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Mostra Internacional de SP: Enquanto Estávamos Sonhando
CINÉFILOS
04 nov 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Luiza Queiroz
luiza.agnol@gmail.com

Este filme faz parte da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para conferir a programação completa clique aqui
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“Eu conheço uma canção de ninar. Eu a sussurro para mim mesmo, quando tudo fica louco dentro da minha mente”. É assim que Dani (Merlin Rose) começa e termina a história de sua adolescência, ao lado de seus quatro melhores amigos, em meio à reunificação alemã na década de 90. Em um momento da História no qual o destino da própria Alemanha mostrava-se ineditamente incerto, os cinco adolescentes tentam passar juntos por uma vida que segue sem nenhum ponto seguro no horizonte. Com um roteiro não-linear e uma filmagem que parece tão à deriva quanto os próprios garotos, a obra é talvez um dos relatos mais ricos já feitos sobre a juventude, e consegue mostrar a poesia violenta que é a adolescência.

A poesia está na própria amizade entre os cinco: Dani, Rico (Julius Nitschkoff), Pitbull (Marcel Heupermann), Paul (Frederic Haselon) e Mark (Joel Basman) são irmãos, e pouco lhes importa se não têm o mesmo sangue. Juntos, eles tentam criar um futuro quando não parece existir nenhum lampejo dele: fundam uma boate de música eletrônica, são perseguidos por um grupo neonazista, enfrentam a polícia, envolvem-se com drogas. Já a violência está no caos – político, social e emocional – existente por trás de tudo isso. Não é uma trama suave, e grande parte de sua intensidade deve-se ao talento dos atores principais (sobretudo Rose e Nitschkoff), que encarnam com competência as personagens complexas que povoam a narrativa. A única exceção é Starlet, o interesse amoroso de Dani, que acaba caindo no estereótipo da garota linda e frágil, incapaz de cuidar de si mesma.

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A obra não teria, porém, tanta vivacidade sem sua trilha sonora e sua filmagem oscilante. Recheado por uma melodia techno muito bem encaixada nas cenas, o filme impacta e emociona ao mesmo tempo. Já a filmagem merece um destaque ainda maior, por traduzir perfeitamente a falta de rumo que definia não só aquelas cinco vidas, como também o próprio contexto histórico: a câmera muda constantemente de ângulo, gerando alguns planos-sequência intensos, e sempre dando a impressão de estar sendo posicionada um tanto ao acaso, sem uma trajetória clara.

Já a fotografia é bastante escura durante a maior parte do filme. Não é de espantar: tudo aquilo pelo que passam os cinco amigos não poderia ser representado sem a dose apropriada de escuridão. Isso porque, na maioria das vezes, não são experiências positivas por si só – mas a direção brilhante de Andreas Dressen consegue fazer com que até mesmo uma cena de adolescentes bêbados quebrando carros revele certa beleza. Um dos momentos mais envolventes ocorre quando Rico ameaça atirar em um dos rapazes dentro do clube. A música pára completamente, e as imagens que se seguem são iluminadas somente pela luz piscante da boate, de modo que o espectador não sabe se, no instante em que a luz voltar, alguém terá morrido. Além de toda a tensão do episódio, existe também um lado estético muito presente na obra inteira.

A exceção às cenas escuras da juventude são as memórias que Dani tem de sua infância: seu primeiro amor, seus primeiros contatos com o regime socialista da Alemanha Oriental, suas primeiras histórias com seus amigos, e seu amadurecimento precoce em uma época na qual a infância não tinha lugar. Essa iluminação predominante nas cenas em que os protagonistas ainda eram crianças dá um certo tom de idealização romântica da infância, mesmo que o espectador perceba as imperfeições desse período na vida dos cinco. Talvez fosse um período ideal se comparado à adolescência, quando o certo e o errado, o belo e o degradante, tornam-se uma zona cinzenta para Dani, Mark, Rico, Pitbull e Paul.

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Retratar um período conturbado como a juventude, em um contexto mais conturbado ainda não é tarefa fácil. É bastante tentador deixar-se envolver completamente pelo caos e acabar produzindo uma obra que nada tenha a acrescentar além de desordem. Não é o caso aqui: ao mesmo tempo em que mostra toda a desorientação que era viver naquela época, o filme parte da confusão retratada para mostrar que, por trás dos grandes momentos históricos, existem seres humanos lutando pelo seu direito de ter um cotidiano trivial.

Digo confusão, porém talvez devesse dizer contraste. Isso porque Enquanto Estávamos Sonhando oscila magnificamente entre o belo e o degradante e, não raro, acaba por misturá-los – mostrando que, em tempos de anarquia, não podem existir julgamentos morais. Certamente eles não existem na obra; nela, só existe revolta, violência, poesia e uma beleza inquestionável.

Confira o trailer aqui.

 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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