Por Rachel M. Mendes (rachelmmendes@usp.br )
No dia 20 de Agosto de 2004, o longa-metragem dirigido por Jayme Monjardim, Olga, chegava às telonas. O filme se inspirou na biografia da militante comunista, alemã e judia, Olga Guttman Benário Prestes, publicada por Fernando Morais, em 1985. No fim de semana de sua estreia, a obra atraiu mais de 385 mil espectadores às salas de cinemas em todo o Brasil. Entretanto, ainda que comovente em termos artísticos, a trama de Monjardim era “muito fraca” do ponto de vista histórico e político, segundo a historiadora e única filha do líder comunista Luiz Carlos Prestes com Olga, Anita Leocádia Prestes, em entrevista ao Cinéfilos.

O filme Olga (2004)
A história de Olga Prestes foi narrada em estilo de jornalismo literário pelo jornalista mineiro, Fernando Morais. Considerada uma obra “verdadeiramente inesquecível” pelo escritor modernista Jorge Amado (que chamava Luiz Carlos Prestes de cavaleiro da esperança), Olga foi produzido durante a ditadura militar e lançado em 1985 pela Editora Ômega. O longa, no entanto, só, mas alcançaria as telas do cinema em 20 de agosto de 2004, sob a direção de Jayme Monjardim, com Camila Morgado como protagonista e a atriz Fernanda Montenegro no papel de Leocádia Prestes.
Anita acredita que o filme possua um final derrotista, em comparação ao livro de Fernando Morais. “O livro termina com a vitória sobre o Nazismo. Apesar de todo aquele horror o Nazismo e o Fascismo foram derrotados. O livro até termina com o comício do Prestes em São Paulo. Apesar de todo o horror, conseguiu-se derrotar o Fascismo. O filme não mostra isso, então é muito negativo do ponto de vista político.”
Ainda assim, Anita Prestes declarou que a linguagem comovente e emocionante do filme estava de acordo com o gosto do público, acostumado a ver novelas, o que desempenhou um papel interessante aos espectadores que, atraídos pela beleza do romance exagerado, puderam tomar algum conhecimento da história, esquecida durante os anos da ditadura militar, apesar da superficialidade histórica. “É um filme bonito.”.

A história de Olga Benário Prestes
Os 34 anos vividos por Olga resultaram em uma documentação de mais de duas mil folhas dentre os arquivos da Gestapo, a polícia secreta do Estado alemão durante o período do nazismo). Sua vida se iniciou e encerrou no mesmo país: a Alemanha. Olga Benário nasceu em 12 de Fevereiro de 1908, na cidade de Munique. Filha de Eugene e Leo Benário, o estudo dos casos defendidos pelo pai advogado permitiu que a jovem tivesse contato com realidades diversas e as situações de pessoas subjugadas ao desprivilégio social.
Com uma adolescência vivida em meio ao pós-guerra, a criação e ascenção do Partido Nazista, Olga tinha apenas dezesseis anos quando se mudou ao distrito de Neukölln, em Berlim, com o namorado, o professor Otto Braun. Lá, ingressou nas atividades de militância política contrárias à extrema direita e a favor das manifestações feitas por trabalhadores. Em 1928, viu-se obrigada a encontrar refúgio em Moscou após sua participação no assalto que permitiu a libertação de Braun da prisão de Moabit, que havia sido acusado de alta traição à pátria. Na capital soviética, se envolveu com a juventude da Internacional Comunista (IC), onde recebeu treinamento militar e ensino político.
Foi em Moscou que se deu o acontecimento crucial à sequência da vida de Olga Benario: o primeiro contato com Luiz Carlos Prestes. Luiz Carlos liderou a Coluna Prestes, ao lado de Miguel Costa. Esse movimento tenentista ocorreu entre 1925 e 1927, e comoveu 1500 combatentes à marcha de 25 mil quilômetros, visando pressionar a renúncia do presidente Arthur Bernardes e conseguir a possibilidade de uma reforma política no Brasil. Prestes e Olga foram apresentados pelo dirigente da IC, Dmitri Manuilsky. Após o encontro, Olga recebeu a missão de acompanhar Prestes ao Brasil e garantiu sua segurança.

Nesse contexto, ao embarcar em uma longa viagem disfarçados como um casal em lua de mel, acabaram, de fato, se apaixonando e casando. A vinda de Luiz Carlos ao Brasil era ilegal, visto que considerava-se que ele havia desertado o exército brasileiro, segundo Anita Prestes em seu texto “Homenagem a Olga Benario Prestes, minha mãe”.
Era 1935 quando, já presidente de honra do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Luiz Carlos Prestes organizou ao lado de militares e civis, membros da Aliança Nacional Libertadora (ANL), a Intentona Comunista. O movimento ficou conhecido pela tentativa de um golpe militar contra Getúlio Vargas a partir de levantes militares em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Todavia, a Intentona Comunista foi um fracasso e resultou em sua prisão e, por conseguinte, a de Olga, em março de 1936. Segundo Anita Prestes, ainda que sua mãe tenha comparecido às reuniões políticas ao lado do marido, não interferia nas discussões ou na tomada de decisões, por não ser essa a missão a ela atribuída.
Uma vez que mantinha a identidade falsa assumida anteriormente, Olga teve seu nome revelado por documentos do governo nazista ao embaixador Moniz de Aragão, ainda naquele ano. Pouco tempo depois, anunciou a gravidez e reclamou o direito ao habeas-corpus. Todavia, apesar da ausência de provas criminais contra a alemã em solo brasileiro e a gestação, as autoridades de mantiveram irredutíveis e Olga foi enganada: levada sob a justificativa falsa da transferência para um hospital especial, na verdade, a militante comunista judia e grávida estava sendo deportada para a Alemanha de Hitler. O decreto de expulsão foi assinado por Getúlio Vargas em 28 de Agosto de 1936.

Em uma reportagem publicada em 2020, o veículo Aventuras na História comenta a deportação de Olga para as mãos da Gestapo – considerando seu título de esposa de Luiz Carlos Prestes, sua militância política comunista e o fato de ser judia –, como “uma crueldade rara até para governos despóticos”, dado o risco de vida aumentado pela última qualificação. “E, se agregarmos a isso o fato de que Olga estava grávida de sete meses quando chegou a Hamburgo, o ato chancelado pelo presidente Getúlio Vargas merece a classificação de barbárie.” escreveram os redatores.
Em outubro de 1936, chegando à Alemanha, Olga Benario Prestes foi recebida pela Gestapo e encaminhada para Berlim, à prisão feminina Barnimstrasse. Ali, no dia 27 de Novembro, nasceu Anita Leocádia Prestes, nomeada em homenagem à revolucionária Anita Garibaldi e à sogra, Leocádia Prestes. Em 21 de janeiro de 1938, Anita já completava um ano e dois meses quando – após bombardeios de telegramas, mensagens e cartas enviadas por personalidades e organizações humanitárias da Europa e dos Estados Unidos, até mesmo para o próprio Hitler, o governo aceitou entregá-la à avó paterna. Quanto à mãe, sua libertação foi negada e decidiu-se que seria transferida para o campo de concentração Lichtenburg em fevereiro de 1938.
Em maio de 1939, ela foi enviada ao campo de Ravensbrück, onde foi submetida a maus tratos e trabalho escravo. Nesse contexto, diversas vezes era levada à sede da Gestapo em Berlim para violentos interrogatórios, de acordo com Anita Prestes. Por fim, em abril de 1942, foi transferida para o campo de concentração de Bernburg, onde foi assassinada na câmara de gás. A família só viria a saber de sua morte em 1945, após o fim da guerra.
Meu pai e eu sempre entendemos que Olga foi uma vítima do fascismo entre milhares de outras e que seu martírio deve servir de exemplo para que não permitamos que tais horrores se repitam.
Anita Prestes em “Homenagem a Olga Benário Prestes, minha mãe”

Professora aposentada da UFRJ, Anita Prestes veio ao Brasil pela primeira vez em 1957, durante o governo de Juscelino Kubitschek. Em entrevista ao Cinéfilos, quando perguntado a ela sua opinião a respeito do filme, Anita afirmou que o vê como superficial. “Do jeito que Monjardim apresenta, parece que foi tudo uma questão pessoal.”, disse, recordando a maneira como o longa simplifica o processo de seu resgate. “Não mostra que, por trás disso, havia uma campanha, chamada Campanha Prestes, que lutava pela libertação dos presos políticos no Brasil, que foi muito importante, teve uma repercussão mundial muito grande e incomodou muito a Gestapo.”
Em “Homenagem a Olga Benário Prestes, minha mãe”, Anita diz que sua “libertação das garras do nazismo resultou indiscutivelmente da influência e da repercussão mundial da Campanha Prestes.” “Uma grande vitória da solidariedade internacional, razão por que me considero filha da solidariedade internacional.” finaliza.
