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Quando o caminho é mais importante do que o destino final: o conceito de liberdade no cinema
CINÉFILOS
28 set 2019 | Por Gabrielle Abreu (gbabreudeoliveira@gmail.com)

[Imagem: Gabrielle Abreu / Jornalismo Júnior]

Chris, Ben e Gabriel. Os três têm algo em comum: aproveitaram a jornada como se o dia de hoje fosse o último. Ganharam vida nas telas para despertar o desejo de viver que não sabíamos que tinha dentro de cada um de nós. Os três julgaram a sociedade que estavam inseridos e se agigantaram para além dela. No melhor estilo road movie, esses longas demonstram que a estrada, o veículo (mesmo que sejam os pés de um andarilho) e a jornada têm o poder de recuperar a essência que faz da vida a mais bela coisa a ser experimentada.

Na natureza selvagem

Na Natureza Selvagem (Into the Wild), filme de 2018 dirigido por Sean Penn e baseado no livro escrito pelo jornalista Jon Krakauer, lançado em 1996, conta a história de Christopher McCandless, interpretado por Emile Hirsch. Filho de pais ricos, se forma na Universidade de Emory como um dos melhores estudantes e atletas.  Apesar de ser orgulho para seus pais, Chris não se identifica com o modo de vida burguesa sustentado por sua família. 

Em vez de seguir os passos de seus pais, Chris doa todas as suas economias para uma instituição de caridade, livra-se de seus pertences e com uma mochila de acampamento, segue em direção ao Alasca. No caminho, Chris vai criando sua identidade, ele “renasce” e amadurece a cada nova experiência como Alex Supertramp, seu pseudônimo.

Chris é guiado por rigoroso código moral que foi moldado por suas críticas ao ambiente abusivo e tóxico que tinha dentro de casa. Seu pai, Walt (William Hurt), e sua mãe, Billie (Marcia Gay Harden), construíram sua família com base em uma mentira e ao descobrir isso, Chris perdeu qualquer crença que ele poderia ter na família como algo além de mera construção social que não deu certo, principalmente para ele.

A única pessoa que Chris demonstra ter afeto é sua irmã mais nova, Carine, interpretada por Jena Malone que, mesmo não sabendo o paradeiro do irmão, se preocupa e não se deixa levar pelo fato dele não enviar cartas, pois sabe do sentimento que o irmão nutre por ela.

Chris se apoiava em seus escritores preferidos como Tolstoy, Jack London e Thoreau citando-os em qualquer situação. [Imagem: Paramount Pictures]

Em sua jornada rumo ao Alasca, Alex ー como Chris passa a se apresentar ー, conhece um casal de hippies que vive seus próprios dilemas familiares. Jan, interpretada por Catherine Keener, com a chegada de Alex, passa a pensar no filho que nunca voltou para casa. É nesses momentos que vemos como as pessoas que Alex encontrou pelo caminho foram marcadas pela sua mera presença, mesmo ele não se atendo às relações humanas.

Chris possuía uma crítica muito dura às relações humanas e como nos relacionamos com o amor [Imagem: Paramount Pictures]

Quando Alex conhece Ron Franz (Hal Holbrook) ー veterano de guerra que perdeu a esposa e o filho em um acidente de carro e vive com os pequenos prazeres da rotina ー, vemos o choque de pensamento de ambos. Ron pergunta a Alex se ele não quer fazer algo com a sua vida, estudar, ter um emprego. Alex, então, precisa explicar que ele vive como vive por escolha. Novamente, vemos o apego das pessoas que o conheceram e que o veem como um filho. Logo ele, que renegou a própria família, poderia fazer parte de uma se assim quisesse. 

Mas nada tirou de Alex a motivação de chegar ao Alasca. Lá, ele viveu o paraíso terreno que sempre quis, fazendo de um ônibus escolar abandonado sua casa. Sozinho, autossuficiente e esperançoso, Alex viveu assim por 100 dias.  Christopher Johnson McCandless faleceu em 18 de agosto de 1992 devido a ingestão de sementes de uma planta comumente chamada de batata selvagem. Poucos dias antes de cometer o erro que o levou à morte, Chris escreveu em cima de um dos livros que estava lendo: “A felicidade só é real quando é compartilhada“, frase do poeta americano Henry Thoreau.

A história de Chris é reflexo de um jovem promissor que largou mão da convenção da sociedade e procurou nas experiências da vida a felicidade que ele nunca encontrou na própria casa, enquanto todo mundo comprava uma maneira de se consolar.  

O filme conta com uma trilha sonora fantástica, sendo o primeiro álbum solo de Eddie Vedder, vocalista da banda norte-americana Pearl Jam. O filme ganhou o Gotham Awards de Melhor filme de 2007.

Foto real de Chris McCandless em 1992, sentado em frente ao ônibus 142, que ficou conhecido como o Magic Bus

 

Capitão Fantástico

Capitão Fantástico (Captain Fantastic) é um filme estadunidense de 2016, segundo longa dirigido por Matt Ross, ator novato em direção. O enredo gira em torno de uma família atípica. Ben, o Capitão Fantástico interpretado por Viggo Mortensen, cria seus seis filhos em uma cabana no meio de uma floresta nos Estados Unidos. A educação das crianças é excepcional e todos possuem físico de elite. Seus pais os ensinaram a caçar, tocar instrumentos e questionar a sociedade e os seres humanos no mais alto nível filosófico, além de técnicas de sobrevivência na selva. Até as crianças mais novas aprendem a lidar com armas. 

O entretenimento da família, longe de ser assistir à televisão, é voltado para conversas em volta da fogueira, muita leitura e música. [Imagem: Universal Pictures]

A problemática do filme começa quando a mãe das crianças, Leslie (interpretada por Trin Miller) suicida-se cortando os pulsos, dando fim ao próprio sofrimento causado por quadro grave de depressão profunda e episódios de bipolaridade. O contraste na educação que Ben dá às crianças começa aí: ele não poupa os filhos de saber a verdade. O que é visto como algo muito sério para criança saber não é aplicado naquele núcleo familiar. 

A saga da família continua quando decidem ir ao funeral da mãe. Ao embarcarem em um ônibus escolar apelidado de Steve, seguem até a casa da tia, Harper, irmã de Ben, interpretada pela atriz Kathryn Hahn. Harper não apoia o irmão cegamente e isso é exposto quando Harper e seu marido, Dave (Steve Zahn) tentam persuadi-lo a colocar as crianças em uma escola. 

Para demonstrar que a educação que oferecia a seus filhos valia mais do que a oferecida pelas escolas tradicionais, Ben chama sua filha mais nova de 8 anos, Zaja (Shree Crooks), e seus dois sobrinhos, Jackson (Teddy Van Ee) de 13 anos e Justin (Elijah Stevenson) que já está no ensino médio, para perguntar à eles o que é a Declaração dos Direitos dos Cidadãos.  Neste momento vemos o contraste da educação tradicional, demonstrado pelos sobrinhos que não sabiam do que se tratava a declaração, e a educação que Ben ofereceu a todos os seus filhos, que, embora nunca tenham pisado em uma escola antes, possuem grande repertório sociocultural.

A família chega ao funeral vestindo roupas alegres, coloridas e esquisitas. Ben veste o terno que usou no dia de seu casamento com Leslie. [Imagem: Universal Pictures]

O clima de tensão se intensifica no filme quando é retratada a relação conturbada entre Ben e o sogro, Jack, interpretado por Frank Langella, que nunca concordou com o modo que a filha e o genro optaram para criar os filhos. A partir daí, o filme passa a evidenciar os riscos da educação que Ben ofereceu às crianças mostrando que é prejudicial tanto ao desenvolvimento social dos filhos ー que possuem nenhuma habilidade social, muito bem exposta quando seu filho mais velho, Bo (George Mackay) pede a primeira menina que beijou em casamento ー, quanto perigosa ao expor seus filhos a perigos constantes ー seu filho, Rellian (Nicholas Hamilton), quebra a mão ao escalar uma montanha sem qualquer equipamento de proteção. 

Capitão Fantástico tenta, a seu modo, desconstruir a necessidade do homem de fazer parte da sociedade, considerada doente por ele. Embora seja dono de valores morais fortíssimos e crítico ferrenho das piores qualidades do sistema capitalista, Ben é muito amado por seus filhos, que veem nele um mentor. Já que a forma que conhecemos da paternidade não é contemplada pelo personagem que em muitos momentos ensina seus filhos a “se virarem sozinhos” em vez de resgatá-los na necessidade.

Na síntese desta história, nós nos perguntamos ao terminar de assistir ao filme: o que estou fazendo com a minha vida e quais são meus valores morais? Matt Ross não responde a estas perguntas em momento algum e, ouso dizer, que não era esse seu objetivo.

O filme ganhou quatro prêmios em festivais além de uma indicação ao Oscar de Melhor Ator para Viggo Mortensen. Na trama, temos uma releitura do clássico da banda Guns N’ Roses, Sweet Child O’ Mine, cantada pela família. 

Gabriel e a montanha

O filme Gabriel e a Montanha, dirigido por Fellipe Gamarano Barbosa, de 2017 conta a história de Gabriel Buchmann, interpretado por João Pedro Zappa, economista carioca que tinha um grande sonho: conhecer a África. Ele estava pesquisando a educação no continente africano para terminar seu doutorado quando retornasse ao Brasil. Mais do que estudar de perto as comunidades africanas, Gabriel não queria ser visto como turista, mas sim como alguém realmente interessado em conhecer e fazer parte, mesmo que momentaneamente, do estilo de vida que os habitantes locais levavam.

O primeiro lugar que Gabriel visita no filme é o Quênia e lá ele se transforma em um guerreiro masai ー  grupo étnico africano de seminômades ー  e recebe do seu amigo, Leonard Siampala o nome massai, Lemayan. Significa “o mais abençoado”, diz Leonard, pois ele é uma benção para a comunidade. Gabriel colocou uma meta para toda a viagem: viver com 2 a 3 dólares por dia e transferir 80% de sua renda para os africanos que o hospedam e alimentam. Assim, Gabriel pôde perceber que com quase nada, conseguia fazer enorme diferença na vida daquelas pessoas. 

Gabriel busca em sua viagem desmistificar o estereótipo de turista procurando fazer parte da comunidade local [Imagem: Pagu Pictures]

O Monte Kilimanjaro, localizado na Tanzânia, é a primeira montanha que Gabriel tem contato na viagem, e John GoodLuck é seu guia na empreitada de levá-lo até o topo. Gabriel tem pressa ー que é demonstrada em muitos pontos do filme ー, pois precisa encontrar sua namorada, Cris (Carol Abras), o quanto antes no aeroporto. Quase desistindo no caminho, John GoodLuck estimula Gabriel a seguir em frente. Durante a descida, John e Gabriel encontram um velho Chagga, da região de Marangu que diz a GoodLook na língua local: “Esse homem é rico. Não o julgue por suas roupas de pobres. Cuide bem dele porque mais tarde esse homem vai mudar a sua vida.” 

Gabriel subiu ao Monte Kilimanjaro como forma de homenagear seu pai, falecido quatro anos atrás. [Imagem: Pagu Pictures]

Gabriel recebe a visita de sua namorada, Cris, enquanto está na Tanzânia. Em alguns momentos do filme é perceptível que, embora gostem muito um do outro, possuem temperamentos e visões de mundo diferentes. Barbosa não romantiza as personagens em momento algum, deixando o mais caricato possível ao que eles realmente foram quando estavam juntos. 

Ao se conhecerem, Gabriel recitou o poema de Mário Quintana “Ah! Os Relógios” para Cris. [Imagem: Pagu Pictures]

Prestes a retornar para a Universidade de Califórnia, e Cris de volta ao Brasil, o grande objetivo de Gabriel se torna alcançar o topo do monte Mulanje, localizado no Malawi e nesta empreitada o guia Lewis Gadson fica responsável por levá-lo ao topo. Com o visto para vencer, Gabriel novamente demonstra pressa em terminar a subida depressa, embora Lewis diz que com poucas horas de luz solar, é arriscado subir. Gabriel então dispensa os serviços de Lewis e segue o caminho sozinho. 

Gabriel desapareceu no dia 17 de julho de 2009 e seu corpo foi encontrado 19 dias depois. No filme, Gabriel tem pressa e muita sede. Sede de conhecimento, de novas experiências e de viver como se o céu fosse o limite (a ponto de querer tocá-lo nos picos mais altos que conseguia). É um personagem rodeado por contradições: embora tenha muita alegria com a vida, tem também o pulsar pela morte que o acompanhava em cada empreitada arriscada que fazia. Gabriel, sem perceber, sintetizou toda a sua viagem dias antes, em sua carta para a irmã, Nina:

“Nina, tudo é mental e emocional e depende de você. Você é uma menina forte e tem que encontrar essa força dentro de você. A felicidade, a beleza, a verdade, o amor, estão por todas as partes, é só uma questão de reconhecer e optar por buscar a felicidade. E no momento que você decidir verdadeiramente, internamente por essa busca, você encontrará por que ela já estará lá.”

O filme tem um diferencial autêntico que o diretor, Felipe Gamarano Barbosa ー amigo de infância de Gabriel ー, fez questão de preservar: os personagens dos países visitados não são atores, mas sim as pessoas que Gabriel encontrou durante a viagem e aceitaram interpretar a si mesmos para a produção deste filme. O longa ganhou o prêmio Revelação na Semana da Crítica em Cannes em 2017. Ainda em Cannes 2017, o longa-metragem levou para casa os prêmios France 4 Visionary Award e o Gan Foundation Award For Distribution, ajuda financeira para sua distribuição na França.

Mais do que mostrar como um filme pode impactar o espectador quando mostra experiências de vida tão desconectadas da rotina e do senso comum ー viver, trabalhar e morrer ー, o cinema consegue captar a essência do que muitos gostariam de viver e não conseguem. Chris não queria se prender a relações humanas e ter contato com a sociedade que ele via como doente. Seu desejo era passar pela vida das pessoas e acrescentar algo antes de partir para a próxima aventura. Capitão Fantástico queria preservar a interação de sua família e assim como Chris, não queria ser intoxicado pela sociedade. Gabriel queria ser visto como local, era seu desejo fazer parte das comunidades pelas quais passou.  Todos, à sua maneira, idealizaram e viveram a liberdade que escolheram buscar, longe da sociedade e apreciando o que a vida te dá todo dia de uma nova maneira: o presente. 

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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