Por Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br) e Nicolas Sabino (nicolassabino@usp.br)
Ao longo de toda a carreira, Steven Spielberg produziu obras que se tornaram sucessos de bilheteria e marcaram o imaginário de diferentes gerações. Com o decorrer dos anos, também conquistou o reconhecimento da crítica e se tornou o único cineasta a ser nomeado ao Oscar em seis décadas diferentes. Antes de alcançar o estrelato, porém, Spielberg costumava ser apenas um garoto apaixonado por um hobbie.
Steven Allan Spielberg nasceu em Cincinnati, uma cidade no estado de Ohio, no dia 18 de dezembro de 1946. Sua infância foi marcada por aspectos conturbados, como o divórcio dos pais e o preconceito que enfrentou por ser de uma família judia e habitar um bairro predominantemente não judeu. Além disso, ele também lidou com dificuldades no aprendizado escolar devido a um quadro de dislexia que só foi diagnosticado após os seus 60 anos.
Desde cedo, Spielberg encontrou na cinematografia uma forma de expressar os próprios sentimentos, medos e ideias e lidar com o bullying que sofria de alguns colegas. Em Steven Spielberg: A Biography (Steven Spielberg: Uma Biografia, em tradução livre), o autor Joseph McBride afirma que ele “começou a fazer filmes como uma forma de encontrar a aceitação social que ansiava”.
“Eu era mais ou menos um garoto com uma paixão por um hobby que cresceu fora de controle e, de alguma forma, me consumiu. Eu descobri algo que poderia fazer, e as pessoas se interessaram por isso e por mim.”
Steven Spielberg, em trecho traduzido de Steven Spielberg: A Biography
Spielberg iniciou uma carreira amadora com a criação de curta-metragens. Escape to Nowhere (1961), sua produção de quarenta minutos que retratava uma batalha na África Oriental durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a vencer um concurso para cineastas amadores do estado de Ohio.
O início de sua popularidade, porém, se deu com o lançamento de seu primeiro longa-metragem, Firelight (1964). Com um orçamento menor que 600 dólares e sua irmã mais nova, Nancy, como intérprete do papel principal, o jovem Spielberg produziu a obra que viria a lhe render um princípio de visibilidade no universo cinematográfico.
Em 1966, Spielberg passou a cursar Cinema & Artes Eletrônicas na Universidade da Califórnia. Foi durante o período como estudante universitário que o cineasta lançou a obra responsável por alterar o rumo de sua carreira: o curta-metragem Amblin’ (1968). A história silenciosa que representava a era hippie do final dos anos 1960 chamou a atenção do então vice-diretor da Universal, Sidney Sheinberg, que ofereceu a Spielberg um contrato de sete anos com a Universal Television. A oferta fez com que o cineasta deixasse a faculdade e passasse a se dedicar integralmente à profissão.
Durante um certo período, Spielberg atuou como diretor em produções destinadas à televisão, como alguns episódios das séries Os Audaciosos (The Name of the Game, 1968-1970) e Columbo (1971). Mas o auge de sua carreira ainda estava por vir.
Melodrama e a era dos blockbusters
A transição de Spielberg para o cenário das grandes produções com alto sucesso comercial se deu a partir do lançamento de Tubarão (Jaws, 1975), produzido e distribuído pela Universal Pictures. O longa não só se tornou o primeiro a arrecadar mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias domésticas estadunidenses, como também deteve o recorde de maior bilheteria mundial por dois anos, até ser superado por Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977).

O sucesso do filme foi responsável por perpetuar mudanças estruturais na indústria cinematográfica e marcou o início da influência do cineasta no mercado crescente dos blockbusters. O surgimento desta categoria consistiu na introdução de formatos que visavam uma maior arrecadação das obras, como a adoção de formatos narrativos reduzidos que poderiam ser facilmente assimilados pelos espectadores, incentivo à adrenalina e à expectativa e investimento em produções destinadas ao público jovem.
A opção de Spielberg por estratégias de composição típicas dos blockbusters, como o uso de efeitos especiais e elementos fantasiosos, não se limitou a Tubarão. Representações do surreal, do estranhamento e de cenas mirabolantes de ação marcaram diversas obras posteriores de Spielberg, como E.T. O Extraterrestre (E.T. the Extra-Terrestrial, 1982), a saga Indiana Jones (1984 – atualmente) e Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993).
Entretanto, essa guinada do cinema não se tratou de um evento ocasional. Em entrevista ao Cinéfilos, Fábio Francener, doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo, afirma que a ascensão de Spielberg e dos blockbusters ocorreu no contexto da Nova Hollywood.
Entre meados das décadas de 1950 e 1960, o aumento da popularidade da televisão e mudanças nos padrões de consumo decorrentes do fim da Segunda Guerra Mundial levaram a uma crise da produção cinematográfica estadunidense. Nesse contexto, o movimento Nova Hollywood buscou promover a reestruturação do cenário ao visar um aumento de alcance.
Uma das principais características desse período da indústria cinematográfica hollywoodiana foi a liberdade criativa dos diretores que dele participaram, explicitada pelo caráter autoral e pelas abordagens pessoais que se faziam presentes em suas obras, ainda que produzidas por grandes estúdios. O período foi marcado pela atuação de cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola e, a partir dos lançamentos de filmes como O Poderoso Chefão (The Godfather, 1972), Tubarão e Guerra nas Estrelas, se orientou em direção à era dos blockbusters.

Fábio afirma que a influência do movimento Nova Hollywood nas obras de Spielberg pode ser notada pelas “assinaturas pessoais” que as permeiam. “Todos os filmes dele têm composições extremamente ricas, movimentos de câmera reveladores e composições que sempre querem dizer algo”, comenta. Além disso, as narrativas dos filmes do cineasta também costumam abordar temáticas pessoais, como a solidão da infância, núcleos familiares desfeitos ou o impacto direto de eventos traumáticos nos personagens.
A construção dessas temáticas por meio da representação de uma jornada emocional dos personagens são comuns nas obras do cineasta. Utilizando como base as ideias de Ismail Xavier, Fábio explica que os filmes de Spielberg costumam apresentar cenas dotadas de uma grande carga emocional, produzida em conformidade com certas características do melodrama.
“Ismail Xavier trata o melodrama como o processo de externalizar tudo o que é interior”, afirma. “As emoções são expressas pelo corpo, pelas lágrimas, pelo grito”. No universo cinematográfico, essa espécie de drama busca direcionar intensas reações emocionais da plateia por meio de apelos afetivos gerados por uma combinação entre melodia, imagem e representação de temas sensíveis, como questões familiares, abandonos, separações e reencontros.
Um exemplo dessa característica trata-se da clássica cena no final de E.T. O Extraterrestre, em que Elliot (Henry Thomas) se despede de seu amigo alienígena. Já a cena final de Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989) coloca a reconciliação entre pai e filho como ponto central da narrativa ao mostrar Indy cavalgando em direção ao pôr do Sol após abrir mão do Graal.

A construção de pontes emocionais entre a trama e os espectadores, tão recorrente nas obras de Spielberg, foi responsável por transformá-las em elementos marcantes para o público e instaurar o sentimento de nostalgia ao redor delas, décadas depois dos lançamentos.
Entre entretenimento e tom político
O primeiro filme que rendeu um Oscar a Steven Spielberg também marcou uma nova abordagem feita por ele. A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993), que conta a história real de um empresário alemão que salvou milhares de vidas durante o holocausto, evidencia o amadurecimento do diretor pelo tom sombrio que ele passa a adotar. Isso o levou a uma virada na percepção crítica, até então mais associada ao entretenimento.
Ao todo, A Lista de Schindler recebeu 12 indicações ao Oscar de 1994 e levou os prêmios de melhor diretor e melhor filme. O longa foi apenas o começo do tom político adotado pelo diretor, que passou a abordar as histórias e as questões sociais de forma mais direta e complexa. Segundo Fábio, depois de A Lista de Schindler, os filmes de Spielberg passaram a ficar mais engajados no mundo, sem deixar de ter uma abordagem melodramática. Para ele, os universos retratados já não eram mais relacionados à infância e à família, mas sim aos interesses históricos.
Porém, para Fábio, essas temáticas já estavam sendo abordadas desde seus primeiros filmes, ainda que subjetivamente. “Você pode ter um elemento que tá em potencial numa época do artista e que vai ganhar mais espaço depois. Porque isso também envolve a maturidade enquanto pessoa, a maneira de ver o mundo”, comenta.

Nos anos seguintes, o diretor seguiu trabalhando tanto em filmes blockbusters, quanto em filmes mais estéticos e engajados politicamente. Esse contraste pode ser observado nos filmes lançados em 1997: O mundo perdido: Jurassic Park (The Lost World: Jurassic Park, 1997) e Amistad (Amistad, 1997). O primeiro é uma sequência de ficção científica altamente comercial, enquanto o segundo é a história de uma revolta de africanos escravizados em um navio negreiro no século XIX. Nesse mesmo ano, Spielberg também atuou como produtor do filme MIB – Homens de Preto (Men in Black, 1997), sendo uma figura importante para convencer Will Smith a protagonizar o longa.
No ano seguinte, com O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998), Spielberg apresentou mais um filme de melodrama mergulhado em um contexto histórico real. O longa aborda a história de oito soldados americanos que precisam encontrar um paraquedista perdido na Normandia. Fábio afirma que a cena final do filme serve como um exemplo perfeito do formato melodramático, tratando da reação à morte, separações e reencontros.
Abordando a participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, o filme contém um discurso patriótico fortíssimo. O Resgate do Soldado Ryan honra o sacrifício dos veteranos, ao mesmo tempo que desmistifica a glória da guerra e faz uma declaração política sobre o valor de cada vida. Ao redefinir o cinema de guerra com um realismo brutal, Spielberg voltou a vencer o Oscar de Melhor Diretor em 1999, junto com a vitória de outras 5 estatuetas.

Spielberg e os novos tempos
Ao entrar no século XXI, Steven Spielberg já não precisava provar nada a ninguém. Dono de uma das carreiras mais influentes da história do cinema, o diretor poderia ter se acomodado em seu próprio legado. Em vez disso, ele escolheu se reinventar, passando pelas últimas décadas em novos temas sem perder o diálogo com o grande público.
Filmes como Inteligência Artificial (2001), Minority Report (2002) e Guerra dos Mundos (2005) revelaram um cineasta atento às ansiedades contemporâneas — tecnologia, vigilância, medo e colapso social — enquanto obras como O Terminal (2004) e Munique (2005) mostraram o Spielberg mais político e humanista. Para Fábio, o diretor conseguiu com o passar do tempo mudar as narrativas de seus filmes. “Ele não se furta a tocar o dedo em algumas feridas que talvez lá atrás, nos anos 70, ele não tocava”, afirma.
Mais tarde, em 2018, Steven Spielberg se tornou o primeiro diretor a arrecadar mais de US$ 10 bilhões com filmes. Essa marca foi alcançada graças ao lançamento de Jogador Nº 1 (Ready Player One, 2018), que representou o retorno de Spielberg à ficção científica e ao cinema de entretenimento de grande escala. O filme, repleto de referências à cultura pop dos anos 1980, incluindo as obras do próprio diretor, foi um sucesso de bilheteria e de crítica, elogiado por seus efeitos visuais.
Mais de 40 anos separam o lançamento de Jogador Nº 1 de Tubarão, considerado o primeiro blockbuster da história. Mesmo com décadas entre as duas produções, o impacto da habilidade de contar histórias de Spielberg pode ser sentida em ambos os filmes, o que refletiu na bilheteria dos dois longas. Para Fábio, o nome do diretor sempre causou uma boa aceitação do público: “Eu acho que a recepção dele sempre foi muito positiva mundo afora. Eu lembro de sempre esperar o próximo filme dele com expectativas”.

Em Amor, Sublime Amor (West Side Story, 2021) Spielberg dirigiu uma aclamada adaptação do musical clássico que, embora não tenha sido um grande sucesso de bilheteria, foi um triunfo crítico. Com várias indicações ao Oscar, o longa mostrou a versatilidade do diretor em diferentes gêneros a aprovação da crítica especializada.
Em seu último filme lançado, uma autobiografia que é uma espécie de carta de amor ao cinema, Spielberg narra sua infância e a descoberta de sua paixão pela sétima arte. Os Fabelmans (The Fabelmans, 2022) foi aclamado como um de seus melhores trabalhos em anos, recebendo múltiplas indicações ao Oscar e solidificando sua reputação como um mestre contador de histórias.
Mesmo após mais de cinco décadas de carreira, Spielberg segue produzindo. Entre seus próximos projetos estão novos filmes de ficção científica e produções voltadas para o cinema autoral, além de seu trabalho contínuo como produtor em séries e longas. Se tratando de um diretor que sabe se reinventar e contar histórias como nenhum outro, as expectativas seguem altas pelas novidades e pelas mudanças que elas podem gerar no cinema mundial.
“Não tenho medo de nada. Eu abraço a mudança. Sempre abracei e sempre abraçarei”
Steven Spielberg em entrevista à Pirelli
