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‘Um legado da resistência contra o autoritarismo’: o confronto histórico da rua Maria Antônia

Professor que presenciou a batalha estudantil entre alunos da USP e do Mackenzie analisa o conflito que expôs as tensões políticas provocadas pelo regime militar
Por Matheus Andriani (andrianimatheus@usp.br)

A derrubada do presidente João Goulart em 1964 foi responsável por estabelecer um cenário de polarização política no Brasil. Os civis favoráveis ao golpe de Estado que depôs Jango acreditavam que não demoraria muito para os militares restituírem a democracia, o que não aconteceu. Nos anos seguintes, as manifestações de caráter contrário ao regime aumentaram, e o movimento estudantil da USP adotou uma postura de vanguarda ao organizar mobilizações populares que incomodaram os apoiadores da tirania.

Situadas na rua Maria Antônia, no distrito da Consolação, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) e a Universidade Presbiteriana Mackenzie se tornaram cerne de um conflito estudantil que resultou na morte de José Guimarães, um jovem secundarista de 20 anos.

O conflito teve início no dia 3 outubro de 1968, após alunos da USP realizarem a cobrança de um pedágio no local, cujo objetivo era a arrecadação de fundos para o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), que aconteceria naquele ano. 

Adeptos ao projeto de reforma conservadora das universidades e contrários às manifestações anti-ditadura, um grupo de alunos do Mackenzie resolveu reagir. Com o apoio da polícia política e impulsionados por estudantes da instituição ligados ao grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas, os jovens dispararam rojões, foguetes, coquetéis Molotov e tiros contra os alunos da FFCL, que revidavam com pedras e tijolos. 

Em entrevista à J.Press, o professor e diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, José Álvaro Moisés — que estava presente no confronto — explica as motivações de sua eclosão e analisa como ele se relaciona diretamente com o ambiente repressivo imposto pelo regime militar então vigente no Brasil.

J.Press – O que estava em jogo na disputa entre os estudantes da Faculdade de Filosofia da USP e os estudantes do Mackenzie? 

José Álvaro Moisés – Estava em jogo dois projetos de reforma universitária, o da USP que, apesar da direção da universidade ser conservadora, abriu mais debates entre professores, funcionários e alunos; e o do Mackenzie que se espelhava na proposta do governo militar que, em essência, queria se apoiar no modelo universitário norte-americano. Da discordância intelectual, os mackenzistas passaram ao ataque e à violência contra os estudantes da USP que eram classificados como “comunistas”. 

J.Press – Qual era o cenário na rua Maria Antônia, e de que maneira se deu sua atuação naquele episódio?

José O cenário da Maria Antônia era o de uma guerra local. Os mackenzistas começaram a atacar os alunos da USP que tinham feito a invasão da faculdade como uma política de discordância com a decisão das autoridades da universidade de fazer a reforma sem ouvir as Comissões Paritárias. O ataque foi físico e os alunos da Filosofia entraram em conflito com os estudantes do Mackenzie.

Presenciei e participei de dois modos: eu era o representante dos alunos de Ciências Sociais na Comissão Paritária que funcionava na FFCL para debater a reforma universitária, e que teve de interromper seus trabalhos com a invasão que ocorreu. Eu era aluno do curso de Ciências Sociais e, assim, solidário com meus colegas.

Mas, ao mesmo tempo, eu era repórter da Folha de S.Paulo trabalhando na cobertura dos acontecimentos. Por isso, não entrei diretamente no conflito porque tinha de reportá-lo ao jornal e seu público. Mas participava discutindo as opções que o grêmio da faculdade tomava em face do conflito. Minha posição era a favor de evitarmos um conflito aberto com os alunos do Mackenzie porque a polícia estava ao lado deles. 

O estudante secundarista José Guimarães foi morto aos 20 anos em decorrência de um disparo de arma de fogo vindo do prédio do Mackenzie [Imagem: Reprodução/Memória do TRT-2]

J.Press – Por que a rua Maria Antônia se tornou o epicentro da batalha? 

José  Porque os alunos da Filosofia eram os mais ativos na luta pela reforma universitária (uma das reivindicações mais importantes era acabar com as Cátedras), e bem perto estavam as faculdades de Economia e de Arquitetura, cujos estudantes ativos se uniram ao grupo da Filosofia. 

Mas o cenário esquentou porque do outro lado da rua apareceu um ator agressivo, apoiado pela polícia política, e que rompeu a linha que separa a divergência política da violência física contra seus antagonistas. 

J.Press  –  O que era defendido por cada um dos lados? 

José O que dividia os dois grupos eram, de um lado, um projeto de universidade pública – que precisava se modernizar, – e, de outro, um projeto que pensava a universidade com base em uma concepção privada, como no caso do Mackenzie. 

Mas essa luta pela reforma universitária deu motivo para o movimento estudantil reagir contra a ditadura militar. Enquanto no caso dos alunos do Mackenzie, era a defesa do governo, cuja orientação geral era essencialmente privatista, e que rejeitava a noção de que políticas públicas fundamentais, como a educação, deveria visar o bem público e, portanto, tinha uma natureza republicana. 

J.Press – Como se caracterizava o ambiente político e estudantil que antecedeu a Batalha da Maria Antônia e de que forma esse contexto contribuiu para o desencadeamento do conflito?

José O país vivia sob um governo autoritário, resultante de um golpe de Estado do qual foram protagonistas os militares conservadores. O conflito ocorreu apenas quatro anos após o golpe e os estudantes e professores, em sua maioria, eram opositores do regime militar. 

As greves estudantis e as invasões eram formas de protesto contra decisões que, mesmo da USP – considerada uma das melhores universidades do país, nascida de uma iniciativa do campo liberal – eram criticadas pelo movimento estudantil que via o risco de as autoridades uspianas seguirem a orientação do governo militar, que era considerada, no que se refere à reforma universitária, uma interferência imperialista em nosso país. Os militares tinham chamado professores norte-americanos para orientar a reforma que consideravam indispensável. 

José Dirceu, então presidente da UEE-SP, se destacou como liderança do movimento estudantil e foi preso no ano seguinte [Imagem: Reprodução/Instagram/@zedirceuoficial]

J.Press – O que a Batalha da Maria Antônia ensina sobre o papel das universidades e da juventude na defesa da democracia, especialmente diante dos desafios políticos atuais do Brasil?

José Os movimentos de protesto contra a ditadura militar ocorridos em 1968 – que antecedem a decretação do AI-5 – um verdadeiro golpe dentro do golpe – mostram que, como ocorreu nos anos seguintes, a defesa da democracia sempre depende da mobilização do povo, isto é, dos cidadãos que formam a república democrática. 

O episódio deixou vítimas em São Paulo e em outros estados, mas é um legado da resistência contra o autoritarismo, especialmente como no caso da atual extrema direita no Brasil, cujo propósito fundamental é desconstruir as conquistas humanitárias que o desenvolvimento da democracia conseguiu realizar. 

As ameaças contra a democracia só podem ser efetivamente enfrentadas com o esclarecimento e a mobilização do povo, cuja maioria tem a condição de eleitores, isto é, dos detentores da soberania política. 

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