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Hamburgo, esgotaram-se os milagres
ARQUIBANCADA
13 maio 2018 | Por Jornalismo Júnior

Por César Costa

Apesar de não ser o clube mais popular aqui no Brasil, o Hamburger Sport-Verein (HSV) tem alguma fama em terras tupiniquins. Além de ser conhecido pela derrota para o Grêmio na final da Copa Intercontinental de 1983, é famoso por ser o único time a disputar todas as edições da Bundesliga… até agora.

Fim da linha, o Hamburgo caiu para a segunda divisão (Imagem: Patrik Stollarz/AFP)

Um dia histórico, negativamente, para a história do HSV. Depois de 54 anos e 261 dias no atual Campeonato Alemão, o campeão da Champions League de 1983 caiu para a segunda divisão. A marca que era um dos maiores motivos de orgulho para sua torcida não existe mais. Mesmo com a vitória por 2 a 1 sobre o Borussia Mönchengladbach na última rodada, a vaga nos playoffs ficou com o Wolfsburg, que venceu o já rebaixado Colônia em casa e ficou com a 16º colocação (na Bundesliga, os dois últimos colocados, 18º e 17º, são rebaixados, enquanto o 16º disputa a vaga na primeira divisão com o terceiro colocado da segunda divisão).

O clube de 130 anos, que deveria ser experiente, foi amador nos últimos tempos. Foram erros atrás de erros que o colocaram na situação atual. Assim como temporadas consecutivas de sucesso são méritos de trabalhos bem feitos, temporadas consecutivas de fracassos são consequências de falhas de planejamento e execução.

As coisas começaram a desandar com um susto na temporada 2011/12, e a degringolar de vez a partir da temporada 2013/14. De 2013 para cá, foram dois playoffs consecutivos e pontuações próximas do mínimo para se salvar do rebaixamento.

Primeiro, em termos administrativos, o Hamburgo não soube organizar suas finanças. Em 2014, o clube quase foi rebaixado em campo e fora dele. Para poder jogar a Bundesliga, todos os 18 times alemães da liga nacional devem ter uma licença da Liga Alemã de Futebol (DFL), que comprove garantias financeiras necessárias. Como o Hamburgo tinha uma dívida avaliada em 100 milhões de euros, a DFL poderia não liberar sua licença, fazendo com que o time fosse rebaixado à 2.Bundesliga.

Hamburgo teve uma média de público absurda, quase o dobro da média de público do Palmeiras (30.956), maior média do Brasil. Renda não falta (Imagem: Reprodução/Bundesliga)

Em segundo lugar, e até mais visível, a desorganização na parte esportiva. De 2007 até os tempos atuais, o clube teve nada menos que catorze técnicos diferentes, média de aproximadamente um treinador diferente a cada nove meses. Isso reflete em campo: é difícil definir qual é o padrão de jogo do Hamburgo em todo esse período. Como são treinadores de perfis distintos, cada ano era um novo recomeço, enquanto outros times aprimoraram suas propostas de jogo. Para se ter um parâmetro: o Borussia Mönchengladbach, último adversário desta temporada no ‘Alemão’, já tem certa estabilidade no país desde 2011, trocando de técnico somente duas vezes nesse período.

Quanto aos seus atletas, o Hamburgo sempre teve figuras relevantes dentro de seu elenco e uma qualidade individual acima do necessário para, pelo menos, não cair e atingir o meio de tabela. Neste ano, mesmo sendo rebaixado, o time contava com bons jogadores: Aaron Hunt, Lewis Holtby, Filip Kostic, o jovem Tatsuya Ito, entre outros. Mas, mesmo em outros anos, com jogadores até melhores, continuou o mesmo drama contra o rebaixamento.

No primeiro ano em que o clube disputou o playoff,  o elenco contava com o holandês Rafael Van der Vaart, ex-Real Madrid e Tottenham Hotspur, jogador que ainda era figura certa na Copa do Mundo de 2014 mas não a disputou devido a lesão; o turco Hakan Çalhanoğlu, atualmente o camisa 10 do Milan, uma das principais promessas do futebol internacional, e René Adler, goleiro sucessor de Jens Lehmann na seleção alemã até a entrada de Manuel Neuer.

Ainda houve outros bons nomes, mas não de tanta grife, que passaram nesses últimos anos, como Marcell Jansen, Dennis Aogo, Heiko Westermann, Milan Badelj e até Heung-min Son. Mesmo assim, o encaixe dentro do campo não aconteceu. Talvez a maior prova dessa capacidade dos jogadores do Hamburgo sejam as boas exibições em jogos esporádicos ao longo desses últimos anos.

Em fevereiro de 2014, recebendo o Borussia Dortmund em casa, o Hamburgo aplicou um sonoro 3 a 0, sendo que, na rodada passada, tinha perdido e sofrido quatro gols do lanterna da competição, Braunschweig. Neste ano de 2018, conseguiu vencer o vice-líder Schalke por 3 a 2, mas, quando enfrentou o líder Bayern, tomou um vareio de 6 a 0.

Se forçasse, daria para chamar o Hamburgo de bipolar, porém, os resultados ruins são muito mais constantes. Às vezes, o que o torcedor vê são lampejos de um time com potencial, mas que é muito pouco aproveitado.

Sinônimo do improvável

Talvez a maior peculiaridade do Hamburgo, e o que atrai a atenção dos fãs do futebol, é sua mania de executar milagres atrás de milagres. Nos anos em que escapou de cair, parecia destino que o time entrasse numa situação quase impossível de se reverter e desse a volta por cima. Certamente, a postura que costuma adotar nos finais de cada temporada vem sendo exemplar, ao contrário do que faz no resto do calendário.

Ao olhar para o desempenho dos últimos três anos, esse ‘método’ de se manter fica bem visível. Na última temporada (2016/17), foram 13 pontos conquistados nos primeiros 17 jogos, resultando na terceira pior campanha do primeiro turno. No returno, por outro lado, foram 25 pontos – quase o dobro – e o sétimo melhor retrospecto. Em 2015/16, houve uma maior regularidade, o que deu uma posição no meio de tabela, ainda que tenha chegado na última rodada com apenas três pontos à frente do primeiro da zona do descenso. Porém, 2014/15 foi uma temporada à parte e inacreditável.

Nas últimas três partidas do encerramento daquela liga, o Hamburgo conseguiu dois milagres e um resultado inesperado. Primeiro contra o Mainz, em que o volante Gojko Kacar marcou um gol a três minutos do fim da partida, dando três pontos preciosíssimos. Na rodada seguinte, contra o Freiburg em casa, era confronto direto pela permanência. O placar ficou em 1 a 0 para os visitantes até os 90 minutos, quando novamente Kacar empatou a partida. Por fim, enfrentando o sexto colocado Schalke, o Hamburgo conseguiu vencer por 2 a 0 e ficar um ponto na frente do 17º colocado. Curioso é: se perdesse um ponto sequer em qualquer um desses três jogos, o Hamburgo cairia.

Pois é. Os milagres não acabariam por aí. Nos playoffs, contra o Karlsruher, mais do impossível viria acontecer. Depois de empatar a primeira partida por 1 a 1 fora de casa, o Karlsruher vencia o jogo de volta por 1 a 0 até os 90 minutos – e o raio caiu mais uma vez no mesmo lugar. Falta na entrada da área e Marcelo Díaz empata a partida para o Hamburgo. Detalhe: foi seu primeiro e único gol pelo Hamburgo. Na prorrogação, como se já não bastasse tudo que havia acontecido, Nicolai Müller vira para o HSV e Adler ainda pega um pênalti aos 120 minutos. A reação dos jogadores e membros da comissão técnica ao final do jogo é algo impagável.

Nicolai Müller foi protagonista num dos playoffs mais históricos da Bundesliga (Imagem: Matthias Hangst/Getty Images)

Não acho que exista explicação para algo como isso (ou que precise): é simplesmente Hamburgo. Uma camisa pesada que existe desde 1887, o apelido de “Dinossauro da Bundesliga” pela longevidade e uma tradição única. Por mais que não seja o mais popular, não tem como não sentir saudades de um clube tão icônico do futebol mundial e com tantas histórias sensacionais. Esse 2018 é um ano realmente triste na sua história, mas não deve ser esquecido.

É difícil te contar isso, Hamburgo, mas o sonho acabou. Os tempos de ouro já se foram, os difíceis ainda vão continuar. É hora de se reerguer, aprender com todos esses erros e voltar a estar entre o grandes, este que nunca deixará de ser o lugar que você merece.

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