Por Letícia Oliveira Menezes (leticiaomenezes@usp.br)
A América Latina possui, aproximadamente, 670 milhões de pessoas espalhadas em mais de 21 milhões km², e mais da metade dessa população corresponde a habitantes do sexo feminino. Apesar de representarem a maioria, elas ainda enfrentam algumas barreiras para se instalarem nos palcos, gramados, tatames e octógonos. Confira algumas permanências e rupturas no processo histórico da presença das mulheres latino-americanas nas diferentes modalidades esportivas.

Porcentagem, por sexo, de habitantes da América Latina [Gráfico: Letícia Oliveira Menezes]
Voltando uma página na história: números e participações
“Não é como um conto de fadas em que [se pensa] ‘Nossa, agora elas podem, que bonito’. [Devemos] ser um pouco mais profundos nessas análises”
Ana Lúcia Padrão dos Santos
O sexo feminino lidou, ao longo da história, com diversos impeditivos para a realização de práticas esportivas, desde questões ligadas à imposição física até a concepção de impossibilidade de um ambiente dividido com os praticantes do sexo masculino. A presença de mulheres no esporte é recente; nos Jogos Olímpicos modernos, por exemplo, somente em 1900 – há pouco mais de um século – as mulheres tiveram sua participação permitida oficialmente.
A demora para a inserção não é uma exceção, pelo contrário: mostrou-se uma regra em diversas categorias, trazendo, também uma baixa aceitação nos meios de comunicação e intelectuais, com discursos biológicos associados à perda de “feminilidade” das praticantes.
A trajetória feminina no esporte não ocorreu de maneira homogênea em todos os continentes e seguiu algumas desigualdades já eminentes. No contexto latino-americano, a primeira mulher a participar dos Jogos Olímpicos de Verão foi a nadadora brasileira Maria Lenk, em Los Angeles, pelos Jogos de 1932. Mas foi somente em 1980 que a cubana Maria Caridad Colón alcançou o mais alto lugar do pódio na disputa de lançamentos de dardos e faturou uma medalha de ouro para a América Latina.
Paris-2024 – competição que reuniu o maior número de países participantes e modalidades a serem disputadas – foi a primeira vez na história em que houve paridade numérica na presença de atletas femininas e atletas masculinos participantes. Porém, delegações na região da América Latina ainda são sub-representadas, como a haitiana, que continha sete atletas estreantes, sendo três mulheres.
Em entrevista ao Arquibancada, a docente do Departamento de Esportes da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, Ana Lúcia Padrão dos Santos comenta que há um desafio para a maior participação das mulheres em cargos de chefia e gestão das equipes olímpicas: “Esse desafio não é só latino-americano, ele é mundial, tanto que o Comitê está tentando alcançar isso, está tentando melhorar. A próxima presidente do COI será uma mulher. Mas só um número não basta, o ambiente precisa ser respeitoso”.

Até o presente, a delegação haitiana só conquistou duas medalhas na história da competição [Imagem: Reprodução/Youtube: CazeTv]
Mulheres que fizeram história no esporte
“É muito importante que tenhamos espelhos, que a gente tenha pessoas que olhamos e falamos assim: ‘É possível me enxergar lá, não é nenhuma impossibilidade'”
Ana Lúcia Padrão dos Santos
Além de Maria Lenk e Maria Caridad, diversas mulheres tornaram-se símbolos de superação e representatividade para o esporte latinoamericano. A futebolista brasileira Marta Vieira da Silva é uma das mulheres que inspiram gerações que a acompanham.
Eleita Melhor Jogadora do Mundo seis vezes pela FIFA, Marta fez com que diversas meninas se enxergassem alcançando um lugar de visibilidade no esporte. Além das premiações e títulos conquistados ao longo da carreira, Marta é a atleta que mais vestiu a camisa da seleção brasileira e com mais gols usando as cores da bandeira, considerando o futebol masculino e o feminino.

A atleta participou de três finais olímpicas, a última em 2024, mas não conseguiu sair campeã pelo Brasil [Imagem: Reprodução/Instagram: @onumulheresbr e @martavsilva10]
Quatro vezes campeã de competições outdoors e três vezes campeã de provas indoor, a atleta Yulimar Rojas é exemplo de força e persistência na Venezuela, seu país natal. No início da sua carreira, Rojas queria jogar vôlei, mas a inexistência de um time da cidade a fez voltar seus olhos para o atletismo.
Logo aos 15 anos, ela venceu o Campeonato Sul-americano Júnior no salto em alturas, porém a Venezuela não tinha aparato suficiente para o talento crescente, e em 2015 ela foi à Espanha treinar. Com ajuda de Iván Pedroso, ela se tornou a primeira mulher do seu país a ganhar o ouro olímpico nos Jogos Olímpicos de 2020.

Devido a uma lesão no tendão de Aquiles, a Atleta do FC Barcelona ficou de fora das Olimpíadas da França em 2024 [Imagem: Reprodução/Instagram: @yulimarrojas45]
A halterofilista equatoriana Neise Dajomes entrou para a história do Equador ao ser a primeira mulher a conquistar um ouro olímpico pelo país, em Tóquio-2020. Dajomes também se tornou a terceira mulher da história a subir no pódio dos Jogos vestindo as cores do Equador.
As faixas coloridas, as unhas pintadas e os sapatos com as diferentes cores que usou durante a competição são sua marca registrada e, de acordo com ela, uma maneira de mostrar que “Só porque sou uma levantadora de peso, não significa que eu não tenha que parecer mulher, não me apresentar como mulher ou não possa me posicionar dessa forma”.

Em homenagem ao feito de Neise, um monumento e um museu com as conquistas da atleta foram entregues em 2022 no Município de Cantón Mera [Imagem: Reprodução/Instagram: @neisi_dajomes]
As dificuldades aumentam e as lutas são maiores para as para-atletas. Pouca visibilidade a elas é dada, pois além dos preconceitos de gênero, há ainda a discriminação quanto à condição física e mental em relação às atletas de Olimpíadas e competições mundiais regulares. Nomes como Carol Santiago (natação), Brenda Osnaya (triatlo) e Katherinne Wollermann (canoísta) passam despercebidos, apesar de possuírem boas performances nos Jogos.
Uma discussão para além das atletas: o cenário feminino nos bastidores do esporte
“Falta olhar para o esporte para além das atletas, para todo um ambiente que seja acolhedor, que não seja hostil à presença feminina, para que você não tenha que se descolar da sua identidade para caber dentro do ambiente esportivo”
Ana Lúcia Padrão dos Santos
A abordagem das mulheres no esporte não pode se restringir somente à linha de frente, deve-se pautar também em toda rede de apoio que faz o trabalho das atletas terem êxito e nas funções complementares ao esporte: treinadoras, gestoras, analistas de desempenho, além de jornalistas, árbitras e diretoras de equipes. Apesar de serem as mesmas atribuições de um homem, árbitras, por exemplo, sofrem diferentes pressões para exercer sua profissão.
A árbitra da FIFA Edina Alves é alvo de duras críticas por erros cometidos nas partidas em que apita. O interessante, nesse caso, é que falhas semelhantes, quando apitadas por árbitros masculinos, não sofrem a repercussão negativa como ocorre com Edina, que é atacada não pelo seu método de agir, mas sim por ser mulher e estar em um ambiente predominantemente masculino.
Casos como o de Edina não são isolados no esporte. Na partida válida pelo Campeonato Pernambucano de 2022, um jogador partiu em direção à árbitra Deborah Cecília após sua decisão de expulsar o jogador por uma cotovelada no adversário.
Todas essas carreiras sofrem com a baixa perspectiva e incentivos de permanência, pois essas posições de liderança “são aquelas que os homens já não querem, porque tem um potencial de caos, pouca chance de ter sucesso […] Quando a mulher consegue ter êxito, acaba sendo destituída da posição e um homem assume”, afirmou a professora da USP. A licenciatura no ramo esportivo abre uma boa margem para a participação feminina, isso porque, assim como explica a docente da EEFE, a parte da educação está associada ao cuidado, aprendizado e formação do cidadão, logo, historicamente essas funções foram aproximadas à figura feminina. Apesar da desconstrução parcial desse conceito, ainda existem resquícios dessa mentalidade e, nas microagressões do cotidiano, esses preconceitos são reafirmados.
