Por Letícia Oliveira Menezes (leticiaomenezes@usp.br)
Aquele que era para ser o dia mais feliz da minha vida estava indo por água abaixo. Paguei caro em ingressos e na viagem que eu e meu pai fizemos para conseguir assistir a esse jogo, e o meu time estava sendo vice pelo empate no placar agregado. Era só um gol.
Durante toda minha vida, sonhei com esse momento: nós seríamos campeões do maior torneio do mundo, a Copa Unificada de Clubes. E em casa, na nossa casa. Sempre tivemos tradição nesta competição, e o título se somaria a nossa vasta galeria. Mas meu pai, a todo momento, dizia-me que essas coisas aconteciam, que o futebol não era exato. Mas era só um gol, e eu acreditava.
— Talvez não fosse para ser – disse meu pai – quem sabe em outro ano?
— É, talvez – respondo, sem acreditar que aquilo era real.
Quando nos apaixonamos pelo esporte, parece que toda ida ao estádio é como uma primeira vez: a recepção, o ambiente, a torcida, o primeiro gol comemorado. Agora, eu me sinto em um pesadelo; não sei se estou muito perdida em meus pensamentos, mas a torcida está calada. Só ouço os adversários do outro lado, cantando a música que eu sempre odiei, porém eles estavam fazendo isso em nossa casa. Era só um gol e eles se calariam.
— O que você acha de irmos, filha? Aproveitar que o trânsito ainda está mais tranquilo.
Será possível que meu pai iria abandonar o time antes mesmo de começarem os acréscimos? Ele sempre foi a minha referência de perseverança para o esporte. Talvez eu tivesse que rever essa questão.
A torcida, já impaciente, começava a vaiar o time e pedir a demissão de metade do elenco. Nunca entendi essas vaias, achei que o propósito de todo torcedor era apoiar durante os 90 minutos de uma partida. O time jogava bem, só não conseguia encaixar o último passe. Era só um gol, e todos sairiam felizes dali (e meu pai aprenderia que nunca se sai de um estádio antes do apito final).
O tempo é o pior inimigo de quem perde. Nos últimos 15 minutos, que passaram como se Usain Bolt estivesse controlando a contagem. Perdemos chances inacreditáveis: foram três bolas na trave, uma defesa milagrosa e um contra-ataque malsucedido. O outro time parecia agraciado pelos deuses; conseguiam se defender de todas as investidas e ainda descolaram dois escanteios a seu favor. Era só um gol, e essa maré de azar passaria.
O quarto árbitro levantou a placa de acréscimos, e ali estava marcado que, em sete minutos, acabaria a decisão. O técnico rival aproveitou esse momento para fazer suas últimas alterações na equipe, uma velha tática de cera permitida (adorada e odiada, a depender da situação do seu time). Era só um gol, e o adversário pensaria nesses minutos gastos ao longo da partida.
Aqueles que haviam comprado fogos, sinalizadores e os produtos comemorativos de “É CAMPEÃO” estavam, agora, fazendo o possível para se livrar deles. Cheguei até a ouvir alguns fogos esporádicos e ver rastros de fumaça vermelha nos cantos da arquibancada. Bom, eu guardaria aquele momento de recordação — uma das ruins, mas ainda é uma recordação. Era só um gol, e a memória triste se apagaria na mente daquelas pessoas.
Agora faltam dois minutos para o jogo acabar. Silêncio geral e uma festa – devo admitir – muito bem feita pelo rival. Era só um gol, e aquela festa seria nossa.
Enquanto me perdia nesse devaneio, percebo que nosso dez consegue roubar a bola e se lança ao contra-ataque. Ele vem todo desajeitado e acaba caindo. Era só um gol. Quando ele é derrubado, a euforia momentânea da torcida passa, até ver que ainda estávamos com a posse. Era só um gol. A bola é lançada à direita, e o camisa dez consegue se recuperar e se apresentar na área. Quando a bola é cruzada, sua curva encontra um jogador livre e…
A torcida explodiu em comemorações. Aquela bola foi no canto esquerdo do goleiro. O bandeirinha correu para o centro do campo. Aquilo era real. Não me lembro de mais nada, só que o relógio marcava um minuto para o final do jogo. O futebol é isso, tudo é possível. Era só um gol e ele aconteceu.
*Foto de Capa: Reprodução/Pexels
