Por Gabriela Braga (gabriela.santos@usp.br)
No final de semana em que São Paulo recebeu o show de Gilberto Gil e o megafestival gratuito Tim Music, mais de oito mil pessoas preferiram celebrar o samba na primeira edição do Isso é Samba, festival que ocorreu no dia 12 de abril, no Parque Villa Lobos. Com mais de dez horas de música, o evento celebrou os 45 anos do grupo Fundo de Quintal, com outros mestres do gênero, como Jorge Aragão, Leci Brandão, Diogo Nogueira e Grupo Façanha. Além disso, nomes da nova geração do estilo, representada por Marquinhos Sensação, Thiago Bispo e Pagode da 27. O evento foi aberto pelo grupo Samba do Tatu, que realiza hoje, 26 de julho, a “Festa do Samba do Tatu” — uma celebração da cultura afro-brasileira que combina o samba de roda a outros ritmos.
O parque, cujo nome homenageia o compositor do modernismo brasileiro, está localizado em uma região de alto padrão da capital paulista e sedia eventos culturais de grande porte, como o festival gastronômico “Taste São Paulo Festival”. Tal localização carrega uma simbologia interessante: o samba, gênero que já foi criminalizado apenas por sua matriz africana e hoje é considerado patrimônio imaterial brasileiro, alcança espaços de prestígio cultural e financeiro. Os amantes do samba desembolsaram no mínimo 80 reais para ver os shows na pista ou 130 reais no frontstage.
O lema do evento, “um só palco, um só samba”, não se refletiu na organização espacial do festival: o Palco (espaço principal) e a Roda (um palco menor e mais baixo, localizado no centro da plateia). O público também foi dividido em duas áreas, o frontstage, localizado em frente ao palco, e com vista para as costas da Roda, e a Pista, em frente ao segundo palco.
Logo na entrada, o festival cedeu espaço à rede Feira Preta, maior festival de cultura negra e economia criativa da América Latina, que teve sua edição de 2025 adiada em São Paulo por falta de patrocínio. Em entrevista ao Sala33, Ágata, representante do movimento, declarou: “É muito triste, vai fazer muita falta. Para mim, a Feira Preta significa dinheiro e felicidade, porque as duas coisas são conjuntas”. Os estandes foram alocados do lado de fora do evento, e o público pôde, nos momentos de entrada e saída, conferir os produtos de empreendedores negros, como Santa Thereza Design, Afrope Chinelos, Xeidi Arte, Tempero Decor, Kali Studio, Casa Apolinária, Nega Antônia Costura Criativa, Carla Stella e Use Clichê. Sueli, proprietária da marca Afropé Chinelos, relatou: “Nossa marca nasceu em 2021, no meio da pandemia. Nós não tínhamos nada e eu precisei de um chinelo e surgiu a Afropé. A minha filha, Aline foi mandada embora do trabalho, ela e meu esposo. Sobraram 800 reais depois de pagar as contas e a gente investiu em 30 pares de chinelos. Hoje nós estamos nas lojas e estamos voando por aí.”
Estrutura do evento

Enquanto no Palco tocaram os ícones já consagrados, a Roda foi destinada aos artistas menos conhecidos. Ou seja, a proposta de evocar uma roda de samba 360°, em uma experiência sonora imersiva e interativa, só foi possível para quem ficou na área VIP, uma vez que na Pista a visão do Palco foi prejudicada pela distância e pela presença do segundo palco, localizado entre pista e frontstage. Alguns participantes comentaram o problema nas redes sociais.

O fenômeno da camarotização no Brasil, que já foi até tema de redação da FUVEST, reproduz a segregação social e racial em eventos culturais, ao separar e dar privilégios – melhor qualidade de som e visibilidade, entre outros confortos — àqueles que podem pagar mais. A prática causa ainda mais desconforto quando se trata de um festival de samba, gênero democrático por si. Não à toa, o termo “Pista”, em português, já se distingue linguisticamente do outro, em inglês, “Frontstage”. Definitivamente, samba não combina com nenhum tipo de segregação. Cantar os versos de Jorge Aragão sobre a distinção entre elevador social e de serviço num espaço segmentado espacial e socialmente gera uma contradição de difícil resolução.
“Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai.”
Jorge Aragão em Coisa de Pele, 1986
Apesar disso, a alternância de palcos possibilitou a pontualidade dos shows, sem longas esperas entre as apresentações, o que manteve a energia do público. Os mais de 500 profissionais envolvidos propiciaram qualidade técnica de som, iluminação e produção. A equipe de serviços foi eficiente para manter a higiene dos sanitários, bem como um atendimento rápido para venda de bebidas e comidas. O cardápio foi bem diversificado, com pastéis e porções. Vegetarianos foram contemplados com opções sem carne e a batata frita foi a única opção para veganos.
“Podemos sorrir, nada mais nos impede”
Jorge Aragão em Coisa de Pele, 1986
Os portões foram abertos às 12h, em uma tarde de céu limpo e altas temperaturas. Por volta das 13h, o primeiro show foi iniciado. Assim que entravam, os participantes já se sentiam tomados pela energia contagiante do samba que emana da batida percussiva e se alimenta da poesia popular. Todas as apresentações contaram com clássicos do gênero, cujos versos o público sabia de cor e cantavam com olhares de cumplicidade mútua. Não apenas nos shows dos artistas mais famosos, como também nas apresentações do palco Roda, o público mostrou a que veio. “Até quem não é de sambar, sambou!” (“Até quem não é”, Beth Carvalho, 1989).
Ao serem questionados sobre “O que é samba para você?”, alguns sambistas relataram que simboliza resistência e pertencimento. Outros, que “é intersecção de n raízes”, “é o sopro, o sopro de vida, você se sente viva, quando você está no samba, ele transcende”, “é um quilombo, onde você encontra pessoas de todos os tipos, de todas as gerações curtindo a mesma coisa”, “a cultura do samba atravessa gerações”, “é Brasil, é raiz, é música popular, é negritude”.
O convite para um encontro intergeracional também se refletiu na diversidade de idades do público presente. Nas respostas, alguns se referiram ao sentimento de pertencimento familiar e envolvimento amoroso: “Amo samba, eu cresci numa família com samba, então para mim, é uma realização”, conta Nicole, 21. “A Leci me lembra muito a minha mãe. […] O Jorge Aragão também me lembra muito a minha infância. E Fundo de Quintal, me lembra muito meu amor!”, revelou Jacksiara Araújo, 28. “O Jorge Aragão é o nosso vovô, ele é incrível.[…] A pessoa que conhece o Thiago Bispo, ela também viu o Jorge Aragão quando ela era criança, com os pais […] ‘Amor dos Deuses’ é a música que eu dediquei para ele” declarou Juliana,26, abraçada a Felipe, 28, que acrescentou: “Para mim, o samba significa exatamente essa garota que está do meu lado, porque ela significa energia, força e beleza.”
“Arte popular do nosso chão,
é o povo quem produz o show e assina a direção”
Canção Coisa de pele de Jorge Aragão, 1986)
A abertura dos trabalhos — para usar uma expressão popular que abre ritos de religiões de matriz africana — se deu na Roda com Samba do Tatu, que comemora seu aniversário hoje, dia 26 de julho. Desde 2018, quando surgiu de forma espontânea, a partir de encontros na porta da quadra da Acadêmicos do Tatuapé, o grupo reúne grandes músicos para interpretações genuínas de clássicos do samba no formato de uma autêntica roda de samba de raiz, batido na palma da mão, tornando-se referência na cena musical paulista.
Em seguida, entrou na gira (termo que também se refere a um ritual de religiões de matríz africana) a lenda do samba, Leci Brandão, cantora e compositora com mais de 40 anos de carreira e 25 álbuns. Ela, que foi a primeira mulher a participar da ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira e a segunda deputada negra da história da Assembléia Legislativa de São Paulo (Alesp). Seu show foi marcado por um momento de grande comoção, interrompido por um mal súbito que acometeu a cantora. A cantora foi levada ao hospital, onde realizou exames e constatou-se um pico de pressão. Ao fim do dia, Leci recebeu alta e voltou para casa. Em suas redes sociais, um comunicado tranquilizou os fãs e a artista agradeceu às mensagens de carinho e preocupação. Sua curta apresentação foi uma potente mostra de resistência e representatividade.

Mais tarde, o grupo Pagode da 27 fez questão de homenagear Leci Brandão, cantando seu clássico Zé do Caroço. Em entrevista ao Toca (UOL), o cavaquinista Leandro Carvalhal relata: “A Leci já esteve na 27. Ela é muito querida, e a gente a chama de tia Leci. Sempre que podemos, fazemos uma homenagem a ela, porque seu legado é importantíssimo para o samba.” Promovendo uma roda de samba todos os domingos no bairro do Grajaú, o grupo transformou uma das ruas mais violentas de São Paulo — que dá o nome ao grupo — em um patrimônio cultural. Além de atuar em ações comunitárias no bairro, há 18 anos o grupo faz do samba um instrumento de transformação social, que traduz as demandas populares em arte, como nos versos: “Favela / É reduto de poetas / Entre becos e vielas / Poesia a Deus dará” (“Filhos da Favela”, Pagode da 27, 2012).

O Grupo Façanha assumiu a Roda e apresentou clássicos de sua carreira de 30 anos. Uma delas, a música Pé na Areia, mais conhecida na interpretação de Diogo Nogueira, é de autoria do compositor, cantor e líder da banda Cauique, e foi indicada ao Grammy Latino na categoria de Melhor Música Brasileira.
Considerado uma promessa do samba e sucesso nas redes sociais, diretamente de Taboão da Serra, Thiago Bispo, de apenas 22 anos, foi um dos nomes da nova geração mais esperados da noite. Seu estilo é comparado ao de Almir Guineto, fundador do grupo Fundo de Quintal, por semelhança de voz e trejeitos. Mas com uma performance mais contemporânea e cheia de carisma, seu show mesclou clássicos e músicas autorais. Em entrevista ao Sala33, o sambista afirmou que “fico muito feliz das pessoas me enxergarem dessa forma, mas acho que eu estou fazendo só o que eu gosto, o que eu aprendi, o que eu curto mesmo. E o resultado é consequência.”
Dentre as celebridades, os shows mais aguardados foram os de Diogo Nogueira e Jorge Aragão, que dispensam apresentações. Com a plateia uníssona, seus grandes sucessos ecoaram sob uma lua cheia de tirar o fôlego. “Estou muito feliz de trazer músicas com mais de 60 anos de estrada e que ainda fazem sucesso. […] Podemos imaginar que esse movimento está nos levando para um outro quintal…”, declarou Jorge Aragão em referência ao grupo do qual já fez parte, o aniversariante Fundo de Quintal.
Patrimônio da música brasileira, o grupo surgido no bloco carnavalesco Cacique de Ramos revolucionou o estilo Partido Alto, ao introduzir instrumentos como tantã, repique de mão e banjo de quatro cordas. Com mais de 154 milhões de visualizações em seu canal do YouTube, além de mais de um milhão de ouvintes mensais no Spotify e 300 mil fãs na Deezer, o grupo Fundo de Quintal foi ovacionado em sua participação no Rock in Rio de 2024. E no Isso é Samba não foi diferente: “Isso é Fundo de Quintal, é pagode pra valer!” (Trecho da Canção “Isso É Fundo De Quintal”, de Leci Brandão, 1974). Com a participação ilustre dos ex-integrantes Sombrinha, Cleber Augusto e Ronaldinho, o grupo encerrou a noite, celebrando seus 45 anos em grande estilo.
E a gente vai ser feliz
Olha nós outra vez no ar
O show tem que continuar
O show tem que continuar, Fundo de Quintal, 1988)
*Imagem de Capa: Reprodução/Divulgação/ Isso é Samba/ Talento Comunicação
*Vídeos em hiperlink: Reprodução/ Divulgação/ Isso é Samba/ Talento Comunicação
