinals , ou seja, se eles ganhassem o sexto encontro, eles venceriam o campeonato. O jogo estava na nona e última entrada, e os Royals perdiam por 1 a 0. Jorge Orta, rebatedor dos time, rebateu uma bola fraca em direção à primeira base.
O defensor Jack Clark pegou a bola e lançou para o arremessador Todd Worrell, que cobria a base. Imagens pós-jogo mostram que Worrell pegou a bola antes de Orta pisar na primeira base, mas o árbitro marcou a chegada de Orta como “segura”, ou seja, antes do Worrell pegar a bola. “Esse é um caso específico, raro, de um erro que objetivamente inverteu o resultado do jogo do campeonato, porque foi um erro de arbitragem. Se o árbitro marcasse certo, o jogo acabaria e o St.Louis Cardinals seria campeão”, disse o jornalista esportivo Ubiratan Leal, em entrevista ao Arquibancada.
Após a decisão, os Royals fizeram duas corridas naquela entrada e, posteriormente, viraram o jogo para 2 a 1 e empataram a série por 3 a 3.
“Muitas das coisas que se falam em erro de arbitragem, vem de um pensamento hipotético de que o erro mudaria o jogo, mas não sabemos o que aconteceria depois. A gente projeta e imagina pelo que vem acontecendo no jogo”
Ubiratan Leal
O sétimo e último jogo foi marcado por uma atuação muito abaixo do esperado pelos Cardinals. Os Royals venceram a partida por 11 a 0. Bret Saberhagen, que tinha se tornado pai no dia anterior, permitiu apenas 5 rebatidas e nenhuma corrida na partida. Ele se tornou o herói do jogo e o MVP da World Series. Foi o primeiro título da equipe, que só voltaria a ganhar a etapa em 2015.

“Do ponto de vista histórico, vendo à distância, é legal que o Kansas City Royals, aquele tão espetacular do final dos anos 70, tenha conquistado um título”, relatou Ubiratan sobre a conquista do título mundial [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Jogadores e o hall da fama
Nos anos 70, quando o time começou a se consolidar, jogadores que passaram pelo elenco de Kansas se tornaram emblemáticas figuras para o baseball. Entre eles está Hal McRae, considerado um dos melhores debatedores designados da história do esporte. Ele teve papel essencial na construção do Royals como a grande potência do baseball que se tornou na década de 1980.
Frank White, um dos maiores jogadores de segunda base do baseball e o primeiro a se destacar pelo Kansas City Royals, também teve um papel de destaque em sua história pelo time.

Antes de atuar pelo Kansas City Royals, McRae foi jogador do Cincinnati Reds em 1971 [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
No jogo que trouxe o primeiro título mundial ao time de Kansas City, jogadores destaque marcaram a partida. A primeira estrela foi George Brett, que foi selecionado pelo Kansas City Royals na 2ª rodada do draft amador – processo anual em que a MLB designa jogadores amadores em potencial do ensino médio e da universidade para comporem os times do campeonato mundial – de 1971. O jogador teve sua estreia no time em 1973, atuando na posição de primeira e terceira base.
Brett foi um dos maiores rebatedores decisivos do baseball, marcando, especialmente, a história do esporte dos Royals. O All-Star – termo designado aos jogadores de elite que participam do All Star Game – foi eleito mais de oito vezes o Jogador do Ano do time, e ganhou uma Luva de Ouro em 1985, depois de estrelar o jogo da vitória.
Ele se destacou como o primeiro atleta na história da Major League a conquistar títulos de rebatidas em três diferentes décadas: 1970, 1980 e 1990. Em 1999, Brett foi introduzido no Hall da Fama do Baseball Nacional, uma homenagem e consagração de atletas, técnicos e personalidades importantes para o esporte.
Bret Saberhagen também foi uma estrela destaque no primeiro título do Kansas City Royals. O arremessador ingressou no time na 19ª rodada do draft de 1982, e teve sua estreia dois anos depois. O desempenho de Saberhagen foi essencial para a vitória do time de Missouri. O jogador ficou marcado como arremessador de jogos definitivos dos Royals, entrando no hall da fama do time em 2005 e no de Missouri em 2023.

O hall da fama do Kansas City Royals homenageou Saberhagen como aquele que combinava “habilidade incrível e presença no montículo com comando preciso” [Imagem: Reprodução/Instagram/@bretsaberhagen]
Outro nome de destaque no time e na partida foi Dan Quisenberry. Contratado pelos Royals como agente livre amador em 1975, teve sua estreia oficial em 1979. Com a posição de arremessador defensivo, o jogador ficou famoso por seu estilo de arremesso submarino, técnica utilizada para confundir os rebatedores, de acordo com seu técnico Jim Frey. Foi nomeado Arremessador do Ano do time quatro vezes e, assim como Brett, foi selecionado para o All Star Game da Liga Americana.
A entrada de Quisenberry no jogo foi para garantir a vitória. Sua posição de closer, isto é, arremessador de fechamento e membro mais importante do bullpen, foi fundamental para a conquista do primeiro título do time.
O legado de Kansas City
A conquista do primeiro título mundial do Kansas City Royals representou um marco tanto para a equipe quanto para a cidade. Para Ubiratan, a vitória dos Royals foi importante para o legado do time. “Tudo o que aqueles caras estavam construindo naquele momento ficou para a eternidade de alguma forma, não ficaram simplesmente famosos como um grande time que não venceu nada”, completou.
Kansas City, até então, nunca havia ganhado no baseball. O único título da cidade era do Kansas City Chiefs na National Football League (NFL), liga esportiva profissional de futebol americano nos Estados Unidos. Ubiratan contou que um ponto curioso sobre a cidade é que ela fica no estado de Missouri, mesmo estado do time Saint Louis Cardinals, que tem uma torcida forte para o esporte. “Eles gostam muito mais de baseball do que de basquete e futebol americano na cidade, e é um time muito vitorioso. Só que Kansas City, do outro lado do Missouri, não ganha”, explicou o jornalista sobre a coincidência. Justamente por esta realidade, quando os Royals conquistaram o título, a cidade foi reconhecida.
A vitória foi como uma consagração do time. O título reforçou um legado do baseball em Kansas City e marcou aquela equipe, que, em geral, é mais lembrada que a de 2015, de acordo com o Ubiratan. A diferença entre os dois times foi que o primeiro permaneceu nos campeonatos, ganhando competições – não a nível mundial –, enquanto o segundo atuou bem, porém por um curto período de tempo.
“Era um time muito amado pelo pessoal em Kansas, porque tinha figuras folclóricas e muito carismáticas, que até hoje estão no dia a dia dos Royals, como George Brett”
Ubiratan Leal

Paisagem de Kansas City (Missouri), cidade do time Kansas City Royals, que ficou marcada pelo título na MLB [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]
Após uma década de sucesso, a sequência de sete aparições seguidas dos Kansas City Royals nos playoffs terminou em 1986, o que iniciou um longo período de fracassos. Problemas financeiros e gestões inadequadas levaram a anos de campanhas negativas, incluindo quatro temporadas com mais de 100 derrotas entre 2002 e 2006.
A virada veio em 2013, quando um elenco jovem levou o time a sua melhor campanha em quase 20 anos. Em 2014, os Royals voltaram aos playoffs, chegaram à World Series, mas perderam para o San Francisco Giants. No ano seguinte, conquistaram o segundo título mundial ao derrotar o New York Mets. No entanto, de 2017 a 2023, os Royals voltaram à decadência, somando várias temporadas com mais de 100 derrotas. Em 2024, o time registrou 86 vitórias.
Os Royals em 2025
No cenário atual, Kansas City Royals é um time que está em processo de recuperação. Depois da segunda vitória, em 2015, a equipe se reconstruiu, porém, como é um time com pouca verba, não consegue contratar jogadores caros a todo momento. Ubiratan disse que a estratégia do time é “revelar uma geração de jogadores jovens muito bons, e no que se revela esses jogadores jovens ao mesmo tempo, eles tentam organizar para que surjam juntos”.
Ao passo que esta nova geração de jogadores estreiam, o time fica competitivo por anos. No entanto, quando eles vão envelhecendo, passam a ficar caros – devido a experiência no esporte e aos contratos mais altos – e, nesse ponto, os Royals não conseguem custeá-los e perdem para outras equipes, voltando à reconstrução.
“O time voltou a ter uma geração boa e está tentando se reorganizar. Mas é um time médio no cenário da MLB, que teve alguns anos de sucesso em específico”
Ubiratan Leal
Ubiratan comparou a atual situação do Kansas City Royals com a do Guarani, time do futebol brasileiro, antigamente. “Era um time que fazia campeonatos brasileiros bons, revelava diversos jogadores, e depois fazia campeonato murchos, meio de tabela para baixo, depois voltava a fazer um campeonato bom”, completou o jornalista na comparação. Relacionando com o cenário atual brasileiro, o entrevistado afirmou que “hoje dá para comparar um pouco com o Fortaleza”.

Na foto, Carter Jensen, jogador da atual geração do time Kansas City Royals [Imagem: Reprodução/Instagram/@carterjensenn]
Na temporada regular desse ano, o Kansas City Royals terminou em terceiro lugar na Liga Americana Central, o que alguns jornais chegaram a relatar como decepcionante, apesar de ser um desempenho relativamente promissor ao considerar o jejum não distante do time.
Ao contrário do otimismo deixado pelos bons resultados de 2024, a temporada de 2025 revelou algumas de suas principais deficiências enquanto time. No portal de notícias Sports Illustrated, o escritor Curt Bishop escreveu: “O que os afundou em 2025 foi seu ataque, ou a falta dele. Os arremessadores cumpriram sua parte do acordo, mas não havia muito que pudessem fazer para manter os Royals à tona”.
Nessa temporada, Matt Quatraro, o treinador principal do Kansas City Royals desde 2023, seguiu com a equipe. Carlos Estevez foi o grande destaque da temporada. Para o jornalista Oliver Vandervoort, Estevez foi o grande responsável por salvar 42 jogos e ainda acrescentou: “não há muito mais a dizer aqui. Este foi simplesmente um dos melhores arremessadores de alívio do baseball em 2025”. O panorama mantém a esperança e as expectativas para uma melhor temporada no ano seguinte.


