Por Fernando Silvestre (fernando.silvestre@usp.br)
O livro Mudar: Método (Todavia, 2024), é construído a partir de um retrato autobiográfico doloroso do autor francês Édouard Louis. A obra é carregada pelo sentimento de desencaixe que acompanha Eddy Bellegueule, uma criança pobre do norte da França que, posteriormente, se transforma no próprio Édouard.

Homofobia e paternidade
O enredo começa ao destrinchar as cenas vividas por Eddy dentro da casa humilde onde cresceu, em uma cidade operária ao norte da França. O narrador-personagem explicita de forma única a homofobia internalizada na classe proletária francesa do final do século XX e início do século XXI. As acusações sobre as crianças consideradas “afeminadas” são carregadas da culpa sentida pelos pais e dos questionamentos que se mantêm na vida do personagem-autor pelo restante da obra.
“Viado. Aos cinco ou seis anos entendi que essa palavra me definiria e me acompanharia pelo resto da minha existência.”
Édouard Louis
A primeira parte do livro marca o papel do pai de Eddy, sendo ele o interlocutor ao qual o narrador se refere. A paternidade torna-se um elemento claro para materializar a homofobia vivida pelo autor. Perguntas ofensivas feitas pelo pai e sua ignorância brutal sobre a vida pessoal do próprio filho, contrapostas com a preocupação sobre o jeito de Eddy, demonstram as inconstâncias de sentimentos na infância de Édouard.
O narrador relata que a homofobia constante realçava os outros problemas sociais vivenciados pela família de Eddy. A fome, o frio e a xenofobia nessa região da França são intensificadas pelo Insulto [“viado”] que estava atrelado à imagem do narrador.
“[..]quando entendi que a única opção era fugir, procurei todas as saídas possíveis.”
Édouard Louis
O desejo de Édouard de fugir da vida precária é escrito de forma maravilhosa, à medida que demonstra essa necessidade do adolescente em que se tornava. A busca incessante por se desvincular da pobreza é o que guiará o narrador na obra. Sair do vilarejo operário e ir para cidades maiores era sinônimo de vencer.
A primeira vitória é a introdução do personagem ao mundo de Elena, uma amiga que conheceu em um colégio chique, que passou a frequentar, em outra cidade: Amiens. Elena representa o significado da vida intelectual da classe média francesa. Ela simboliza a primeira tentativa de separação entre Eddy — a pobreza — e Édouard — o intelectual que rejeita o passado sofrido. A partir da menina, o narrador conhece um novo mundo, ao qual os seus pais não tinham acesso. Vislumbrado por essa vida, ele ignora os assédios vividos dentro da rotina com Elena.
“Você se incomoda se eu chamá-lo de Édouard? Eddy, no fundo, é um diminutivo para Édouard, Eddy não é um nome de verdade, e eu prefiro Édouard, acho bem mais elegante. Você se incomoda?”
Édouard Louis
O desejo não para
A escrita fluída de Édouard Louis torna o texto leve: o leitor segue o fluxo junto com o personagem. O desejo de largar a vida com Elena em Amiens para ir para Paris é apresentado de forma suave, como algo lógico. Édouard passa a se afastar, ainda mais, de seu passado. A vida em Amiens parece ser um reflexo do passado.
“[Como eu poderia ter imaginado] Que um dia eu entenderia que estar ali, em Amiens, era, na verdade, ainda prisioneiro da minha infância, e que portanto seria preciso fugir de Amiens exatamente como fugi da minha cidade se quisesse me vingar do meu passado?”
Édouard Louis
Ao conhecer, em uma palestra, um intelectual que também cresceu na pobreza e se encontrou liberto em Paris, Édouard passou a buscar o mesmo caminho. Afastar-se de Elena era sinônimo de uma nova vitória sobre o desejo de vencer o passado. Nessa parte do enredo, o desejo e a ambição formam a áurea que envolve toda a vida do narrador. Tudo na vida dele se resume a conquistar essa vitória.
O personagem passa a afastar-se de Elena, a ler mais do que ela, estudar mais do que ela, para atingir o objetivo de se mudar para Paris, onde estudaria na École Normale Supérieure (Escola Normal Superior). Mesmo com esse desejo, o ressentimento de deixar a melhor amiga é abordado fortemente nessa parte. Seria necessário deixá-la para alcançar o objetivo.
“[…] acho que sabia que ela não iria embora comigo, mas queria acreditar que ela faria isso para não enfrentar o que eu estava fazendo; eu me preparava para abandoná-la.”
Édouard Louis
Adeus, Elena
Elena passa a ser a interlocutora e o narrador escreve no formato de cartas desconstruídas para ela. Descrever sua nova vida em Paris e como sentia saudades dela é fundamental para essa parte.
Édouard não escreve com arrependimento de tê-la deixado, mas com a vontade de que ela voltasse a fazer parte da sua vida parisiense. Elena torna-se uma sombra na vida do personagem. Tudo o que era realizado pelo autor era tratado como um reflexo de sua vida com ela. A relação é progressivamente deixada de lado, à medida que Édouard adentra o estilo de vida das novas pessoas que conhece: passa a querer ser mais parecido com elas, semelhante ao que aconteceu com Elena.
“Brinquei de escrever como brinquei de ser você.”
Édouard Louis
Um fato abordado de forma interessante é que, se Elena estava presente em suas ações como um reflexo do passado, o corpo mostrava o passado nortista. A arcada dentária amarelada, cheia de cáries, representava para Édouard como ele ainda não tinha conseguido vencer o passado. A parte corporal é escrita sem esconder os sentimentos mais dolorosos que o narrador-personagem sentia, como a vergonha.
“ […] meu corpo era a elemento da minha pessoa mais difícil de controlar, aquele que não podia mentir, a materialização concreta do meu passado, meu passado feito de sangue, carne, e osso.”
O sentimento de vitória é novamente reacendido com os parceiros que Édouard conhece. Ele passa a conviver com a aristocracia europeia e os donos de empresas multibilionárias. Porém, o sentimento de desencaixe com essa sociedade, tão opressora quanto a de sua infância, é posto lado a lado com a vontade de se distanciar do passado.
“No dia em que Philippe me deu seu número de telefone, não pude deixar de pensar ainda uma vez: eu venci, ou melhor, saí dessa.”
Édouard Louis
O fim
O final da obra caminha para o autor na atualidade e as conclusões sobre toda essa busca incessante por vencer o passado. Retomando as lutas para a publicação de seu primeiro livro e as dificuldades impostas pelas editoras, ele evidencia a dificuldade de inclusão no mercado literário.
“Recebi primeiro respostas negativas de diversos editores, eles me diziam que ninguém acreditaria no que eu tinha escrito, quando tinha apenas reconstituído minha infância.”
Édouard Louis
Os sentimentos de mágoa com o que viveu e ressentimentos sobre o abandono constante da vida em busca de novas experiências e conquistas são concretos. Em um panorama que vai da infância até a vida adulta, o autor demonstra porque é considerado um dos melhores escritores contemporâneos de língua francesa.
“Será que eu estou condenado a sempre esperar uma outra vida?”
Édouard Louis
*Imagem de capa: Reprodução/ Instagram/ @todavia
