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Jodorowsky: o filho do pai
CINÉFILOS
27 jan 2020 | Por Matheus Oliveira (oliveiramatheus123@gmail.com)

“Todos somos filhos de alguém. E eu acho que todo filho tem que se confrontar com uma relação ao pai; é um esquema pelo qual todos passamos”, Brontis J.

Alejandro Jodorowsky é filho de Jaime Jodorowsky e Sara Felicidad. Nasceu na cidade de Tocopilla, Chile, no ano de 1929 e se tornou pai aos 33. Além de Brontis Jodorowsky, o primogénito, é também pai de Adam, Axel e Teo (Já falecido). Ator, cineasta, desenhista e “psicomago”, como se autointitula, Alejandro é hoje, aos 89, genitor de uma família majoritariamente composta por artistas. 

Filho de um comerciante de temperamento severo, desde pequeno Jodorowsky foi encorajado a abandonar suas aspirações artísticas e trabalhar nos negócios da família. Foi criado sob um rígido manual de condutas e distanciamento afetivo com o pai como era comum à época —, porém mesmo assim, quando adulto, partiu para a França com o desejo de trilhar seus próprios caminhos. A partir daí, suas relações com o pai foram, para sempre, completamente interrompidas.

Dezessete anos após deixar o Chile, em 1970, Alejandro lança seu primeiro filme de grande sucesso seu terceiro como diretor. O surrealismo faroeste de  El Topo (1970) chega a entrar no rol de filmes “cults” dos Estados Unidos graças a ajuda de John Lennon e Yoko Ono, que juntos convenceram a Apple Records a comprar os direitos e distribuir a obra no país. Após o sucesso, Jodorowsky se consagra como cineasta e produz outros filmes para o circuito do cinema alternativo até o ano de 2013, quando decide retomar sua relação com o pai e filmar sua própria vida em uma espécie de autobiografia cinematográfica, contada em “A dança da realidade” (La Danza de la Realidad 2013) e “Poesia sem fim” (Poesia Sin Fin 2016).

Nos filmes, o ator escolhido para interpretar Jaime, o pai do cineasta, é seu próprio filho, Brontis Jodorowsky, neto de Jaime. Sobre o enfrentar das questões familiares, Brontis conta: “Todos somos filhos de alguém. E eu acho que todo filho tem que se confrontar com uma relação ao pai; é um esquema pelo qual todos passamos. Ser filho de Alejandro Jodorowsky implica, para mim, que tenho pais diferentes: o personagem público, que várias pessoas conhecem — ou acreditam conhecer —, e sobre o qual têm opiniões que são mais em torno de suas obras. E o personagem privado, a pessoa que eu vejo todos os dias, com o qual o significado de minha relação variou com os anos”. Acerca do pai, Alejandro, o ator completa: “Em relação à personalidade, digamos, fora da esfera privada artística, é obviamente uma pessoa que viveu essencialmente em torno do desenvolvimento da sua imaginação. Minha relação com ele foi pautada em torno da criação artística, na medida em que eu conheci meu pai aos seis anos e ao seis anos e meio fizemos El Topo. A partir daí acredito que colaboramos artisticamente oito ou nove vezes entre filmes, ultimamente com La Danza de la Realidad e Poesia Sin Fin,  mas antes com três obras de teatro e a tradução do teatro para o francês, quadrinho, cinema…”

“Vestido de tirano, Jaime pune seu filho em Dança da realidade” [Imagem: Reprodução]

A Dança da Realidade (La Danza de la Realidad, 2013) é o início de uma saga poética pela qual Jodorowsky se muniu para narrar sua infância. A história começa acompanhando “Alejandrito”, um menino por volta dos dez anos que vê em seu Pai a mais clara representação de um tirano o que se confirma em cenas onde a criança é obrigada a cortar o cabelo contra a própria vontade e ser submetida a um tratamento dentário sem anestesia. 

Todos os personagens do filme são concebidos em papéis altamente performáticos. Sara (Pamela Flores), a mãe do garoto, é uma descendente russa que só se comunica através de cantigas, nos embalando a todo tempo em uma eterna ópera em notas soviéticas. Com veste e bigode de ditador, o pai, Jaime (Brontis J.), é um grande admirador de Stalin ao mesmo tempo em que luta contra a ficticia ditadura nazista chilena de Ibáñez. 

“Alejandro, Sara e Jaime em A Dança da Realidade” [Imagem: Reprodução]

Brontis conta sobre como trabalhou para lidar com a figura do avô e representá-lo no cinema: “Tínhamos já uma história com isso, na medida em que quando eu lhe perguntava [à Alejandro Jodorowsky] sobre meu avô, no geral sua reação era bem epidérmica, cheia de ressentimento: “esse velho cabrón”. Muitas coisas que se contam em La Danza de la Realidad, como a extração de dente sem anestesia; o corte de cabelo violento; ser tratado como covarde em permanência; esse tipo de coisas meu pai me contou quando eu era pequeno. Sua relação com seu pai ser nula obviamente foi um obstáculo para que eu tivesse uma relação com meu avô. Então, quando Alejandro me disse “Bom, você tem que se preparar, vai fazer Jaime, seu avô, meu pai”, eu disse não, isso não me serve porque eu não o conheço, vou atuar o papel que está no roteiro. Assim, fui buscar dentro do roteiro esse personagem como se fosse qualquer outro, não necessariamente um da minha vida pessoal. E claro, dentro da história familiar, ele decidiu fazer um filme sobre seu pai, o que não é uma biografia realista, mas uma metáfora, uma transposição de sua memória.”

A primeira parte da ‘Cinebiografia’ é palco para a luta travada entre Jaime  e a perversa ditadura instaurada por Ibánez. Com uma sociedade em colapso e uma repressão cada vez mais presente, Jaime, acompanhado de um amigo do grupo comunista do qual faz parte, decide ir até a capital do país assassinar Ibáñez. Porém, ao chegar à capital, o personagem se arrepende do plano e impede seu companheiro de matar o ditador, se atirando na frente da arma. Após o episódio, Jaime começa a trabalhar para seu próprio inimigo, Ibáñez, até que entra em um colapso de consciência e esquece quem é. Quando recobra a memória e volta para Tocopilla, é colocado diante de uma verdade intragável: não teve coragem de matar Ibáñez porque sempre cultuou e enxergou nos ditadores a si mesmo. 

Após o episódio, a família parte para Santiago e deixa Tocopilla, e a infância de Alejandro, para trás.

“O ensinamento que recebi de meu pai e também de minha mãe é a valorização da liberdade”, Brontis J. [Imagem: Reprodução]

Poesia Sem Fim (Poesía Sin Fin, 2016) é a continuação da relação pai-e-filho, mas dessa vez na adolescência e estágio adulto de Alejandro. Ao desembarcar em Santiago a família retoma os negócios uma loja de roupas e Jaime volta a ser o mesmo tirano de antes. Agora adolescente, Alejandro já não obedece as ordens do pai e começa expressar seus anseios literários escrevendo poesias. Se muda para uma casa de artistas e deixa sua família, para viver sem as antigas amarras. A marca do segundo filme é, sem dúvidas, o autodescobrimento de Alejandro em suas aspirações artísticas que já não podem ser freadas.

Diferenciando-se do primeiro filme, o que mais importa em Poesia Sem Fim são as impressões subjetivas presentes na obra, e não o roteiro em si. O amadurecimento do protagonista e sua descoberta como artista fecha um ciclo de hesitações e dá lugar a um novo mundo, diga-se pelo próprio título do longa, permeado por poesia. A película também marca a partida do artista para a França e sua reconciliação com pai, que nunca ocorreu na realidade, porém foi empregada no cinema como modo de representar a despedida que o diretor nunca teve. 

Em entrevista à Jornalismo Júnior, o protagonista de ambos os filmes, Brontis Jodorowsky, conta como foi vivenciar a experiência:

Pergunta: O que sentiu representando seu avô e o que você e esse personagem  têm em comum?

Resposta: “O efeito mais íntimo, mais pessoal, foi quando o filme se exibiu em Cannes na Quinzaine des Réalisateurs, a quinzena dos diretores. Quando o filme se fez um objeto que pertence ao público, quando o vi em uma sala com pessoas que o descobriam, aí havia mais uma emoção de nível pessoal e familiar e senti mais o que é o processo de reumanização deste personagem, que na minha mitologia familiar era puramente negativo e através da minha interpretação de certa maneira se humanizou. Havia uma fala que Sara, sua esposa, que dizia ao seu marido: Você tem vivido disfarçado de tirano”. Então entendi que, no início do filme, quando o personagem está vestido de Stalin, ele está disfarçado. É um homem que está atuando um personagem. Então eu era ator, atuando um homem que atua um personagem.”

Em outras entrevistas, seu pai já contou que viu em  Poesia Sem Fim um modo  de se reconciliar com seu avô. Você também vê a arte como um campo que pode restaurar relações com o outro e consigo mesmo?

“Alguém me perguntou um dia o que é arte e eu disse, a arte é o que permite ao espectador mudar seu olhar, ver as coisas de outra maneira, de certo modo é algo que abre seus olhos. E o que eu creio que o público vê nesses filmes, mais que a história em si, é a possibilidade de fazer um processo de trabalho sobre sua memória, sobre sua história familiar. Então, obviamente se a arte não serve para para algo, se a arte serve só para entreter e distrair, não serve de nada.”

Ainda sobre pais e filhos, quais são os ensinamentos que recebeu quando era pequeno e deseja transmitir aos seus filhos?

“O ensinamento que recebi de meu pai e também de minha mãe é a valorização da liberdade, da liberdade interior. Se cuidar dos esquemas mentais nos quais a gente pode se fechar, da repetição de si mesmo. Da possibilidade de que a vida é variada, se fazem muitas coisas; minha mãe foi estudante de artes, atriz, dirigiu um centro cultural na África, depois foi enfermeira, também foi líder de um micro partido político. E meu pai também, seu exemplo artístico foi maravilhoso no sentido de que não se limitou a ser cineasta, escritor ou desenhista, porém que mais utilizou a arte de maneira totalmente aberta e se expressou em diferentes meios. Às vezes, para zombar, dizia que somos como pessoas do Renascimento que fazem várias coisas, com modéstia e proporção considerada. Leonardo Da Vinci fazia arquitetura, engenharia, pintura, escultura e não se limitava a fazer apenas uma coisa, então de certa maneira, o que recebi de mais importante é não limitar uma visão de si mesmo, considerar que sempre se pode progredir e avançar, evoluir, se desenvolver e que todas as rotas nos são abertas. E claro, a busca de si mesmo, do conhecimento de si mesmo, não de um ponto de vista narcisista talvez, mas para conhecer o mundo e contribuir com seu grão de areia na praia.

Confira abaixo a entrevista completa:

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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