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Resenha | Taylor Swift retorna com novo álbum feito de glitter, amor e alfinetadas

Em retomada total do pop, a cantora mostra o outro lado da vida de uma showgirl
capa do álbum 'The Life of a Showgirl', da cantora Taylor Swift
Por Livia Bortoletto (liviafb@usp.br) e Pedro Henrique de Santana (pdsantanasilva@usp.br)

A artista estadunidense Taylor Swift fez sua volta triunfante às plataformas de música através de um álbum que rompe com a proposta estética e musical que vinha seguindo até então. Em The Life of a Showgirl (2025), a cantora retoma o pop clássico por meio de músicas mais maduras, cravejadas de glitter e lantejoulas. O disco é um retrato de uma mulher de 35 anos apaixonada e esperançosa quanto ao futuro, mas que não deixa de provocar rivais e empresários. 

De modo geral, o The Life of a Showgirl marca uma retomada total do pop, com melodias mais dançantes e letras mais leves do que o público costuma receber de Taylor. Apesar de serem compostas por versos menos profundos, as músicas continuam sinceras e bem construídas. A volta de Shellback e Max Martin deixou o álbum mais instigante, com instrumentais que reforçam a fama dos produtores presentes nos álbuns 1989 (2014) e reputation.

Ainda que seja mais acessível para pessoas que não conhecem a fundo a vida da cantora, o disco não é puramente comercial e serve, principalmente, como uma forma para ela dizer que está feliz e bem com a sua vida após a fase melancólica do The Tortured Poets Department (2024). Embora muitos tivessem a expectativa de uma era sensual e provocante por conta dos ensaios de fotos de divulgação, o álbum foi mais “Taylor Swift”: é confessional e aproxima os ouvintes. Também é autêntico, com arranjos que remontam o soft-rock dos anos 70 e com o uso excessivo de backing-vocals para lembrar o cenário de apresentação de showgirls, em locais como Las Vegas dos anos 60.

Taylor apostou no glamour e na sensualidade na estética de seu novo álbum [Imagem: Reprodução/Instagram/@taylorswift]

A estética do álbum é marcada pela sensualidade e pelo glamour vintage do teatro e dos cabarés, além de combinar tons de laranja com glitter e strass, para representar a vida de uma showgirl, sempre sob holofotes. Esse estilo fez com que o público especulasse antes do lançamento que o disco trataria de temas mais eróticos.

Mas tal expectativa foi quebrada: a intenção de Taylor no álbum é mostrar o outro lado da vida de uma cantora, ou seja, as dificuldades que enfrenta fora dos palcos — como explicitado na faixa que dá nome ao lançamento. Contudo, esse objetivo não foi atingido propriamente, pois só uma das faixas trata desse tema — e, ainda, de forma superficial. I Can Do It With A Broken Heart, canção de seu disco anterior, fala sobre o mesmo assunto de maneira mais profunda e triste. 

Esse é um ponto em que The Life of a Showgirl deixou a desejar: o lirismo tipicamente belo e melancólico de Taylor não esteve tão presente nesse álbum quanto em Folklore (2020), Evermore (2020) e The Tortured Poets Department (TTPD), seus últimos três lançamentos. Versos como “And if you never bleed, you’re never gonna grow (Se você nunca sangrar, você nunca vai crescer, em português)”, da canção The 1, de Folklore, e “I wish I could unrecall how we almost had it all (Eu queria poder esquecer a forma como quase tivemos tudo, em tradução livre)”, da faixa loml, de TTPD, foram substituídos no álbum novo por “When I said I dont believe in marriage/That was a lie (Quando eu disse que não acreditava em casamento/Isso foi uma mentira, em português)”, de Eldest Daughter.

De certo modo, essa mudança é compreensível, pois a cantora não está mais com o coração quebrado, em sofrimento por um amor que não deu certo. Apesar de ter proclamado na faixa You’re Losing Me, em Midnights (2022), “I wouldn’t marry me either (Eu também não me casaria comigo, em português)”, a profecia foi desfeita. Taylor está em uma fase diferente de sua vida, prestes a se casar com o jogador de futebol americano Travis Kelce. Por esse motivo, predominam no álbum letras românticas, abertamente dedicadas ao noivo. 

Dentre elas, está The Fate of Ophelia, o grande sucesso do álbum. Assim como fez em Love Story — uma releitura de Romeu e Julieta —, a cantora construiu na música um romance Swiftsperiano, uma mistura dos sobrenomes de Swift e Shakespeare. Taylor conta na letra que foi salva pelo seu amado do destino de Ofélia, personagem da peça Hamlet, de Shakespeare, que enlouqueceu e morreu afogada em um rio. Ainda há outras referências inteligentes ao jogador, como ao seu time, Kansas City Chiefs, e ao número 100: soma de 87, o número presente na camiseta de Travis, e 13, o número da sorte de Taylor. 

“Certa noite, você me desenterrou do meu túmulo e
Salvou o meu coração do destino de Ofélia”

Taylor Swift em The Fate Of Ophelia (tradução livre para o português)

Opalite é outra referência ao noivo: opala, o tema da canção, é a pedra que simboliza outubro, o mês de nascimento dele. Wi$h Li$t e Honey também são homenagens a Travis, porém com letras e ritmos menos envolventes.

A sensualidade presente na estética do álbum foi melhor representada por Wood, também dedicada ao noivo. Na música, Taylor fala sobre a “anatomia” de Travis e como ela quebrou a “profecia” a que a cantora estava presa — uma alusão direta à música The Profecy, do disco anterior. Um verso em especial torna explícita a sacada da cantora: “The curse on me was broken by your magic wand (A maldição sobre mim foi quebrada pela sua varinha mágica, em português)”. Apesar de toda a polêmica gerada em torno do erotismo da canção, a sua letra foi uma das mais bem pensadas do álbum justamente por fazer essa referência à música de The Tortured Poets Department, em um reflexo de como a vida amorosa de Taylor se transformou nos últimos meses.

A cantora anunciou o noivado com Travis Kelce no dia 26 de agosto [Imagem: Reprodução/Instagram/@taylorswift]

A faixa mais melancólica do álbum é Ruin The Friendship — um vislumbre da Taylor de Fearless (2008) e Speak Now (2010). A artista retoma memórias dolorosas sobre o arrependimento de ter hesitado em tomar a iniciativa para transformar uma amizade em um relacionamento amoroso. Segundo teorias dos fãs, a canção se referiria a Jeff Lang, um colega de escola de Taylor por quem ela cultivava interesse romântico. Contudo, esse amor nunca foi demonstrado, pois Jeff faleceu aos 21 anos. Ela canta: “But I whispered at the grave/Shouldve kissed you anyway (Mas eu sussurrei no túmulo/Deveria ter te beijado de qualquer maneira, em português)”. Seriam também para ele, supostamente, as canções Forever Winter, do álbum Red (2012), e Bigger Than The Whole Sky, de Midnights.

Relações expostas sob os holofotes

Outra característica marcante e que se faz presente em grande parte dos discos de Taylor Swift são as supostas indiretas para personalidades famosas que participam, tanto positivamente quanto negativamente, da narrativa de vida dela. 

A faixa mais áspera e que deixou os swifties, fãs de Taylor, e os fãs da cantora inglesa Charli xcx fervorosos foi Actually Romantic, uma suposta referência à Everything is romantic, música de Charli presente em Brat (2024). No álbum, indicado ao Grammy, os ouvintes especularam que a música Sympathy is a knife teria indiretas para Taylor Swift em sua letra, na qual Charli expressa insegurança com a presença da showgirl ao cantar: “Dont wanna see her backstage at my boyfriends show/Fingers crossed behind my back, I hope they break up quick (Não quero vê-la nos bastidores do show do meu namorado/Dedos cruzados atrás das minhas costas, espero que eles terminem rápido, em português)”. O trecho seria uma referência ao breve relacionamento de Taylor com Matty Healy, companheiro do namorado da inglesa na banda The 1975. 

Em Actually Romantic, para expressar sua indiferença com a rivalidade, a showgirl apostou em uma melodia mais tranquila e melosa para provocar a cantora de Brat, como nos trechos: “I heard you call me ‘Boring Barbie’ when the cokes got you brave (Eu ouvi dizer que você me chama de ‘Barbie Entediante’ quando a cocaína te deixa corajosa, em tradução livre)”; “High-fived my ex and then you said youre glad he ghosted me (Cumprimentou meu ex[-namorado] com um ‘toca aqui’ e disse que ficou feliz que ele me ignorou, em português)”. Na música, Taylor quis expor o quão unilateral é a briga, muito fomentada pelos fãs de ambas e causada, principalmente, pela insegurança da própria Charli.

Nem só de rivalidades o The Life of a Showgirl é feito. A faixa número 10, Cancelled, trouxe de volta a estética “dark” e luxuosa de reputation (2017), um dos álbuns mais queridos pelos fãs de Taylor. Na música, ela aponta como aprendeu a não julgar precipitadamente as pessoas, em especial após a onda de cancelamento que sofreu em 2016, e sai em defesa dos amigos que estiveram ao lado dela durante esse período: “They stood by me before my exoneration/They believed I was innocent, so I’m not here for judgment (Eles ficaram ao meu lado antes da minha exoneração/Eles acreditaram que eu era inocente, então não estou aqui para julgamentos, em português)”. 

A canção parece remeter ao período em que a amizade de Taylor com a atriz Blake Lively esteve abalada, com diversos portais sugerindo um fim após Justin Baldoni ter envolvido a cantora em um processo de assédio que Lively move contra ele. Porém, a artista quis mostrar que a amizade das duas continua mais firme do que nunca — principalmente agora que as duas têm “cicatrizes que combinam”. A letra diz: “Good thing I like my friends cancelled/I like em cloaked in Gucci and in scandal (Ainda bem que gosto dos meus amigos cancelados/Gosto deles envoltos em Gucci e em escândalos, em tradução livre)” ; “At least you know who your friends are/We’re the ones with matching scars (Pelo menos você sabe quem seus amigos são/Somos aqueles com as cicatrizes combinando, em português)”.

Taylor Swift também incluiu no seu novo álbum a disputa pelos direitos autorais de suas obras com Scott Borchetta, executivo da gravadora Big Machine Records que assinou o contrato com a artista quando ela tinha 15 anos e vendeu as masters das produções dela para Scooter Braun em 2019. A interpolação da música Father Figure com a homônima de George Michael destaca essa faixa como uma das mais significativas.

A letra, o instrumental e os vocais da ponte da canção estão entre os melhores por trazerem uma mudança repentina de ritmo não percebidas explicitamente em outras músicas do The Life of a Showgirl com o trecho: “I saw a change in you/My dear boy, they don’t make loyalty like they used to (Eu vi uma mudança em você/Meu querido garoto, eles não fazem lealdade como costumavam fazer, em tradução livre)”. Taylor quis mostrar que é uma joia rara e que a ter como parte da gravadora é sinônimo de riqueza, então ela se coloca como figura paterna de Borchetta. “Mistake my kindness with weakness and find you card cancelled (Confunda minha gentileza com fraqueza e encontre seu cartão cancelado, em português)” é um dos dos trechos que explicita a sede de vingança da cantora.

Como uma boa contadora de histórias, Taylor Swift não deixou pontas soltas e trouxe o grande final dessa narrativa: a recompra dos direitos de seus álbuns em 2025. “This empire belongs to me, leave it with me (Esse império pertence a mim, deixe-o comigo)”, ela canta. 

O outro lado da carreira de artista

Para fechar com chave de ouro o ciclo da sua turnê global “The Eras Tour” junto com o novo álbum, Taylor Swift convidou Sabrina Carpenter para participar da música-título The Life of a Showgirl, na qual as duas expõem para o público que a vida de uma showgirl não é apenas glitter e glamour. As artistas dão vida a Kitty, eu-lírico e personagem presente no videoclipe do single The Fate of Ophelia, que encarna a ideia de deslumbre e ostensividade, mas que tem uma trajetória marcada por sacrifícios pelo ofício de quem vive nos holofotes. O sentimento é representado por versos como “Wait, the more you play, the more that you pay (Espere, quanto mais você se apresenta, mais você paga, traduzido para o português)”.

O público já tinha a expectativa de que a faixa fosse ser a mais dançante por conta do título e pelo histórico do que Sabrina costuma apresentar em seus trabalhos. A dupla conseguiu entregar de forma maestral os bastidores da vida de um cantor que dá tudo de si para criar um momento mágico com os fãs no palco. 

Embora haja um fascínio pela vida dos artistas atrás das cortinas, Taylor conseguiu transmitir na canção a ideia de que o preço de viver o sonho de arrastar multidões pelo mundo é o cansaço e o casamento com o ofício. Junto com Sabrina, ela se despede do 12° álbum através de uma demonstração do amor que tem pela música e pelos fãs com um trecho gravado do fim de um show da turnê “The Eras”: “Thank you for an unforgettable night! We will see you next time”; “That’s our show, we love you so much” (“Obrigada por uma noite inesquecível! Vamos nos ver da próxima vez” e “Esse foi o nosso show, amamos vocês”, respectivamente, em tradução livre).

Taylor retomou a parceria com os produtores Max Martin e Shellback em The Life of a Showgirl [Imagem: Reprodução/Instagram/@taylorswift]

Mais uma vez, Taylor quebra recordes

Além das faixas românticas e a volta dos produtores Max Martin e Shellback, The Life of a Showgirl também chamou atenção pelos inúmeros recordes que quebrou — embora esse não seja um desempenho inesperado para lançamentos da artista. De acordo com a Billboard, no dia do seu lançamento, em 3 de outubro, o álbum vendeu cerca de 2,7 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos. Com uma semana, Taylor conseguiu superar as vendas do disco 25, da cantora Adele, que vendeu 3,482 milhões de cópias na sua primeira semana, e chegou a um total de quatro milhões de discos vendidos apenas nesse período.

Pela terceira vez, Taylor preencheu o Top 10 das paradas Billboard Hot 100 com faixas inéditas, feito precedido pelos álbuns Midnights (2022) e The Tortured Poets Department (2024). De acordo com o Spotify, o disco se tornou, no dia da estreia, o mais escutado de 2025, e o single The Fate of Ophelia, a música mais escutada do ano. Dezenove anos depois do lançamento de sua carreira, o 12° álbum de estúdio de Taylor reafirma a longevidade e o status de fenômeno cultural da cantora, capaz de transformar cada lançamento em um evento gigante.

*Imagem de capa: Reprodução/Republic Records

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