Por Sofia Matos (sofi.matos@usp.br)
A literatura produzida na América Latina tem expandido sua circulação nos últimos anos, além de atravessar fronteiras linguísticas, nacionais e culturais. O crescimento do interesse por autores latino-americanos se manifesta em diversos setores, desde a formação de clubes de leitura até a atuação de editoras independentes e a proliferação de perfis literários nas redes sociais.
Esse movimento acompanha transformações mais amplas, que incluem a busca por narrativas que expressem experiências locais, contextos históricos específicos e questões sociais da região. Leitores de diferentes países têm se aproximado da produção literária latino-americana como forma de conhecer outras realidades do continente e de estabelecer conexões com temas comuns, como processos históricos, desigualdade, conflitos políticos e deslocamentos.
A literatura latino-americana é composta por uma ampla diversidade de estilos narrativos, gêneros e abordagens temáticas. Desde o século 20, autores do continente exploram questões sociais, políticas e existenciais, por meio de formas literárias distintas. A produção inclui romances, contos, poesias, ensaios e outros formatos que refletem as especificidades culturais e históricas de cada país.

Clubes de leitura como espaços de troca e formação
O aumento do interesse também impulsionou a criação de clubes de leitura voltados para a literatura latino-americana. Esses espaços, organizados de maneira presencial ou virtual, têm se consolidado como ambientes de troca, formação e socialização entre leitores. O Clube Nossa Literatura, fundado por Eliz Oliveira em 2018, é um exemplo desse fenômeno. Ela afirma que a criação do clube surgiu da necessidade de aproximação com as produções do continente e do desejo de construir de forma coletiva um espaço de leitura e reflexão: “São textos que nem sempre circulam muito, então o clube também cumpre essa função de divulgar e dar visibilidade”.
“As obras ajudam a gente a pensar sobre nós mesmos, sobre como nossa cultura se formou e sobre as violências que atravessam nossa história.”
Eliz Oliveira
A dinâmica dos clubes estimula o debate sobre diferentes aspectos das obras e amplia a circulação de autores que, muitas vezes, não recebem grande destaque nos circuitos editoriais mais tradicionais. Guilherme Torres, participante do Clube Nossa Literatura, relata que conheceu o grupo a partir de uma proposta de leitura coletiva da obra A Casa dos Espíritos (Editora Sudamericana, 1982), da escritora chilena Isabel Allende. Segundo ele, participar do clube proporcionou acesso a livros que não estavam em sua rota de leitura habitual: “O clube incentiva a ler coisas que antes eu não leria ou nem sequer colocaria na minha rota de leitura”.
Guilherme destaca que, além da ampliação do repertório literário, o clube de leitura proporciona um espaço de convivência e diálogo: “Essa troca, esse espaço de discussões… É algo enriquecedor”. Ele acrescenta que a participação no clube estimulou novas conexões: “Criou-me um laço com pessoas incríveis que hoje conheço há mais de cinco anos”.

[Imagem: Reprodução/Catarse Clube Nossa Literatura]
Redes sociais ampliam alcance e criam novas comunidades
As redes sociais transformaram-se em ferramentas essenciais para a circulação da literatura latino-americana. Instagram, TikTok e X (antigo Twitter) concentram perfis que indicam livros, organizam leituras coletivas e criam novas comunidades. Um dos exemplos é o perfil Latina Leitura, criado por Vinicius Barbosa, que começou a compartilhar suas leituras durante a pandemia.
Vinicius afirma que a motivação inicial foi espontânea: “Comecei a postar os livros que estava lendo de forma muito despretensiosa. Eu não sabia nem que existia esse mundo de bookgram”. O impacto foi maior do que ele imaginava: “É muito gratificante saber que o trabalho, mesmo sendo de formiguinha, impacta as pessoas de alguma forma”.
Ele destaca que a literatura latino-americana provoca efeitos profundos: “A literatura tira essa anestesia e devolve a gente para a realidade com olhos mais revoltados”. Para Vinicius, ler um romance ambientado em uma vila mexicana e perceber que ele também fala sobre questões vividas no Brasil reforça um sentimento de pertencimento — com destaque para a relação entre o país e a América Latina.
Editoras independentes impulsionam a publicação e a diversidade de obras
O crescimento do interesse por literatura latino-americana ocorre junto da atuação de editoras independentes que apostam na publicação, tradução e divulgação de obras produzidas no continente. Essas editoras assumem textos que muitas vezes não encontram espaço nos grandes grupos editoriais, seja porque priorizam autores do norte global, investem em títulos com maior apelo comercial ou evitam obras que tratam de temas considerados de circulação restrita, como violência de gênero, memória política e experiências locais. As independentes, ao contrário, assumem a curadoria dessas produções e permitem que cheguem ao público, ainda que em tiragens menores e com recursos limitados.
A Editora Pinard, fundada e dirigida por Igor Miranda, exemplifica esse esforço. A empresa iniciou suas atividades com o objetivo de resgatar clássicos da literatura latino-americana e inseri-los no cenário brasileiro: “Nosso primeiro objetivo foi trazer clássicos que estavam esgotados ou nunca tinham sido publicados no país. Isso virou nossa missão”, afirma Igor.
Ele observa que há mais disponibilidade no cenário editorial nacional em publicar obras latino-americanas: “Hoje há uma disposição muito maior para publicar, traduzir e divulgar esses livros. O mercado começa a perceber o valor dessas obras, mas o trabalho de resgate ainda é necessário”.
Igor destaca também que o fortalecimento desse movimento resulta de uma ação coletiva: “As editoras, os leitores, os clubes, todos colaboram para que esses livros circulem mais”.

[Imagem: Reprodução/Blog Catarse]
O papel das mulheres na literatura latino-americana
O fortalecimento da literatura latino-americana se articula com o aumento da visibilidade de obras escritas por mulheres. Autoras de diferentes países passaram a ocupar espaços de circulação e debate, impulsionadas pela atuação de editoras independentes, clubes de leitura e criadores de conteúdo nas redes sociais.
Entre as autoras mais lidas e debatidas estão Samanta Schweblin, Mariana Enríquez, Fernanda Melchor, Selva Almada, Mónica Ojeda e Giovanna Rivero. Suas obras tratam de temas como violência de gênero, memória histórica, desigualdade social e experiências subjetivas vinculadas às transformações políticas e culturais da América Latina.
Editoras como a Pinard ampliaram o espaço para essas autoras e promoveram traduções e reedições de livros que antes não circulavam no mercado brasileiro. Para Igor Miranda, o comportamento das editoras independentes auxilia no alcance das obras dessas artistas.
O Clube Nossa Literatura e outros grupos de literatura também priorizam a leitura de obras escritas por mulheres, por meio de encontros e debates que ampliam o acesso e a compreensão dessas produções.
Literatura como ferramenta para reflexão, identidade e resistência
O fortalecimento da circulação dessas obras também está associado ao reconhecimento de que a literatura pode ser um instrumento de construção identitária e de reflexão sobre processos sociais e políticos que atravessam a região. Leitores encontram nas narrativas latino-americanas elementos que dialogam com suas próprias experiências e com os processos históricos de seus países.
Guilherme Torres afirma que a leitura de obras latino-americanas contribui para a construção de um repertório político e cultural: “Faz toda a diferença, inclusive no meu exercício enquanto cidadão brasileiro”. Para ele, ao ler um livro chileno, por exemplo, é possível conhecer o que foi a ditadura de Pinochet e traçar parâmetros com a história do Brasil. “As histórias da América Latina têm muitas semelhanças”, afirma.
A formação de comunidades de leitores, seja por meio de clubes ou de perfis nas redes sociais, revela que a literatura latino-americana não está restrita a espaços acadêmicos ou especializados, mas circula em ambientes diversos, estimulando o debate público e a construção de vínculos culturais. Vinicius Barbosa relata que recebe mensagens de leitores que começaram a se interessar por literatura latino-americana a partir de suas recomendações.
O crescimento do interesse por essa produção literária ocorre em um contexto no qual se intensificam debates sobre a valorização de culturas locais e sobre a necessidade de ampliar os referenciais culturais utilizados por leitores e instituições. A literatura produzida na América Latina se apresenta, nesse cenário, como uma possibilidade de acesso a outras perspectivas, experiências e narrativas.
Ao mesmo tempo, o movimento revela desafios. A concentração do mercado editorial em poucos grupos econômicos, a desigualdade na distribuição de livros e a predominância de produções oriundas de outros continentes ainda limitam o alcance de muitos autores latino-americanos. Nesse contexto, a atuação de clubes de leitura, editoras independentes e criadores de conteúdo assume um papel importante na promoção dessas obras.
O fenômeno da ampliação da leitura de literatura latino-americana aponta para um processo em curso, no qual múltiplos agentes — leitores, editores, autores e mediadores culturais — contribuem para a formação de novos públicos e para a circulação de narrativas que expressam a complexidade e a diversidade da região.
A literatura, nesse movimento, não se limita a uma função estética, mas atua como uma ferramenta de formação cultural, de reflexão social e de construção de vínculos entre leitores e comunidades que compartilham histórias, desafios e projetos comuns.
